ELLE República Tcheca Março 2018 Linda Novotna by Andreas Ortner

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Linda Novotna by Andreas Ortner

Photography: Andreas Ortner. Stylist: Radka Sirkova. Hair: Martin Tyl. Makeup: Hristina Georgievska. Model: Linda Novotna.

Vestir bem é a missão da Chloé de Natacha Ramsey-Levy

A nova estilista da marca honra os códigos da grife francesa ao mesmo tempo que tenta atualizar o seu visual.

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Natacha Ramsey-Levy trabalhou para Nicolas Ghesquière antes de dirigir a Chloé. (Chloé/Divulgação)

Muito antes de imaginar que um dia seria a diretora criativa da Chloé — uma das marcas mais icônicas quando se fala do estilo clássico associado à francesa –, Natacha Ramsey-Levy queria ser historiadora. Esse desejo, aliás, nunca morreu completamente. Em entrevista à ELLE norte-americana, a estilista — que já trabalhou com Nicolas Ghesquière, estilista da igualmente histórica Louis Vuitton — revelou que, ao ser contratada, mergulhou profundamente nos arquivos da etiqueta para conseguir entender ainda mais o DNA da grife.

“Há referências a todos os designers que já passaram pela casa. Tem um pouco de Karl [Lagerfeld], Martine [Sitbon], Stella [McCartney], Phoebe [Philo] e, claro, muito da Clare Waight Keller [estilista que precede Natacha e está atualmente na direção criativa da Givenchy].” Mesmo assim, seu foco principal está na obra de Gaby Aghion, a mulher que fundou a etiqueta e cristalizou o conceito de prêt-à-porter em suas peças: luxo para vestir. “Eu faço roupas para serem usadas. Uma calça tem que ser confortável, tem que te abraçar do jeito certo. Uma bolsa tem que ser fácil de abrir e ter espaço suficiente para você colocar suas coisas.”

Em sua primeira coleção para a Chloé, foi exatamente isso o que vimos na passarela. Uma despedida aos vestidos levinhos — porém repletos de tecidos — da era Keller e boas vindas a um visual mais contemporâneo que, ironicamente, carrega consigo um toque vintage. “O meu desafio é construir o futuro a partir do passado. Pegar as referências de lá e, de alguma maneira, conversar com o zeigeist“, explica.

Completamente avessa à fama, à exposição pública — bem como pede a cartilha do comportamento parisiense –, Natacha confessou ter ficado nervosa demais ao aparecer depois da fila final em seu debut. No entanto, os aplausos que ela recebeu são a prova de que a Chloé continua em boas mãos e pode ir cada vez mais longe.

ELLE Alemanha Março 2018 Sofia Tesmenitskaya by Enrique Badulescu

ELLE-March-2018-Sofia-Tesmenitskaya-Enrique-Badulescu-2 (1)Photography: Enrique Badulescu. Stylist: Astrid Doil. Hair Stylist: Leonardo Manetti for ION Studio NYC at See Management. Makeup Artist: Deanna Melluso for NARS at See Management. Model: Sofia Tesmenitskaya.

Harper’s Bazaar Czech March 2018 Michaela Kocianova by Andreas Ortner

15255.jpgPhotography: Andreas Ortner. Styled by: Jana Kapounová. Hair: Martin Tyl. Makeup: Hristina Georgievska. Model: Michaela Kocianova.

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Transit | Filme alemão sobre refugiados vira sensação na Berlinale

Mais aclamado cineasta alemão dos últimos 20 anos, Christian Petzold conquista seus conterrâneos

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Transit | Filme alemão sobre refugiados vira sensação na Berlinale 

Cada diálogo trocado em Transit, filme alemão aplaudido calorosamente na manhã deste sábado na Berlinale, soa como se fizesse referência à Segunda Guerra Mundial e ao jugo nazista sobre a Europa. Temos como protagonista um dissidente da política germânica, Georg (o ótimo Franz Rogowski), que deseja entrar na França antes do país ser ocupado, e, de lá, partir para o México. Em suas mãos, cai um manuscrito de um autor morto, que faz com ele seja confundido com um escritor. Porém, todos os locais por onde Georg passa não guardam referências visuais dos tempos do Holocausto: estamos na Marselha de hoje, com roupas e armas atuais, retratando refugiados do Oriente Médio como os que hoje se amontoam em grandes centros urbanos das metrópoles europeias. O objetivo do diretor – no caso, Christian Petzold, aclamado como o maior cineasta da Alemanha entre os realizadores revelados nos últimos 20 anos, graças a sucessos como Bárbara, de 2012, e Phoenix, de 2014 – é mostrar que a opressão dos tempos hitleristas, mesmo com outras motivações, não é diferente da violência sob a qual os imigrantes ilegais vivem em território berlinense.

