Shirley Manson, do Garbage, fala sobre sexo, feminismo e família

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O Garbage demorou 17 anos para vir ao Brasil pela primeira vez, em 2012. “Ficamos chocados com a recepção que tivemos. Lembro que estava frio, escuro e bonito. E barulhento. Ficamos muito, muito surpresos com o público”, diz a sempre eloquente vocalista, Shirley Manson, de 50 anos.

Desta vez, a espera foi menor: Shirley e banda fazem dois shows no país (São Paulo, 10/12, e Rio de Janeiro, 11/12), e com um belo novo disco na bagagem, o elogiado Strange Little Birds. Além de afiada musicalmente, Shirley segue, com seu indefectível sotaque escocês, carismática na hora de falar de assuntos como sexo, família e feminismo. [Bruna Veloso]

Quais as principais diferenças entre fazer turnês agora e 20 anos atrás?
Bom, a diferença mais importante é a Netflix [risos], porque mudou a qualidade de vida para um músico que está sempre viajando. Isso e o celular. Eu diria que provavelmente são as duas melhores coisas que surgiram nos últimos 20 anos. Facilitou muito a vida em turnê. Quando o Garbage começou a viajar para fazer shows, usávamos cartões para fazer ligações em telefones públicos. E quando você chegava ao hotel, tinha uns três canais na TV, se você tivesse sorte, sendo que nenhum deles era em inglês ou tinha algo além de esportes ou pornografia [risos].

Durante a divulgação de Strange Little Birds, que não é um álbum necessariamente feliz, você falou sobre o incômodo que sente com os padrões de felicidade inatingíveis exibidos nas redes sociais, com todo mundo tentando fazer parecer que tem uma vida perfeita. É um paradoxo que, mesmo com todo o acesso à informação que a internet proporciona, ainda sejamos enganados por esses padrões?
Claro que é. Acho que, particularmente se você é jovem, e está crescendo agora… eu tenho dificuldade de lembrar de tempos mais difíceis que os atuais. É tanta riqueza e perfeição jogada nas redes sociais que é dolorido imaginar você olhando para isso o tempo todo, se comparando e sempre se sentindo em falta com esses padrões. No fundo, eu sei que a maioria disso [do que as pessoas postam] não é a verdade completa, são apenas pequenos retratos de momentos específicos de uma vida inteira, e que eles todos juntos não necessariamente representam uma vida que é completamente incrível. Acho que é importante lembrar que todas as nossas falhas, que todas as coisas que não entendemos na nossa vida e os erros que cometemos se acumulam para fazer de nós as pessoas que somos. Para mim, sentimentos e falhas são as coisas que tornam as pessoas interessantes e, de um jeito particular de cada uma, belas. Não acho que a perfeição existe, então por que passamos as nossas vidas fingindo que existe, sendo que é uma ilusão? Acho que seríamos muito mais felizes se aceitássemos que podemos errar, que podemos ser cheios de falhas, e que tudo bem.

Muitas jovens te veem como um modelo a ser seguido. Isso em algum momento se tornou uma responsabilidade difícil de se carregar?
Bem no começo da minha carreira, me perguntaram sobre o que eu achava de ser um “modelo”. Mas não levei a pergunta a sério. Não acho que eu tenha feito algo particularmente extraordinário para aceitar esse manto. Os termos “modelo” e “ícone” são proferidos como se fossem algo fácil de se alcançar, mas não são. Pouquíssimas pessoas podem ser chamadas de ícone; pouquíssimas pessoas apresentam um modelo positivo a ser seguido. Ser conhecido, fazer sucesso – isso para mim não significa ser um modelo a ser seguido, ou ser um ícone. Então, não sinto que é uma responsabilidade. Tento viver uma vida da qual me orgulhe, e da qual meus sobrinhos se orgulhem enquanto crescem. Sinto que se eu conseguir gerir minha carreira sem envergonhar minha afilhada, terei sido bem-sucedida [gargalha].

Mas você tem um papel importante como feminista.
Eu sinto que as mulheres jovens, mais do que nunca, precisam de figuras fortes, de liderança; mulheres mais velhas, como eu, que as ajudem a navegar por essas águas turbulentas. Nesse caso, sim, eu vejo como um papel de responsabilidade, o papel de alguém para compartilhar suas experiências e a partir disso ajudar alguém. Isso eu levo muito a sério. Quero que elas atinjam seus objetivos, quero que sejam bem-sucedidas, e farei o meu melhor para ajudar nesse ponto.

Você sente o retorno de fãs mais jovens, por falar de coisas como feminismo ou assuntos relacionados à mulher?
Eu não sei… Não sei se as garotas prestam atenção a mim ou não. Não cabe a mim dizer. Não me faz perder o sono se tem alguém me ouvindo ou não. Faço o meu melhor para ajudar, mas na verdade cabe a cada uma delas [seguir seu caminho]. Muitas mulheres, da minha idade ou mais jovens, não sentem uma conexão comigo. Mas também há pessoas, da minha idade ou mais jovens que eu, que sentem essa conexão. Então, tento apenas ser verdadeira comigo mesma. É o que eu tenho feito, para o bem ou para mal [risos].

