Injeções no pênis e mentiras sobre Gwyneth Paltrow: ‘NYT’ faz mais revelações sobre Weinstein

d09f6fc2-1ad0-4209-88c5-4dd32c14039f-medium.jpgHarvey Weinstein em festa ao lado de Gwyneth Paltrow e Liv Tyler. (Foto: Divulgação)


Para levar atrizes e modelos com mais facilidade para a cama, o ex-produtor de Hollywood Harvey Weinstein recorreu a uma antiga artimanha: mentir sobre o fato de ter transado com uma mulher mais famosa que elas. Foi usando o nome de Gwyneth Paltrow nessa perversa tramóia, mas muito bem alicerçada pelo fato de que o filme “Shakespeare Apaixonado”, que ele produziu em 1999, ter vencido diversos Oscars, incluindo o de melhor atriz, que Weinstein seduziu várias mulheres. Uma delas, vítima de assédio sexual em 2004, viu uma foto de Paltrow no apartamento do produtor. Para outra, Weinstein disse que aceitar as fantasias dele  seria “a melhor coisa que você pode fazer para sua carreira”.

Em outubro, ao tomar conhecimento da mentira que circulava pelas suas costas, Paltrow, que nunca foi para cama o ex-patrão (o ex-namorado dela, o ator Brad Pitt, confrontou o produtor depois que este tentou avançar nela durante um encontro à sós), passou a contactar várias das vítimas de Weinstein que caíram nesse conto. Ela queria manifestar apoio a elas. “Ele não é a primeira pessoa a mentir a respeito de que dormiu com alguém, mas ele usou a mentira como uma arma de agressão”, disse Paltrow ao jornal The New York Times em nova e extensa reportagem disponibilizada no site do jornal na noite de terça (5).

O artigo assinado por quatro repórteres, que conduziram 200 entrevistas, é mais um minucioso trabalho investigativo do jornal que, no começo de outubro, revelou a dimensão do comportamento predatório de Weinstein. Desde então, quase uma centena de mulheres famosas e aspirantes ao estrelato, comentaram publicamente sobre as táticas de assédio do produtor, incluindo a mais forte das alegações: estupro.

A reportagem da Times, em outubro, não só fez a polícia de três cidades – Los Angeles, Nova York e Londres – a abrir inquérito contra o produtor, como promoveu uma avalanche de delações públicas de mulheres e homens vitimados pelo assédio e que derruba ou mancha a reputação de homens famosos das artes, política e mídia. A leva da última semana inclui o ator australiano Geoffrey Rush, do fotógrafo de moda Bruce Webber. Também, numa inesperada crise para o complexo das artes do Lincoln Center, em Nova York, o afastamento de lendárias figuras da ópera e da dança na cidade e que trabalhavam em prédios vizinhos: o maestro e condutor da Filarmônica de Nova York, James Levine, e o chefão do balé local, Peter Martins.

Dessa vez, o jornal centrou-se na tarefa de descobrir e confirmar, via várias fontes, a extensão do conhecimento, por parte de alguns agentes e representantes das atrizes de Hollywood, das táticas do poderoso chefão da indústria de entretenimento. Um grupo era conivente, ignorando os relatos das clientes ou pedindo a elas que não o delatassem. Outro manifestava repúdio, alguns até confrontando Weinstein à portas fechadas, ou pedindo para que suas atrizes não mais trabalhassem com ele. Mesmo assim, com a poeira assentada, eles decidiram não tornar nada público, a fim de não queimar a chance de qualquer oportunidade profissional futura com Weinstein.

A atriz canadense Mia Kirshner revelou ao Times ter experimentando ambos os lados  – de repúdio e o do “vamos deixar isso para lá” – dos seus três representantes. Isso aconteceu em 1994, quando Kirshner se tornou nome quente em Hollywood com o lançamento do filme “Exótica”, do diretor canadense Atom Egoyan, no mercado americano. Kirshner, que escapou dos avanços do produtor num quarto de hotel de Nova York, sem maiores incidentes, é uma das mais novas vítimas de Weinstein a se manifestar publicamente. O Times ouviu várias outras mulheres, mas muitas delas pediram aos repórteres que seus nomes não fossem revelados.

O jornal também pinta um retrato de como Weinstein manipulava repórteres de grandes publicações em troca de favores ou para saber que fatos eles tinham apurado recentemente sobre possíveis vítimas ou desafetos do produtor na indústria cinematográfica. Boa parte da investigação dos quatro repórteres centra-se nas atitudes desesperadas de Weinstein quando, em setembro, algumas semanas antes do artigo do Times ser finalmente publicado, este começou a ouvir rumores de que artigos estavam sendo preparados também pela rede de TV NBC e a revista The New Yorker.