“A ideia aqui é misturar o manuscrito encontrado por Georg com os dois tempos históricos da trama: um encenado; o outro, retratado. E existe uma narração literária que dá ritmo à narrativa. No cinema autoral, palavra vira melodia. Basta ver as cenas de um clássico como Jules et Jim, de Truffaut, para sentir a força das palavras”, disse Petzold ao Omelete, após ser aplaudido pela ala alemã da imprensa, para a qual ele é, desde já, o favorito ao Urso de Ouro de 2018, seguido de pertinho por Las Herederas, do Paraguai.

Apesar de desacelerar o filme de um modo prejudicial ao dinamismo exigido por esse jogo entre passado e presente proposto no roteiro, Petzold ganhou a plateia pela força de seus enquadramentos, retratando cidades como Marselha, por exemplo, com um exotismo que descaracteriza a bela paisagem do local. As sequências de perseguição aos refugiados compensam a perda de ritmo das cenas de diálogo com doses fartas de adrenalina e de denúncia social. Transitse impõe na tela como uma investigação de linguagem sobre a perenidade do Mal na forma da exclusão.

“Quando eu inicio um filme, confio à minha montadora habitual, Bettina Böhler, a tarefa de me dar a linha narrativa que eu devo seguir”, disse Petzold. “Filmo com uma ideia de personagens e com algumas inquietações. Mas é Bettina quem encontra o tom, na ilha de edição”. 

Antes de Transit, a Berlinale tomou um sonífero em forma de cinema russo com o drama de pretensões cômicas Dovlatov, exibido em competição, arrancando um coro de bocejos. Dirigido por Alexei German Jr., com base em fatos reais, o filme é centrado no panorama político e literário da União Soviética dos anos 1970, a partir da obra do escritor Sergei Dovlátov (1941-1990), autor de Parque Cultural (1983) e A Mala (1986). O foco do longa são os contratempos encarados por Sergei (vivido por Milan Maric) em seus esforços para se firmar na Literatura.

“Este é um filme de recursos financeiros muito limitados para construir um período histórico de uma nação cuja realidade se conhece pouco, virando folclore pela questão socialista”, disse German Jr.

Esta tarde, a Berlinale receberá sua atração com mais peso de blockbuster: a fábula chinesa Monster Hunt 2, que promete mobilizar toda a mídia asiática presente na cidade. Só em sua China natal, o primeiro Monster Hunt, de 2015, faturou US$ 385 milhões, jogando muita superprodução da Marvel pra escanteio. Por isso, a segunda aventura da franquia dirigida por Raman Hui, sobre o monstrinho Wuba, vai ganhar projeção de gala num dos maiores festivais de cinema do mundo, narrando os esforços da criatura para escapar de um senhor das trevas que quer sua cabeça. Mas um ex-presidiário (vivido pelo lendário ator Tony Leung, de Amor à Flor da Pele) vai ajudá-lo em sua cruzada.

À noite, a cidade promove uma projeção de gala do thriller anglo-russo Profile, dirigido por Timur Bekmambetov, realizador do Cazaquistão importado por Hollywood há dez anos para rodar Procurado (2008). Neste novo trabalho, de orçamento minúsculo se comparado a quanto gastou em solo hollywoodiano para refilmar Ben-Hur (2016), o cineasta brinca com a linguagem das redes sociais a partir dos esforços de uma repórter para devassar os bastidores de um grupo extremista religioso de sírios e paquistaneses usando um perfil falso no Facebook. [Rodrigo Fonseca]

Bactérias ajudam recém-nascidos

IW_06_BABIESMuitos estudos sugerem que partos por cesariana e amamentação breve podem alterar a população de microrganismos nos intestinos do bebê e explicar o aumento descontrolado de preocupantes problemas de saúde em crianças e adultos, como asma, alergias, doença celíaca, diabetes tipo 1 e obesidade.

Isso poderia levar a uma redução do número de cesáreas programadas e ao aumento do número de mães que optariam por alimentar os filhos exclusivamente com o próprio leite durante seis meses, a fim de ampliar a quantidade de tipos e de bactérias que habitam os intestinos dos bebês.

