Lady Gaga – Joanne | Crítica

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Lady Gaga nunca passou despercebida por ninguém. Não importa se você é fã das divas pop ou se nunca costuma ouvir o Top 10 das rádios norte-americanas, em algum momento você já criou uma opinião sobre ela. Isso alimentou uma aura de extrema ansiedade ao redor de cada passo de sua carreira.

Ansiedade saudável no início, com cada clipe da era The Fame superando o anterior e culminando em The Fame Monster, um verdadeiro divisor de águas audiovisual no pop norte-americano. Pareceu demais em Born This Way, e entregou mais do mesmo ARTPOP. Lady Gaga foi da absoluta exaltação para uma ânsia por originalidade que não foi compreendida. E que, hoje, nos entrega Joanne, seu quinto álbum de inéditas.

Esse background é importante para entendermos a história que seu novo disco conta. Depois de instituir um novo parâmetro artístico e performático no pop, ela voltou às suas origens cantando jazz ao lado de Tony Bennet, atuando em American Horror Story (o que lhe rendeu um Globo de Ouro) e se apresentando no Oscar – posicionando-se muito mais como artista e cantora do que como diva pop sob o olhar da crítica -. Toda essa jornada a elevou a um ponto da carreira no qual ela pode escolher com liberdade o que fazer. E a escolha foi descansar os vestidos de carne e os saltos altos e assumir sua história.

Joanne é o nome de sua tia, que faleceu cedo, devido ao Lúpus (doença que também acomete Gaga) e deixou um legado artístico de quadros e poesias na família. Lady Gaga foi batizada incorporando seu nome – Stefani Joanne Angelina Germanotta. A ligação entre as duas se estabelece em todos esses pontos, e, de chapéu rosa e botas de cowboy, Gaga transforma sua tia em um alter-ego (ou em um próprio reflexo de sua personalidade que não conhecíamos) e fala menos sobre política e liberdade, e muito mais sobre seus demônios internos e como eles fazem parte de sua jornada.

Abrindo com “Diamond Heart”, ela discorre sobre ter 19 anos e fazer o que quiser por diversão. É um retrato de seus primeiros anos de carreira nos bares de Nova York, que causa um estranhamento por ter uma estrutura pop típica de seus singles, mas sem o peso dos sintetizadores. Estabelece de cara o que veremos: Lady Gaga apoiada em baixo, guitarra e bateria, mas ainda pop.

O mesmo acontece em “A-YO“, mais radiofônica que a anterior, seguindo algumas tendências de hits como “Shake It Off”, de Taylor Swift, mas substituindo os sintetizadores por metais e algum backing vocal. É a faixa para se dançar e cantar ao redor dos amigos.

Quando apresenta “Joanne“, a faixa que dá título ao álbum, é consideravelmente chocante. Tanto pela vulnerabilidade dos vocais, que deixaram qualquer tratamento de lado, na maior parte do disco, e especialmente nessa faixa, quanto na simplicidade instrumental apoiada em violão e em percussões sutis. A composição e o tom da música apresentam uma Gaga ainda não vista antes, que agrada aos ouvidos de quem não acompanha sua trajetória pop. É quase o completo oposto, em termos de impacto, de “Million Reasons“, outra faixa que busca a proposta do country emocional, mas se apoia em uma repetição que a empurra para uma “fórmula de balada poderosa” que o público já ouviu tantas vezes.

John Wayne” é um respiro pop que se apoia na batida muito mais do que na letra. Boa música para dançar depois de algumas cervejas sem pensar muito, e bem diferente do que se ouviu até aqui. Assim como “Dancin’ in Circles“, que traz uma vibe de reggaeton e vocais parecidos com os de seu primeiro disco, The Fame, acompanhando a letra sobre “se divertir sozinho”, em todos os sentidos.

As faixas desembocam em “Perfect Illusion“, o single que dividiu opiniões. Dentro da estrutura do álbum ele faz bastante sentido, pois trás um pouco da vulnerabilidade nem sempre genuína nos vocais, e caminha entre o pop de sempre e a vibe rock que Gaga explora em muitos momentos. Mesmo não sendo um single explosivo, agrada dentro do contexto.

Sinner’s Prayer” é um manifesto de erros em sua letra, e tem uma melodia que gruda facilmente. Uma faixa tipicamente country, com uma linha de baixo que remete ao pop e evidencia a experimentação de Gaga. Não é uma das faixas mais poderosas do álbum, mas agrada com facilidade.

O mesmo não pode se dizer de “Come to Mama“. Gaga volta a flertar com o jazz e tenta trazer ainda assim uma pegada dançante nostálgica, mas que não acompanha o ritmo do álbum e força um vocal quebrado, que não parece preencher a música o suficiente nem em potência nem em emoção.

Uma das faixas mais esperadas, “Hey Girl“, a colaboração com Florence Welch, traz o pop de Prince entoado em uma letra feminista, encaixada numa melodia que explora diversas nuances agudas da voz de Gaga, combinando-a bem com a voz característica de Florence. Posso dizer que esperava uma faixa mais explosiva, mas a suavidade parece necessária, colocando as duas em harmonia – dando mais sentido a letra, que busca cessar conflitos entre mulheres -.

A versão comum do disco fecha com “Angel Down“. Acertada escolha, a música evidencia em sua letra a confusão das prioridades modernas, com pessoas tão fechadas em si que não percebem nem mesmo “a morte de um anjo”. A produção é simples, baseada em atmosferas, harpas, e um distorcido canto gregoriano. Em certo ponto, algumas cordas, violão e uma leve percussão. O destaque é para a interpreção de Gaga, que aqui acerta o tom e usa com sabedoria seus recursos. É um final bastante intenso.

A versão deluxe possui três faixas-bônus: “Grigio Girls“, composta em homenagem a uma amiga que sofreu um câncer e que exalta tudo que ela ensinou a Gaga em uma melodia e levada tipicamente indies, que elevam o ânimo e que caberia facilmente na versão standard do disco; um novo flerte com levadas de jazz em “Just Another Day“, dessa vez muito mais acertados ainda que não tornem a música um grande destaque; e uma releitura de “Angel Down“, chamada de “Work Tape“, que dá a entender que foi gravada em take único, acompanhada de piano e violão, revelando a potência e profundidade da música em uma interpretação notável de Gaga.

Joanne está longe de ser um disco ruim. Tem suas falhas, algumas faixas pouco coesas com o caminho proposto, mas conta uma história e apresenta um passo ousado e importante para quem Lady Gaga será a partir de agora.

Ele não apresenta a Gaga que estamos acostumados, e que vale a curiosidade de conhecer. É como se chegassemos em seu camarim, depois de um show eletrizante, sentássemos ao seu lado e a observassemos tirar os figurinos e sentar ao piano para tocar um pouco de suas músicas favoritas na infância.  [Jonathan Mendonça]

**** (Ótimo)

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