Uma dessas coisas por um acaso te incomoda mais: o fato de mulheres falarem sobre masturbação ainda ser quase um tabu, por exemplo, ou o fato de uma mulher que escolhe não ter filhos ainda ser questionada por isso?
Hum, essa é uma pergunta difícil. Eu provavelmente fico mais irritada com o fato de que a sexualidade feminina ainda não tem o mesmo peso ou importância do que a sexualidade masculina. Isso me deixa consternada. Acho que as mulheres deveriam poder falar de masturbação da mesma maneira que os homens falam. Acho que as mulheres deveriam poder ir a uma casa de striptease da mesma maneira que os homens vão, e simplesmente olhar para homens pelados, caso elas queiram. Mas a nossa cultura ainda não é assim. A divisão entre a sexualidade feminina e a sexualidade masculina continua sendo tão complexa… acredito muito que as mulheres deveriam ser senhoras de sua própria sexualidade e aspirar satisfação sexual e poder viver a mesma liberdade sexual que os homens sem serem taxadas como vagabundas. Eu não sei qual a solução para essa diferença, mas essa diferença me deixa completamente maluca [gargalha].

Sendo uma pessoa que gosta de artes, também aprecia arte erótica?
Eu tenho algumas peças de arte erótica. Tenho belíssimos quadros indianos que comprei há muito tempo. Às vezes esqueço quando vão pais e seus filhos à minha casa – vejo as crianças olhando e fico tentando distraí-las dessas pinturas bem sexuais que tenho lá [risos]. Mas sim, eu adoro arte erótica. E adoro falar sobre sexo, sinto que é uma maneira de me apossar de um sentido de igualdade nesse mundo. Não concordo com a ideia de que a mulher deve ficar sentadinha num canto, ser bonitinha e simplesmente estar lá respirando. Eu acredito que para algumas mulheres ficar nesse canto e se tornar mãe é uma aspiração – e se é isso que a faz feliz, ótimo, ela tem de poder viver a vida que escolheu. Mas se você quer ser uma mulher “selvagem”, que não quer ter filhos e que quer curtir sua vida sexual da mesma maneira que o homem, também deveria ser capaz de viver essa vida sem ser julgada por isso. O problema é que as mulheres ainda não têm essa possibilidade sem atrair para si um monte de críticas.

De um lado, temos Cinquenta Tons de Cinza, que é um livro direcionado ao público feminino e que fala sobre sexo. Ao mesmo tempo, ele continua vendendo a ideia do príncipe encantado.
Para ser sincera, fui muito contra esse livro. Para mim, foi quase ofensivo. Não me surpreendeu o fato de ter se tornado tão popular, porque, como você disse, ainda traz a ideia do homem no comando. Ao mesmo tempo, a gente esquece que, por exemplo, o movimento sufragista, na Inglaterra, ocorreu há apenas 100 anos. É um espaço de tempo muito curto. Eu realmente acredito que nas gerações que se seguirão à nossa mais e mais mulheres vão assumir posições de comando. E uma mensagem muito importante que acredito que deve ser passada adiante: a ideia do feminismo e da igualdade não está aí para ameaçar os homens. Espero que os homens entendam isso e se juntem a essa luta para melhorar a vida de suas mães, filhas, irmãs, tias, avós. Sinto que se os homens não se juntarem a essa luta, vai ser muito difícil atingir a igualdade. Mas também acredito que ainda há grandes mudanças para acontecer. Penso na minha avó e vejo que tenho muito mais liberdade que ela teve, e espero que a próxima geração tenha mais liberdade que eu e você temos.

Você já falou em entrevistas sobre um sentimento bom que vem com o fato de você estar ficando mais velha. Ao mesmo tempo, também já te ouvi falar sobre sua dificuldade de lidar com a morte. Como você lida com a ideia da morte hoje?
Sabe, eu sou uma mulher prática. Sei que a minha morte vai chegar, e como resultado isso trouxe um entendimento para o meu dia a dia, para o meu presente. Acho que é importante ter a noção de que seu tempo aqui está acabando. Me faz querer olhar para a minha realidade, porque aí eu não desperdiço tempo. Tenho sempre o cuidado de que as pessoas que amo saibam que eu as amo, porque elas podem não me ver no dia de amanhã.

Garbage no Brasil
São Paulo
10 de dezembro, às 18h
Tropical Butantã – Av. Valdemar Ferreira, 93 (200m da Estação de Metrô Butantã)
Ingressos entre R$ 100 e R$ 500 (há meia-entrada)

Rio de Janeiro
11 de dezembro, às 18h
Circo Voador – Rua dos Arcos, S/N
Ingressos entre R$ 100 e R$ 200 (há meia-entrada)

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