Estes organismos realizam funções importantes, como digerir nutrientes não utilizados, produzir vitaminas, estimular o desenvolvimento normal do sistema imunológico, combater as bactérias nocivas e promover a maturação dos intestinos.

Os bebês estão expostos a alguns organismos também no útero, mas os organismos encontrados no nascimento e nos primeiros meses de vida influenciam consideravelmente os que passam a residir permanentemente em seus intestinos.

Um estudo dinamarquês com dois milhões de crianças nascidas entre 1977 e 2012 mostrou que as nascidas por meio de cesárea estavam significativamente mais expostas a problemas como asma, distúrbios sistêmicos do tecido conectivo, artrite juvenil, inflamação dos intestinos, deficiências do sistema imunológico e leucemia.

As crianças nascidas pelo canal da vagina adquirem em primeiro lugar os micróbios que habitam a vagina e os intestinos maternos. Entretanto, as que nascem por meio de cirurgia antes da ruptura das membranas e do início do trabalho de parto adquirem micróbios principalmente da pele da mãe, do pessoal e do ambiente do berçário.

Quando é realizada uma cesárea de emergência, depois da ruptura das membranas e do início do trabalho de parto, o bebê adquire menos micróbios da mãe do que durante um parto normal, mas muitos mais do que em uma cesárea programada.

Os cientistas descobriram que essas diferenças na microbiota intestinal persistem nas crianças até pelo menos os 7 anos de idade, segundo um estudo realizado na Finlândia e publicado em 2004.

Para combater as consequências de um parto cirúrgico sobre o microbioma do recém-nascido, cresce o número de gestantes que solicitam que as equipes médicas transfiram os micróbios da vagina materna para os seus bebês logo depois do nascimento. Algumas inclusive começaram a fazer as trocas de micróbios por conta própria.

Entretanto, uma comissão de especialistas do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas alertou recentemente que a prática, conhecida como semeadura vaginal, é prematura e possivelmente perigosa.

A comissão citou um risco potencial na transferência de organismos patogênicos, da mulher para o recém-nascido. A dra. Suchitra Hourigan, gastroenterologista pediátrica e diretora do Instituto de Medicina Translacional Inova de Falls Church, Virginia, disse que, no momento, a amamentação é a melhor e mais segura maneira de expor o bebê nascido por cesárea às bactérias de sua mãe. O leite materno contém muitas das mesmas bactérias benéficas encontradas na vagina.

Alguns estudos mostraram que “até mesmo pequenas quantidades do suplemento de leite da fórmula” podem modificar a microbiota na amamentação materna. [Jane E. Brody]

Fotógrafo de moda Patrick Demarchelier é acusado de assédio sexual

Jornal ‘Boston Globe’ revelou denúncias contra dezenas de profissionais dessa indústria

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Além de Patrick Demarchelier, estãos o também fotógrafo Greg Kadel, que trabalhou para Victoria’s Secret e Vogue, Seth Sabal, Andre Passos e o estilista Karl Templer, que trabalhou com as marcas Coach, Zara e Tommy Hilfiger. Foto: REUTERS/Fred Prouser

O jornal “Boston Globe” fez uma revelação explosiva nesta sexta-feira (16), ao denunciar mais de duas dezenas de profissionais da indústria da moda, entre eles o lendário fotógrafo francês Patrick Demarchelier, por má conduta sexual.

A equipe de jornalismo investigativo do jornal, chamada Spotlight, que em 2002 revelou casos disseminados de abuso sexual por parte de sacerdotes católicos em Boston, revelou que mais de 50 modelos detalharam supostos atos de má conduta sexual dos quais foram vítimas, variando de toques impróprios a agressões.

Coletivamente, as vítimas apresentaram queixas contra pelo menos 25 fotógrafos, agentes, estilistas, diretores de casting e outros profissionais da indústria, noticiou o “Globe”.

Entre os acusados está o badalado Demarchelier, o também fotógrafo Greg Kadel, que trabalhou para Victoria’s Secret e Vogue, Seth Sabal, Andre Passos e o estilista Karl Templer, que trabalhou com as marcas Coach, Zara e Tommy Hilfiger.

O jornal menciona ainda o fotógrafo francês David Bellemère, acusado por duas mulheres. Uma delas – a modelo americana Madisyn Ritland – afirma que ele introduziu sua língua à força em sua boca e tocou em seus seios sem seu consentimento.

