Neste novo momento da moda, elegância e conforto andam juntos

Quero ser sexy? O que é ser elegante? É possível ter um look sofisticado sem sofrimento? Os esforços pelo empoderamento feminino e as mudanças recentes na moda têm permitido que as mulheres encontrem as tendências que melhor as representam sem seguir velhas regras. Desses novos desejos, emerge um conceito batizado de comfortwear – não pense em roupas para ficar em casa, mas em produtos que contrariam a ideia de que a sofisticação e o sacrifício andam juntos.

“A mulher durante muito tempo foi educada a não se importar com conforto, mas buscar certo ideal de beleza acima de tudo. Quem tem cerca de 40 anos certamente se lembra da máxima de que ‘para ser bonita é preciso sofrer’”, argumenta a consultora de moda e imagem Ana Vaz, que tem entre seus clientes UniLever, Natura e Grupo Boticário. “Era preciso entrar em um padrão estético que nos enche de dores físicas e emocionais. Hoje estamos abandonando a ideia de sofrimento e toleramos bem menos o desconforto”, diz.

Lado a lado dessa ideia, surge um novo conceito de sexy. “Estou pensando em fazer roupas para pessoas ativas, com paixão para trabalhar e viver. Por outro lado, com certeza o conforto pode ser algo atraente”, afirma Helena Yambanis Obersteiner, 24 anos, fundadora da grife Zhoi, que tem menos de um ano e tem clientes em várias partes do país.

A Zhoi se intitula como comfortwear, inspirada em referências esportivas e street. Helena fala para a geração millenial, que tem vivido o cotidiano urbano de forma atualizada e intensa. “O ‘novo atraente’ é estar bem e lindo do jeito que somos. O que é muito melhor do que estar vestindo algo que parece ser maravilhoso, mas que faz você se sentir presa, sabe?

Roupas confortáveis mais amplas também esbarram no conceito de genderless: “Marcar menos o corpo coloca a gente num lugar mais igual e acho que as pessoas conectadas nos novos valores também estão buscando isso”, explica Helena.

A Cotton Project foi além e abraçou a própria ideia de conforto como a inspiração principal de sua coleção desfilada na última edição da São Paulo Fashion Week. “Pensem nos CEOs do novo milênio”, disse Rafael Varandas, diretor e proprietário da marca, no backstage, se referindo aos executivos low profile do Vale do Silício. A ideia era esta: pensar que os novos poderosos, que são jovens e têm outras prioridades, não necessariamente estarão empacotados como os empresários de outras épocas.
“O sucesso durante anos foi desenhado com linhas retas, ângulos rígidos, tecidos estruturados, cores escuras, opacas e frias. Essa nova modelagem confortável rompe com tudo isso ao trazer tecidos mais fluidos e texturas aparentes, como no tricô”, analisa a consultora Ana Vaz.

yellLook da Cotton Project inspirado no tema conforto. (Cotton Project/Divulgação)

Nomadismo Chic

O crescimento das carreiras autônomas é outro fator importante nessa história. O network, nesse caso, é feito o tempo todo e de qualquer lugar. “Não existem mais tantas barreiras entre o pessoal e o profissional. Levamos o trabalho para casa ou para qualquer lugar que quisermos. Então para que pôr roupa de trabalho? Por que preciso estar caracterizada de um jeito específico para exercer uma função?”, questiona Ana.

A estilista Helena, da geração de quem está começando a trabalhar, só conhece esse novo modo de vida. “Pensamos a moda para pessoas que estão ativas. Pessoas que andam na rua, que vão andar de bike, que pegam ônibus. Elas precisam se sentir bem com o que estão usando e não podem perder tempo pensando em coisas que estejam atrapalhando, restringindo a ação. Eu mesma tenho esse tipo de necessidade estética”, explica Helena, que antes de ser designer da Zhoi era assistente de figurino de longas-metragens e teatro. “Roupas podem nos trazer possibilidades e restrições. Não queremos nos sentir engessados. A liberdade é o conceito mais atraente para os jovens hoje, e a gente acha isso ótimo”, diz.

Em outra vertente, o conforto também aparece como uma moda que acolhe. “A roupa mais confortável é a que acaba sendo a mais usada. Temos roupas que equilibram conforto e estética e usamos sempre, adotamos como peças de guerra. Isso acaba influenciando nossas compras. Fazemos essa associação positiva com o aspecto gasto, ou amaciado”, analisa Rafael, da Cotton Project. “Quando vejo uma calça da Levi’s vintage, a primeira coisa que me vem à cabeça é uma peça confortável, mesmo sendo nova. Se vejo um jeans japonês raw (dos mais puristas, com poucas intervenções), já não quero porque a peça fica dura ainda que você use durante anos”, diz.

Para Raquel Davidowicz, diretora criativa da Uma, conforto é uma preocupação essencial de suas clientes. “Nossa consumidora não compra nada com que não se sinta bem”, diz. As peças da marca transmitem o que de mais precioso o minimalismo pode ter: qualidade na matéria-prima e esperteza no design, que faz com que poucos detalhes digam tudo. “A escolha dos tecidos é fundamental. Devem ter qualidade, fluidez, maciez, durabilidade.”

red.jpgCampanha da marca de meias Surreal. (Surreal / Samuel Esteves/Reprodução)

O stylist paulistano Thiago Ferraz, que assinou o styling das duas coleções da Lab, a revelação recente do streetwear nacional, acredita que muito do chic confortável deriva de inovações técnicas. “A tecnologia está trazendo tecidos inteligentes, confortáveis, que respiram. Não há nada que supere você sair de moletom com um shape superbacana, bem cortado e poder ir trabalhar. É uma possibilidade que a tecnologia e o design estão trazendo para a moda”, finaliza.

Outra representante desse movimento que virou uma queridinha dos jovens é a Surreal São Paulo, uma marca de meias. “As meias são essenciais no dia a dia puxado e cansativo e acabaram se tornando um produto de estética que finaliza o look”, diz Bruno Paschoal, cofundador da grife.

Meias combinam estilo e conforto, além de serem complementares aos sapatos: apareceram, inclusive, com saltos altíssimos e sandálias nas últimas temporadas. “A gente sempre adorou meias e começamos a ver muita gente postando meinha gringa no Instagram, por isso quisemos fazer a nossa marca. São a base do conforto para os pés, que nos aguentam o dia todo. É uma questão de pensar no todo e no essencial.” [Juliana Lopes]

cinza.jpgCampanha da marca de meias Surreal. (Surreal / Samuel Esteves/Reprodução)


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