Desperado, Weinstein recorreu à táticas antigas de sucesso, como fez com repórteres do jornal New York Post, da rede de TV Fox, e das revistas Variety, Vanity Fair e da extinta versão americana da revista francesa de cinema Premiere. Ele tentou, via um amigo, da agência de talentos CAA, que este oferecesse um projeto literário ao jornalista Ronan Farrow, com adiantamento financeiro polpudo.

O filho da atriz Mia Farrow com o cineasta Woody Allen preparava uma reportagem para a rede NBC, da qual era colaborador. Como a empresa desistiu de veiculá-la, por razões ainda contraditórias e nebulosas, Farrow a ofereceu para a revista The New Yorker. Publicada, a reportagem causou impacto ainda maior que a do Times, uma vez que três vítimas declararam a Farrow que foram estupradas pelo produtor. Farrow não aceitou o suborno. Muito menos a atriz Rose McGowan, uma das vítimas de Weinstein mais engajadas em revelar detalhes de sua experiência com o produtor. Mesmo sabendo que não teria sucesso, um apatetado Weinstein entrou em contato com a agente da atriz, oferecendo um projeto de livro para a cliente. A agente mostrou toda a troca de emails dela com Weinstein aos repórteres do Times.

O jornal também revela que o furo de reportagem dado pela publicação poderia ter acontecido há muito tempo. Mais especificamente a partir da contratação, em 2002, do famoso jornalista David Carr, especialista na cobertura de mídia. Carr tomou conhecimento da história um ano antes, quando, como repórter da revista New York, entrevistou Rose McGowan, que lhe confidenciou o fato de ter sido estuprada pelo produtor. Outro jornalista famoso por sua cobertura de mídia, Ken Auletta, da The New Yorker, já sabia das acusações contra Weinstein desde 2000.

Carr, que morreu em 2015, acabou escrevendo um artigo mais crítico sobre Weinstein no New York Times, mas não pode incluir nenhuma das alegações de abuso sexual contra o produtor. Nenhum vítimas quis dar depoimento, quando procuradas pelo repórter. Semanas antes de a matéria ser publicada, Weinstein ligou para Carr e leu uma frase do texto do jornalista para o próprio, revelando que uma companhia de investigação havia conseguido obter uma cópia do texto ainda em fase de apuração. Já Auletta, da The New Yorker, não foi adiante com a reportagem na revista, pois sua fonte, uma assistente do produtor, vítima de agressão sexual, havia assinado um acordo financeiro com o patrão em troca de silêncio.

Em outubro, horas depois do New York Times finalmente ter publicado o artigo que esperou por vários anos, Weinstein ligou ameaçando os três repórteres que fizeram a investigação.

O Times revela que Weinstein, até setembro, trabalhava em parceria com Hillary Clinton para produzir um documentário de TV sobre a ex-senadora e candidata derrotada à presidência dos EUA, mas que o projeto não deu certo. Ao saber dos planos de Weinstein, tanto a editora Tina Brown, que teve Weinstein como chefe, entre 1999 a 2002, quando ele criou a revista “Talk”, quanto a atriz Lena Dunham, a criadora do seriado de TV “Girls”, ligaram para os assessores diretos da campanha de Hillary Clinton, a fim de alertá-la para a má fama do produtor com as mulheres.

Brown e Dunham não foram vítimas de assédio por parte de Weinstein, mas sabiam, há vários anos, dos abusos dele. Em seu contato com o principal assessor de Clinton, Dunham acusou o produtor, chamando-o de estuprador. O assessor, que nunca tomou providência em alertar Clinton (também pega de surpresa com o artigo do Times de outubro), negou, em entrevista ao jornal, que Dunham tenha usado a palavra “estuprador”, o que tornaria a denúncia mais grave.

Entre as novas revelações pessoais de Weinstein apuradas pelo Times estão as de que assessores diretos do executivo de cinema redigiam documentos dando dicas a ele, de como facilitar seus encontros arranjados com as mulheres. Assessores também tinham que cuidar da compra de injeções aplicadas diretamente no pênis para tratar das crises de impotência do patrão. Weinstein também abusava dos clichês de quem tem poder e conhece gente importante. Em momentos de confronto com inimigos, usava frases do tipo: “eu conheço o presidente dos Estados Unidos. E você, quem é que conhece?” [Marcelo Bernardes]

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