De acordo com o “Boston Globe”, a Victoria’s Secret deixou de trabalhar com ele desde o outono (hemisfério norte) de 2016, após as queixas das modelos. Procurada pela AFP, a casa matriz da VS, a Limited Brands, não fez comentários até a publicação desta matéria.

Já Bellemère disse à AFP que “a história da Victoria’s Secret é um grande mistério” para ele.

“Se livraram de mim friamente sem explicação”, afirmou, acrescentando que “talvez agora eu vá, enfim, saber quem mente e porque”.

Segundo o jornal, todos os citados negaram as acusações.

No entanto, o império editorial Condé Nast, que inclui a revista Vogue, informou que parou de trabalhar com Demarchelier e Kadel.

Patrick Demarchelier, de 74 anos, foi acusado de assédio sexual por sete mulheres, cujo depoimento foi colhido pelo jornal.

O “Globe” evoca, principalmente, o caso de uma ex-assistente do fotógrafo veterano. Mantendo sua identidade em sigilo, ela contou ter cedido às insistentes investidas do chefe por medo de comprometer seu futuro profissional, se continuasse dizendo não.

Ela também contou ter pedido à diretora artística do grupo Condé Nast, a respeitada Anna Wintour, que não deixasse que o fotógrafo trabalhasse com modelos jovens.

O “Boston Globe” aponta ainda outras seis mulheres que acusam o francês de assédio sexual. Uma delas conta que ele pôs a mão entre suas partes genitais, e outra, que ele a agarrou pelos seios.

A AFP pediu um comentário de Demarchelier sobre o caso, mas não obteve resposta.

O francês é um dos mais renomados fotógrafos de moda e do mundo do espetáculo. Algumas de suas fotografias da princesa Diana, de Madonna, ou de Angelina Jolie, deram a volta ao mundo.

Este não é a primeira vez que acusações de assédio surgem no mundo da moda. Depois do escândalo com o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, vários fotógrafos de moda consagrados foram alvo de acusações de mesmo teor, principalmente Bruce Weber, Terry Richardson e Mario Testino.

Vários clientes, incluindo o Condé Nast, informaram publicamente que não trabalharão mais com eles. [AFP]

Annette Bening: “Ser ator é sobre explorar a alma humana”

Aos quase 60, atriz pode finalmente levar primeiro Oscar por interpretação de diva do cinema noir que casou quatro vezes e namorou ator 30 anos mais jovem

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Annette Bening vive a estrela do cinema noir Gloria Grahame no elogiadíssimo drama britânico “Film Stars Don’t Die in Liverpool” (Sony Pictures Entertainment Deutschland GmbH/Divulgação)

Annette Bening chega vestindo um pretinho básico – não um vestido, mas um terninho discreto. Não usa quase maquiagem, nem joias. Parece não querer esconder as rugas no rosto jovial, apesar delas. A atriz americana que faz 60 anos em 29 de maio é a convidada do prestigioso Screen Talk, bate-papo com astros e estrelas de primeira grandeza aberto ao público, promovido pelo BFI London Film Festival, o Festival de Cinema de Londres. Claudia está na plateia de sua 61a. edição.

Queremos conversar com – e conhecer – essa mulher que diz que, sim, “atua, mas é mãe em primeiro lugar e esposa em segundo”. O maridão é Warren Beatty, um dos homens influentes de Hollywood, ex de Madonna, com quem tem quatro filhas e é casada há 25 anos.

Estado civil e maternidade à parte, Annette Bening é uma senhora atriz (com o perdão do trocadilho). E é também simpática e simples, séria e sexy sem forçar a barra. Já foi indicada quatro vezes, mas nunca ganhou um Oscar. Por isso, tem gente (leia-se a crítica Deborah Ross da revista The Spectator) apostando que de 2018 não passa.

O motivo é sua interpretação primorosa da diva do cinema preto-e-branco Gloria Grahame, em Film Stars Don’t Die in Liverpool (2017, estreia no Brasil no primeiro semestre de 2018, ainda sem data definida), um dos destaques do London Film Festival. Baseado no livro homônimo do ator inglês Peter Turner, narra o romance entre eles, sendo ele 30 anos mais novo (vivido por Jamie Bell, o eterno Billy Elliot).

Altos e baixos
Dizer que por isso a performance de Annette Bening é corajosa seria de um reducionismo obscurantista. Mas o fato é que o cinema também é um lugar machista e não se vê uma mulher madura (Gloria tinha 56 anos quando conheceu Peter) e um garotão tendo um tórrido romance todo dia nas telas. O filme também discute o mito do estrelato, especialmente quando ele se abate sobre alguém do sexo feminino.

