Loveless I Vidas ‘Sem Amor’

Loveless, do russo Andrey Zvyagintsev é um dos favoritos na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Com justiça. É um filmaço, embora de difícil digestão

232836_600Loveless, do russo Andrey Zvyagintsev é um dos favoritos na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Com justiça. É um filmaço, embora de difícil digestão.

Zvyagintsev arma um drama impressionante com a história do casal separado que deve enfrentar o desaparecimento do filho único, um garoto de 12 anos. O ex-casal Zhenya e Boris já refez sua vida com outros parceiros, quando o filho some de casa da mãe e não volta. Eles precisam conviver, mesmo com o ódio mútuo, para tentar encontrar uma criança. Que, aliás, não era desejada pela mãe.

O filme é perturbador. Entra na intimidade da classe média russa e sua maneira de vida no pós-comunismo. Olha para os meandros de uma sociedade em que o Estado já não faz questão de assistir aos cidadãos. (As buscas de crianças perdidas são feitas por uma ONG e não pela polícia, que não dispõe de meios e pouco se interessa por elas). Volta sua câmera para pessoas autocentradas e vazias, imersas em suas preocupações e carentes de almas. São seres humanos. Porém esvaziados de si mesmos.

Tudo é mostrado com uma dramaturgia que chamo de sólida e o pessoal dos Cahiers du Cinéma, que despreza Zvyagintsev, considera “pesada”. O fato é que a revista, historicamente, despreza os chamados “grandes temas” e o russo gosta de refletir sobre seu país a partir de sua ferramenta cinematográfica. Estará errado?

O fato é que o filme fica com o espectador. Saímos do cinema sob o impacto de Loveless e a impressão permanece. É uma sensação subjetiva, sem dúvida. Olhando-se de maneira, digamos, objetiva, sente-se a carpintaria hábil, o roteiro madeira de lei, as interpretações contidas, a câmera que vai da natureza ao interior dos ambientes e flagra a frieza dos relacionamentos, o sofrimento da solidão, a falta de afeto. Não há caricaturas. Há o ser humano em sua necessidade de reconhecimento, que o outro insiste em não lhe proporcionar.

Loveless (Sem Amor) é uma rara experiência cinematográfica. [Luiz Zanin Oricchio]

(Texto originalmente publicado, com algumas alterações, na cobertura da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, 2017)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s