Rompendo o silêncio sobre casos de estupro no Japão

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Shiori Ito diz que a polícia abandonou a investigação de sua acusação de estupro. (Jeremie Souteyrat para The New York Times)

TÓQUIO — Era noite de sexta feira quando um dos jornalistas mais famosos da TV japonesa convidou Shiori Ito para um drinque. O estágio dela num serviço de notícias de Tóquio estava chegando ao fim, e ela tinha perguntado a respeito da possibilidade de outro estágio na emissora dele.

Os dois se encontraram num bar e, em seguida, saíram para jantar. Posteriormente, ela disse à policia que sua última lembrança da noite é de quando sentiu uma tontura e pediu licença para ir ao banheiro, onde desmaiou. Ela disse que, naquela noite, foi levada inconsciente para o quarto de hotel dele e estuprada.

O jornalista, Noriyuki Yamaguchi, então diretor da sucursal de Washington da Tokyo Broadcasting System e biógrafo do primeiro-ministro Shinzo Abe, negou a acusação e, depois de uma investigação, os promotores abandonaram o caso. Então Shiori decidiu fazer algo que as mulheres raramente fazem no Japão: ela abriu a boca.

Numa coletiva de imprensa realizada em maio e nas páginas de um livro publicado em outubro, ela contou que a polícia obteve imagens do circuito interno do hotel que pareciam mostrar Yamaguchi a segurando de pé, desmaiada, enquanto os dois passam pelo saguão do hotel. A polícia também encontrou e identificou o taxista, que confirmou que a passageira estava inconsciente. Investigadores disseram a ela que prenderiam Yamaguchi, mas, subitamente, voltaram atrás.

Em outras partes do mundo, as alegações dela poderiam causar indignação. Mas, no Japão, atraíram pouca atenção.

A história de Shiori é um claro exemplo de como o abuso sexual ainda é um tema a ser evitado no Japão, onde poucas mulheres relatam à polícia os casos de estupro e, quando o fazem, as queixas raramente resultam em prisões ou processos.

No papel, o Japão registra níveis relativamente baixos de violência sexual. Num levantamento realizado em 2014, uma em cada 15 mulheres dizia ter sido vítima de estupro (comparativamente, nos Estados Unidos, essa proporção é de uma em cada cinco mulheres). Mas os especialistas dizem que as japonesas são menos propensas do que as ocidentais a descrever o sexo não consensual como estupro. As leis contra o estupro no Japão não falam em consentimento, e a ideia de um estupro durante um encontro causa uma reação diferente.

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‘’Não fiz nada de ilegal’’, disse Noriyuki Yamaguchi. ‘’Não houve abuso sexual.’’ (Jeremie Souteyrat para The New York Times)

Em vez disso, o estupro é frequentemente retratado nos quadrinhos e na pornografia como uma extensão da satisfação sexual.

A polícia e os tribunais tendem a definir o estupro de maneira mais categórica, levando a cabo os processos nos casos em que há sinais de uso de força física e autodefesa, tratando com menos seriedades os episódios em que acusado e vítima teriam bebido. Mesmo quando os estupradores são processados e condenados, às vezes não cumprem pena de detenção: cerca de 1 em cada 10 réus condenados desse tipo recebem apenas sentenças suspensas.

“O preconceito contra as mulheres é profundo e extremo”, disse Tomoe Yatagawa, palestrante da Universidade Waseda.

Shiori, 28 anos, deu entrada num processo civil contra Yamaguchi.

Yamaguchi, 51 anos, negou ter cometido estupro. “Não houve abuso sexual”, disse ele. “Nenhum crime ocorreu naquela noite.”

Além do caso de Shiori Ito, o parlamento aprovou no ano passado mudanças na legislação para crimes sexuais no Japão, as primeiras em 110 anos, ampliando a definição de estupro para incluir sexo oral e anal, e também os homens como potenciais vítimas. Os legisladores também aumentaram as sentenças mínimas. Mas a lei ainda não menciona o consentimento, e os juízes ainda podem suspender sentenças.

As alegações contra Yamaguchi não afetaram suas funções na Tokyo Broadcasting System, mas ele deixou o cargo no ano passado sob pressão da rede depois de publicar um artigo considerado belicoso. Ele ainda trabalha como jornalista freelance no Japão.

O livro que Shiori publicou recebeu alguma atenção da grande mídia japonesa.

“Ainda sinto que preciso ser forte”, disse ela, “e continuar falando no episódio até que isso não seja mais tratado com indiferença”. [Motoko Rich]

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