Gloria foi ao topo nos anos 50: não só contracenou com Humphrey Bogart em No Silêncio da Noite (1950) como morava numa mansão ao lado da do ator e de sua mulher, Lauren Bacall. Quando encontrou Peter Turner, ela morava num quarto, em Londres. Não vivia seus mais prósperos dias. Ao longo do longa outra questão aflora: a vulnerabilidade em pleno curso feminista.

Quando Annette dividiu sua intimidade – carreira, família e medos – com um auditório abarrotado com cerca de 1000 pessoas, entre elas jornalistas, o caso do produtor-assediador Harvey Weinstein ainda não havia pipocado (muito menos o de James Toback, roteirista do filme Bugsy, no qual Bening e Beatty atuaram e se apaixonaram), espirrando acusações de assédio para todos os lados, inclusive o de Kevin Spacey, companheiro de cena da atriz em Beleza Americana (1999).

Trata-se do filme mais celebrado estrelando Annette Banning. Não é coincidência que escancare a hipocrisia na sociedade americana de modo tragicômico. Annette é, na vida real, o oposto da perua Carolyn Burnham, a mulher infiel de Spacey em Beleza Americana: sincera, sensível e nada deslumbrada com a celebridade. “Ser ator não é sobre ser famoso. É sobre explorar a alma humana”, define.

Vaidades na fogueira
Hollywood, para ela, aconteceu por acaso. “Eu era uma garota do meio-oeste [nasceu no Kansas] me aventurando em meio a pessoas muito glamourosas”, lembra. “Como qualquer atriz de teatro, ficava muito assustada com a câmera – mesmo porque diante de uma câmara você sempre ganha 10 quilos e isso soa horrível!”.

Envelhecer, ao contrário, não a assusta. Com a mãe aprendeu a não se preocupar: ”Ela não se incomodava com a idade. Não temos escolha, estamos todos envelhecendo. Estou realmente confortável em envelhecer e ficar cada vez menos desprendida de ser atraente”, diz.

Beleza ajuda, mas não é fundamental e não faz verão sozinha. E, num ambiente onde ser bonita é supervalorizado, Annette Bening se diferencia. O ator inglês Sir Ben Kingsley a definiu como “extremamente inteligente, combinando perfeitamente seu cérebro e seu coração”.

Essa é uma boa medida para sua Gloria Grahame (1923-1981), em Film Stars Don’t Die in Liverpool. A diva do film noir morreu cedo, aos 57. Mas viveu intensamente. Seu romance com Peter Turner serviu de combustível para que ela continuasse lutando contra um câncer que retornava pela segunda vez. “Ela não arrumava trabalho nos EUA, apesar do estrelato, então decidiu ir para a Inglaterra fazer uma peça. Estava mal financeiramente. E foi aí que conheceu Peter Turner, que era de Liverpool e estava em Londres tentando a carreira de ator”, conta Annette.

Ambos se apaixonam, apesar da diferença da idade e de vida (ela já havia sido casada quatro vezes, sendo que uma delas com o enteado). “É uma grande responsabilidade – e uma grande honra – interpretá-la. Ela era uma femme fatale, uma mulher que fazia o que queria e isso deve ter incomodado muita gente”, diz Annette, que foi quebrando o gelo com a câmera ao longo de sua carreira mas não abriu mão de grandes papéis femininos. “Quando eu comecei no teatro, fazia peças de Shakespeare, Ibsen e Chekhov – e todas tinham mulheres incríveis. Fiquei mal acostumada”, brinca.

Sem estereótipos
Seja como matriarcas nada tradicionais – a desencanada Dorothea Fields, em Mulheres do Século 20 (2016), e a lésbica caretona Nic, em Minhas Mães e Meu Pai (2010), que lhe valeu a mais recente indicação ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante –, seja na pele de espíritos livres como a liberada poeta Bella emGinger & Rosa (2012) ou a descolada designer Sylvia Fowler em Mulheres – O Sexo Forte (2008), Annette subverte estereótipos.

“O que me faz amar um personagem é sua resiliência – aquele que tenta, se arrisca”. Nesse sentido, podemos dizer que Peter Turner não só tentou se relacionar com uma mulher mais experiente e muito mais temperamental, mas a amou genuinamente. Gloria Grahame se arriscou deixando este jovem entrar na sua vida e assumindo publicamente – no final dos anos 70 – o romance que dava o que falar e que não era bem visto pela sua família e muito menos pelo patriarcado de Hollywood.

