Arnaldo Danemberg só privilegia móveis anteriores ao século 20 em sua casa

Connoisseur do mobiliário brasileiro e apaixonado pelas madeiras e pelos estilos europeus, Arnaldo faz da arte do reencontro, do conforto e da memória a tônica do seu apartamento em São Paulo

Sem título.png3.jpgArnaldo posa no home office, que exibe (à dir.) cadeira espanhola (séc. 19) e, na parede, uma coleção de quadros de São José, de quem ele é devoto, além de obras de Alfredo Barbosa de Oliveira (à dir.)


O antiquário carioca Arnaldo Danemberg se sente à vontade em São Paulo. “Eu me estabeleci aqui. Sou parte da cidade e a cidade é parte de mim.” Há um ano e dois meses ele se transferiu de um apart-hotel para este pied-à-terre no Jardim Paulista, a poucos metros da filial do seu novo antiquário – abertura que motivou sua vinda para a capital paulista. Enquanto sua mulher, a psicanalista Katia Danemberg, com quem é casado há 35 anos, estabelece as regras decorativas no apartamento da família no Leblon, no Rio de Janeiro, este território paulistano reflete em seus elementos (e nos detalhes) o gosto, a trajetória e a alma de Arnaldo.

Com fala firme e doce e com poder de síntese, o morador, pai de André e Paloma Danemberg e avô de Rafaela, de 2 anos, revela seu foco: “Não entro no século 20”. Porém, sua paixão por móveis e objetos de épocas passadas não se resume a uma frase. É com prazer e vagar que ele aborda a procedência e a história de cada peça vista no espaço em tons de bege e branco, com predomínio das madeiras europeias seculares, decorado com a colaboração de Lu Kreimer. “Passei um fim de semana aqui sozinho e me lembrei de tantas coisas. E ainda falta lembrar de tantas!”, diz ele. “O resumo desta casa é: conforto e memória.”

A solidão não aflige Arnaldo. Embora tenha uma família “itinerante”, que ama o ir e vir e se locomover unida, ele viaja sozinho uma vida toda. “Duas cidades me marcaram: Florença foi um divisor de águas, por ser berço da arte. E é em Bordeaux, onde mantenho um depósito [assim como no Porto], que mando lavar meus casacos e pregar botões e onde compro pão numa padaria de 1765. É minha segunda casa”, afirma.

Quatro vezes por ano ele perambula por leilões, feiras e lojas da França, Inglaterra Bélgica e Portugal em busca das raridades que abastecem seus antiquários. Uma vez por ano monta o contêiner que é despachado para o Brasil. Especialista em mobiliário brasileiro, ele trabalhou como assistente de Tilde Canti nas pesquisas para o livro O Móvel no Brasil, em três volumes.

Foi professor universitário nessa disciplina, palestrou sobre as origens portuguesas da nossa mobília e chegou a catalogar as peças do Palácio Itamaraty, em Brasília.

A sala de jantar expressa o bom mix do apartamento. Ao redor da mesa francesa Luís Filipe, de nogueira, do século 19,umbaile de cadeiras nacionais: exemplares da Regência Inglesa e do estilo D.Maria no país, do hibridismo brasileiro e do neoclassicismo inglês convivem em harmonia, num décor que ainda passeia pelos cristais, pela porcelana e pela fotografia – por vezes, dos séculos 20 e 21.

No living, uma parada triunfal. “Veja esta mesa lateral do início do século 19, de cerejeira. Um mel! É macia. É o tempo…”, diz Arnaldo, enquanto acaricia a madeira. Junto ao armário francês do final dos anos 1800, feito de carvalho dourado, ele aponta para a marchetaria delicada que enobrece ainda mais o móvel, na qual se veem pereira e marfim.

Seguem-se um baú espanhol de exército, uma mesa anglo-indiana de teca e carvalho, uma mesa de ourives portuguesa que serviu de altar no casamento de sua filha (ele, aliás, comprou o ateliê inteiro do fornecedor) e uma miríade de outras relíquias.

Curiosamente, algumas delas foram comercializadas por ele e seu pai (também antiquário) décadas atrás e, nas voltas que a vida dá, acabaram retornando às suas mãos. “É um eterno reencontro. Costumo dizer que não estou em busca do tempo perdido. Estou à procura do tempo vivido!”

Texto: Artur de Andrade I Produção: Tissy Brauen I
Fotos: Deco Cury I Styling de Moda: Marilia Bertolucci I
Assistente de Moda: Felipe Santos I Makeup/ Hair: Ale Fagundes I
Assistente de Fotografia: Carlos Sevilla


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