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Nikolaus Maack, de Ottawa, começou a distanciar-se da família há dez anos. (Alexi Hobbs para The New York Times)

É a imagem clássica das festas de fim de ano: pais, irmãos e respectivos filhos reunidos ao redor da mesa da família para festejar. Mas nem sempre a coisa funciona dessa maneira.

Depois de anos de insatisfação, alguns adultos resolvem deixar de falar com os pais ou de comparecer às festas, e há pais que desaprovam tão intensamente os filhos que estes deixam de ser bem-vindos ao lar.

Nos últimos cinco anos, começou a se delinear um quadro mais claro a este respeito, quando novos pesquisadores se dedicaram ao estudo desse tipo de ruptura dos laços familiares. Suas conclusões contestam a ideia de que as relações familiares não podem ser dissolvidas e sugerem que o distanciamento não é absolutamente incomum.

Em geral, o distanciamento ocorre quando um ou mais membros da família decidem cortar os laços por causa de um relacionamento negativo. “Como a pessoa tenta distanciar-se e manter esta distância, ela faz os outros se distanciarem também”, afirmou Kristina Scharp, professora assistente da Utah State University, em Logan.

Kylie Agllias, que é assistente social na Austrália, em 2016 escreveu um livro intitulado “Family Estrangement” (Distanciamento Familiar, em tradução livre). Nele, a autora diz que o distanciamento “ocorre ao longo de anos e até décadas. Toda a mágoa e as traições e todas as coisas que vão se acumulando minam a confiança de uma pessoa”.

Para um estudo que publicou em junho, Kristina Scharp falou com 52 filhos adultos e constatou que eles se distanciaram dos pais de várias maneiras ao longo do tempo. “Alguns saíram de casa. Outros deixaram de fazer qualquer esforço para atender às expectativas, como uma mulher de 48 anos que, depois de ficar 33 anos sem contato algum com o pai, não quis visitá-lo no hospital e nem assistir ao seu enterro. Outros ainda preferiram limitar as conversações com um membro da família a uma breve conversa superficial ou reduzir a frequência dos contatos.

O distanciamento é um “processo contínuo”, disse Kristina. “Em nossa cultura, há uma quantidade enorme de culpa por não perdoar a família”, afirmou. Por isso, “conseguir distanciar-se é difícil, mas manter a distância é mais difícil ainda”.

Faz três anos desde que Nikolaus Maack, 47, teve contato com a maior parte dos familiares. Mas ele começou a distanciar-se dez anos antes. O temperamento do pai sempre o deixou muito nervoso, contou, e ele sempre achou os almoços com a família, por ocasião das festas, particularmente desagradáveis. Por fim, Maack, funcionário público em Ottawa, parou de comparecer.

Contatado por e-mail, o pai recusou-se a dar entrevista, mas disse que deixara de considerar Nikolaus um filho.

Em 2014, 8% de aproximadamente 2 mil britânicos adultos contaram ter excluído de suas relações um membro da família, como mostra uma pesquisa de âmbito nacional, representativa, encomendada pela Stand Alone, uma organização de apoio a pessoas que cortaram relacionamentos familiares.

Em um estudo publicado pela revista “Australian Social Work”, adultos informaram que se afastaram dos pais por três razões principais: maus ratos, traição e falta de amor dos genitores. As razões frequentemente se sobrepunham, constatou Kylie Agllias. Segundo relatou a maioria dos participantes, o distanciamento se deu depois de uma infância ao longo da qual o relacionamento com os pais sempre foi ruim.

Por exemplo, Nikolaus ficou ressentido porque costumeiramente devia tomar conta de dois irmãos menores, a ponto de decidir que nunca teria filhos.

Em 2014, após um relacionamento muito longo, ele e a namorada resolveram casar em uma cerimônia extremamente simples. Nikolaus não convidou a família, em parte porque a cerimônia seria uma reunião informal, mas também por medo de que o pai se comportasse de maneira desagradável. Ele concluiu que ninguém mais compareceria sem ele. “Fiquei triste por muito tempo, porque não sabia se deveria convidá-los ou não”, disse, “mas por fim, decidi: ‘Não vou deixar que eles venham’”.

A família descobriu pelo Facebook que ele havia se casado. Um irmão disse que ficou magoado por nem sequer ter sido comunicado. A irmã e o pai deixaram claro que não queriam mais falar com ele, Nikolaus e a esposa contaram depois. Outros familiares confirmaram.

Atualmente, um irmão ainda conversa com Nikolaus, mas os dois não conversam com os outros. [Catherine Saint Louis]

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