Crítica: em seu segundo disco, Karen Elson mostra segurança além do que se esperaria de uma modelo que canta

00433RIO – Conta a lenda que Chico Buarque estava promovendo um de seus livros na Noruega quando ouviu a pergunta: “É verdade que você também compõe e canta?”. Pois essa filosofia desavisada bem poderia aplicar-se a Karen Elson. Quem ouve aquela ruiva comprida sussurrando melodias tristonhas como a de “Wonder blind” (“Oh, vale a pena/ Perder-se quando já se está perdido”, filosofa), à frente da produção afiada deste “Double roses”, imagina: “essa cantora é tão bonita, poderia ser até modelo…”

Ex-mulher de Jack White (sim, explica muita coisa: foi com ela que o integrante dos White Stripes, Racounteurs, Dead Weather e um dos principais músicos deste século se casou em uma cerimônia abençoada por um pajé, no encontro dos rios Negro e Solimões, na Amazônia, em 2005), Karen, em seu segundo disco, segue um tortuoso caminho folk, que liga, com escalas, as florestas da Europa às plantações do Sul americano.

Conduzida por violões e cordas, a cantora-modelo de 38 anos passeia por melodias melancólicas em músicas como “Raven” (“Corvo”, que também traz em si um cheiro de “Blackbird”, dos Beatles, na temática) e a mais animadinha “Hell and high water”.

Em “A million stars”, Karen vai para o lado musical do ex-maridão, compositor nascido em Detroit mas com um pé na América profunda – o casal viveu e teve dois filhos quando morava em Brentwood, subúrbio da ultramusical Nashville, no Tennessee. A canção tem uma levada reta, suavemente marcial, e é pontuada por um slide maroto. “Sou assombrada por uma memória”, canta ela, que parece referir-se ao fim do relacionamento dos dois, mas lá se vão seis anos. A lamentosa “Wolf”, que une os dois universos, o folk-blues americano e a melancolia europeia, traz uma interpretação banhada em efeitos de voz e muita personalidade, além de um pungente solo de saxofone no fim. E mais queixas de um amor que deixou a pobrezinha decepcionada (“Não posso falar/ O Diabo pegou a minha língua).

Se o mundo fashion estiver cansando a beleza (metaforicamente, óbvio), Karen Elson já encontrou uma atividade que pode lhe render mais uns tostões. Talvez fosse bom sofrer menos, mas pode ser que a graça esteja exatamente aí. [Bernardo Araujo]

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