Haruki Murakami e Seiji Ozawa trocam experiências sobre música em novo livro

CADERNO 2Duas visões. Obra traz reunião de diálogos entre o escritor Murakami e o maestro Seiji Ozawa


A música clássica não é estranha ao escritor japonês Haruki Murakami. Sua trilogia 1Q84 começa com um personagem ouvindo a Sinfonietta de Janácek. Bach, Brahms e Debussy povoam as páginas de Norwegian Wood. Mozart está por toda parte em Dance, Dance, Dance. Em O Incolor Tsukuru Tazaki, são os Anos de Peregrinação de Liszt que acompanham a viagem do protagonista rumo a si próprio – e a narrativa que transforma a voz única de Tsukuru em um caleidoscópio de versões de si mesmo sugere que, mais do que tema, a música é em muitos casos forma na obra do escritor.

Mas faltava um livro de Murakami sobre música. E é isso que ele nos oferece em Absolutely on Music. Recém-lançada no mercado americano e europeu, a obra é uma reunião de diálogos entre o escritor e outro ícone da cultura japonesa, o maestro Seiji Ozawa. Nome estelar da regência, durante 30 anos diretor da Sinfônica de Boston, ele precisou diminuir o ritmo de apresentações há alguns anos por conta de um câncer no esôfago. Com o tempo livre, aceitou o convite de Murakami para essas conversas.

O mundo da música clássica costuma ser tão fechado em torno de si mesmo que é, de cara, interessante vê-lo dialogar com outras áreas, aqui por meio da conversa entre maestro e escritor. E Murakami não é, de qualquer forma, um interlocutor qualquer. O próprio Ozawa, a certa altura, se surpreende com a invejável coleção de CDs e LPs do amigo, mas ressalta que seu conhecimento não é enciclopédico ou superficial: cada peça, cada gravação parece ter sido ouvida e refletida à exaustão.

Não por caso, são interessantes passagens como aquela em que ambos discutem diferentes interpretações de Ozawa para o mesmo concerto ou a mesma sinfonia; ou então o modo como relacionam a música de diferentes autores: Beethoven, diz Ozawa, trabalha o diálogo entre as partes, enquanto Brahms coloca o todo acima da sonoridade individual do instrumento. Já entre Mahler e Strauss, a diferença é outra: o primeiro trabalha com sons crus, enquanto a sonoridade straussiana é mais “redonda”.

Da mesma forma, é estabelecido um contato entre as gravações do pianista Glenn Gould e o conceito de “ma” presente na música asiática: a importância da pausa na interpretação, dos “espaços vazios” onde você simbolicamente coloca a sua audiência e a torna parte da interpretação musical. Outra noção é a da aproximação com o repertório ocidental por meio de uma “melancolia” particularmente japonesa.

Há muitos insights como esses, assim como história de juventude (aluno de Leonard Bernstein e Herbert von Karajan, Ozawa conta, com honestidade saborosa, que mal falava outro idioma além do japonês e, por conta disso, não entendia quase nada do que lhe era dito por ambos). Mas Murakami é um escritor e está interessado em aspectos extramusicais, ou em uma interessante reflexão quase filosófica sobre o ato de fazer música. E é aqui que há um descompasso claro entre os dois personagens. Quando Murakami pergunta sobre a liberdade do intérprete ou arrisca uma análise psicanalítica de Beethoven, Mahler e a relação de ambos com a tradição germânica (no primeiro, ela se dá na superfície; no segundo, nos subterrâneos da mente), fica no vácuo.

Esse descompasso não é necessariamente um problema. O próprio Murakami se dá conta dele quando escreve, na apresentação, que Ozawa vive em um mundo que “transcende o pensamento racional, da mesma forma que um lobo só pode viver nas profundezas da floresta”. Nesse sentido, Absolutely on Music pode decepcionar, mas não completamente. Afinal, na dificuldade de se definir ou pensar a música em palavras há muito a se descobrir sobre a nossa relação com essa forma de arte tão particular e, ainda assim, universal. [O Estado de S. Paulo]

ABSOLUTELY ON MUSIC
Autores: Haruki Murakami e Seiji Ozawa
Editora: Knopf (352 págs.; R$ 93 (versão e-book: R$ 49)

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