A controversa carreira de Hong Chau rumo ao sucesso

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Hong Chau e Matt Damon em “Pequena Grande Vida”, um filme com possíveis indicações a prêmios. (Paramount Pictures)

Um ano depois de conseguir seu primeiro papel na telona, o de uma funcionária de um salão de massagens no insólito filme de Paul Thomas Anderson de 2014, “Vício Inerente”, Hong Chau não foi chamada para nenhum outro teste.

“Fiz um comercial regional de automóveis e outro de batatas chips para a internet”, disse Chau. “Estava pensando seriamente em desistir e procurar um emprego sério que pagasse minha comida e não matasse minha alma”.

Agora, ela obteve indicações para os prêmios da Associação dos Atores de Cinema e para o Globo de Ouro dos EUA por sua interpretação ríspida, mas cativante como Ngoc Lan Tran, uma dissidente que perde uma perna ao tentar fugir do Vietnã em um decodificador de TV (não dissemos que seu personagem tem 13 centímetros de altura?), no filme “Pequena Grande Vida”.

“Estou feliz que este personagem seja tão internacional”, disse Chau. “Ela é uma mulher asiática com uma deficiência física. Na vida, todos somos mais do que uma coisa, mas, por alguma razão, nos filmes somos sempre isso ou aquilo, o que tende a reduzir, de certo modo, a complexidade de um ser humano”.

Mas a controvérsia a respeito de seu último papel destaca os obstáculos que os atores asiáticos enfrentam em Hollywood, onde as oportunidades são poucas e as armadilhas, abundantes. Depois das primeiras pré-estreias de “Pequena Grande Vida”, alguns jornalistas e membros do público criticaram o papel por considerá-lo uma caricatura, porque seu inglês carregado de sotaque provoca risos.

“É incômodo ter de ouvir este tipo de reação”, ela disse em sua cadência real, um sotaque ligeiramente sulino que remete à Louisiana, onde cresceu. “Eu não queria que o sotaque fosse justamente o que as pessoas levam para casa depois de ver o filme”, continuou. “Queria que elas realmente vissem esta mulher. Queria que sentissem seu coração pulsando”.

Em seu comentário para a revista “New York”, Emily Yoshida escreveu que a interpretação de Chau “é, seguramente, a mais interessante e vibrante de todo o elenco”, e Todd McCarthy, do “Hollywood Reporter”, disse que ela é “sensacional”. Tantos elogios indicam que Chau é uma boa aposta para a indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

“Os diretores verão como ela é incrível em ‘Pequena Grande Vida’, cairão em si e procurarão trabalhar com ela”, afirmou o astro do filme, Matt Damon.

O diretor de “Pequena Grande Vida”, Alexander Payne, que escreveu o roteiro com Jim Taylor, concordou, lembrando sua capacidade de transmitir emoções profundas apesar de seu diálogo entrecortado. “Acho que Hong Chau significa, ‘ela rouba a cena’ em vietnamita”, brincou.

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Hong Chau no papel de uma personagem vietnamita com uma deficiência física que fala inglês com um acento muito forte, em “Pequena Grande Vida”. Alguns consideraram o papel uma caricatura, mas graças a ele, Chau recebeu indicações para alguns prêmios. (Nathan Bajar para The New York Times)

A trajetória de Chau foi longa desde o campo de refugiados na Tailândia, onde nasceu, depois que seus pais fugiam do Vietnã de barco, em 1979. Sua interpretação no filme é uma homenagem a eles. Entretanto, “ela não interpreta”, disse Damon. “Isso é algo que está profundamente dentro dela”.

Se não tivesse sido escolhida para ser a metade do casal prestes a se desmanchar em “John”, em 2015, peça exibida no circuito menor da Broadway, de Annie Baker, vencedora do prêmio Pulitzer, Chau duvida que pudesse dar conta de seu importante papel no filme do Payne. A peça “tinha três horas e meia de duração, com dois intervalos, e apenas quatro personagens, portanto exigiu muito”, ela disse. “Era a primeira vez que eu recebia um papel substancioso. Por causa desta peça, não fiquei nervosa ao enfrentar ‘Pequena Grande Vida’. Já estava tarimbada”.

Chau também apurou sua técnica com papéis recorrentes nos dramas da HBO “Treme” e “Big Little Lies”. O primeiro nunca teve um grande público. Não foi o que aconteceu com “Big Little Lies”, em que dividiu a tela com estrelas como Nicole Kidman e Reese Witherspoon, no papel de uma das vizinhas. “Estou acostumada a fazer um papel em que ninguém repara”, comentou. “Mas aquele programa impressionou profundamente”.

Chau comentou a respeito do novo filme: “Parece uma película menor, apesar dos efeitos especiais e da presença de Matt Damon”.

Formada em Cinema na Boston University, ela pretende fazer documentários, e só seguiu a carreira de atriz porque seus colegas de classe elogiaram sua atuação nos projetos deles. “É isto que quero continuar fazendo: na realidade, filmes insólitos, com realizadores interessantes. Tenho a impressão de que toda essa história de prêmios acabará em poucos meses, e eu voltarei a trabalhar em meus pequenos filmes experimentais”.

Chau ainda não escolheu o próximo papel, mas sabe qual é o tipo de filme que quer fazer. “Espero que seja uma história interessante com um bom diretor apaixonado por seu trabalho e que há anos tenta se afirmar com algo em que ninguém quer pôr a mão”, afirmou. “Certas coisas precisam de um pouco mais de amor do que outras”.

Se esta paixão não vier acompanhada por remunerações consideráveis, não será problema para ela. “Não identifico o sonho americano com o sucesso e com uma grande riqueza material para exibir. Sempre me virei muito bem sem isso”, comentou. [Bruce Fretts]

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