Na plateia do Screen Talk com Annette Bening, Peter Turner foi aplaudido de pé. “O livro é uma inspiração e Peter é um homem muito especial”, elogia a atriz. Apesar de ser uma declaração de amor, o livro de Turner não deixa de mostrar uma mulher excêntrica e teimosa. “Peter, apesar de amar Gloria, deixa claro suas insatisfações. Estou interessada em roteiros que explorem todos os lados dos seres humanos”, explica Annette.

A atriz foi trazida a Film Stars Don’t Die in Liverpool pela produtora Barbara Broccoli (uma das mais bem-sucedidas executivas do cinema, conhecida pelos filmes de James Bond). “Ela conheceu Peter e Gloria quando estavam juntos. Há anos Barbara queria fazer o filme e nossa conversa começou há muito tempo. Todos nós estávamos comprometidos em colocar essa história pouco usual na tela. Acho que este filme é parte de uma nova leva e de uma era menos preconceituosa. Gloria era uma sobrevivente. Enfrentou muitos escândalos e superou alguns”, diz Annette.

Agora vai?
Annette também encarou alguns micos. Na cerimônia do 63o. Oscar, em 1991, o então apresentador, o comediante Billy Crystal, chamou a atriz ao palco como “a Mulher-Gato de Batman Begins (1992)”. O papel acabou com Michelle Pfeiffer quando o estúdio soube que Annette estava grávida.

Quando ela recebeu sua segunda nomeação de Melhor Atriz, no 72o. Oscar, por Beleza Americana (que ganhou a estatueta de Melhor Filme), exibia o barrigão de oito meses. Perdeu para Hilary Swank em Meninos Não Choram (1999) – e novamente em 2005, desta vez concorrendo por Adorável Júlia (levou, em vez do Oscar, o Globo de Ouro pelo papel de Julia Lambert), enquanto Swank abocanhou a estatueta por Menina de Ouro (2004).

Com o santo forte de Gloria Grahame – que foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Rancor (1947) e ganhou o prêmio por Assim Estava Escrito(1952) –, Annette Bening continua na disputa. Sua primeira indicação ao Oscar foi de Melhor Atriz Coadjuvante por Os Imorais (1991), no qual contracenou com Angelica Huston. Ela é lembrando por Annette como uma das grandes atrizes com quem contracenou.

Mas seus ídolos são Helen Mirren, Frances McDormand, Liv Ulman e Ingrid Bergman. “Ainda sou muito crítica comigo no cinema”, reconhece, mesmo certa de “que a câmara é o território do diretor – muito mais que do ator.”

Se Annette já teve sua sanidade emocional comprometida por um papel? “Não tive minha psique totalmente destruída, mas uma vez me peguei chorando por causa de um personagem – eu adorei isso! Quando a gente descobrir como fingir tudo acho que atuar vai perder a graça”.

Falando em choro, uma senhora levantou a mão na hora das perguntas pós bate-papo e confessou: “Assisti ao filme esta manhã e não consegui parar de chorar!” A plateia caiu na gargalhada. Annette foi mais generosa: “Muito obrigada por compartilhar isso tão naturalmente”, disse. “Nestes 30 anos de carreira aprendi que é ok ter medo. Antes eu não admitia. Mas hoje eu me sinto melhor deixando o medo fluir. Assim como qualquer outra emoção. Atuando e vivendo”. [Juliana Resende]

Chanel anuncia que irá disponibilizar as trilhas sonoras de todos os seus desfiles

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A partir de agora é possível ouvir na íntega todas as trilhas dos desfiles da Chanel! || Créditos: Divulgação

Aumenta o som… Quem adora os desfiles da Chanel e mais ainda as trilhas sonoras escolhidas para cada uma das apresentações pode comemorar: a maison anunciou que todas as trilhas sonoras estarão disponíveis na íntegra por meio do Apple Music. Essa é a oportunidade de ter as faixas criadas por Michel Gaubert, “DJ de desfile”, que cria as trilhas não só para a Chanel, mas também para a Dior, Balenciaga e Dries Van Noten – para citar só alguns de seus clientes.

Essa novidade conta ainda com uma rádio criada por ‘amigos da marca’, ou seja, convidados da Chanel que irão compartilhar seus setlists favoritos. Pharrell Williams e Caroline de Maigret são os primeiros a compartilhar suas escolhas musicais. Très chic!