Mulheres egípcias podem ser patinadoras agressivas

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O único clube de patinação do Egito, as Cairollers, é um time feminino constituído por estudantes e jovens profissionais. (Laura Boushnak para The New York Times)

CAIRO — Onde quer que seja disputado o jogo, a patinação, esporte de contato que desfruta de um renascimento global promovido pelas mulheres, orgulha-se de ser uma bizarra subcultura com um jargão próprio.

No Egito, ele recebeu um sentido arqueológico. As novatas são as “múmias”; as jogadoras de nível intermediário são “Cleópatras”; e as que se formaram após seis meses de treino recebem o nome de “Cairollers” (patinadoras do Cairo), membros plenos do único clube de patinação do Egito.

Os treinos ocorrem duas vezes por semana em uma quadra de handebol externa, no Estádio Internacional do Cairo, para apurar a eficiência das jogadoras nos aspectos essenciais do esporte – que vem conquistando rápida popularidade, e derrubando as adversárias pelo caminho. Em grande parte, como na vida diária do Cairo.

“Se a gente cai, levanta rapidamente”, disse Reem El Desouky, 29, redatora de publicidade que tem o apelido de Lady Macdeath. “Se a gente é atingida, absorve o golpe e segue adiante. É como as coisas que a gente enfrenta na vida de todos os dias. Serve para a gente se fortalecer um pouco mais”.

Um problema na vida diária das mulheres deste país é o assédio sexual. A Fundação Thomson Reuters recentemente considerou o Cairo a megacidade mais perigosa do mundo para as mulheres.

E, contudo, elas passaram a gostar das pancadas e dos hematomas do esporte, até mesmo dos machucados frequentes.

As Cairollers, uma combinação de jovens estudantes e profissionais dos 20 aos 30 anos, dizem que trombadas e tombos ajudam a aliviar suas frustrações, e proporcionam uma sensação de autonomia – de irmandade, com uma pitada de arrogância. É, também, mais uma maneira de esquecer do estresse da vida em uma megalópole poluída e abarrotada de gente, 24 milhões de pessoas.

Nada el Masri, 23, representante do serviço aos clientes de um banco, lida o dia inteiro com clientes impacientes, que gostam de berrar. “Preciso ser uma pessoa agradável e sorrir”, ela disse. “Então um dia, venho aqui, jogo por duas horas, e todos os aborrecimentos desaparecem”.

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Novas integrantes das Cairollers, chamadas “múmias”, no aquecimento. As intermediárias são chamadas “Cleópatras”. (Laura Boushnak para The New York Times)

A patinação, que começou nos Estados Unidos nos anos 30, foi se tornando cada vez mais popular nos últimos 15 anos, aproximadamente. No Oriente Médio, surgiram equipes no Cairo, Beirute, Abu Dhabi e Dubai. Algumas “cairollers” aprenderam o esporte assistindo ao filme “Garota Fantástica”, uma produção de Hollywood de 2009, sobre uma jovem rebelde que quebra as algemas de sua criação conservadora entrando em um barulhento time de patinadoras (“rollers”).

As jogadoras do Cairo se identificaram com o personagem. Muitas delas usam lenços na cabeça escondidos debaixo dos capacetes, em deferência às sensibilidades religiosas. Várias já foram bailarinas.

Entretanto, elas passaram a gostar das pancadas e dos machucados deste esporte, até mesmo dos ferimentos frequentes. Quase todas torceram o tornozelo, sofreram cortes no joelho ou perderam um dente. Os machucados, conhecidos como “beijos da disputa”, são quase um diploma de honra.

“Gosto dos machucados”, disse Sumer Abdelnasser, 26, roteirista. “Eles fizeram com que eu me tornasse mais confortável com o meu corpo, mais confiante com o contato físico”.

A equipe é movida em parte por um sentimento de calorosa camaradagem. Suas integrantes se reúnem para tomar suco após o treino ou comemoram à base de pizza.

O que falta são adversárias.

No Egito, há outros novos esportes de contato para mulheres. Em 2015, foi fundado um time de rugby, e uma equipe feminina de “queimada” ganhou recentemente um importante campeonato africano.

No ano passado, as Cairollers realizaram seus primeiros jogos competitivos contra equipes femininas visitantes de Abu Dhabi e de Marselha, na França.

Antes do jogo, Reem El Desouky contou que ficou extremamente ansiosa. Mas quando ouviu o apito do início do jogo, a ansiedade desapareceu.

“Foi realmente espantoso”, ela disse. “Não vejo a hora de repetir a experiência”. [Declan Walsh]

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