Candidata a ‘novo Instagram’, rede social Vero surge envolta em polêmicas

Sem anúncios, algoritmos e com sistema de classificação de amigos, plataforma criada por libanês tem termos de uso confusos, passado complicado e usabilidade falha

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Ao contrário do Facebook e do Twitter, que podem ser usados gratuitamente, mas exibem anúncios, a ideia do Vero é ganhar dinheiro com assinaturas

De tempos em tempos, surge na internet uma nova rede social ou aplicativo disposto a acabar com o domínio de Facebook e Instagram. Depois de ElloSarahah e até do Hello, empreitada do criador do Orkut, a bola da vez é o app Vero, que teve mais de 500 mil downloads nos últimos dias.

Lançada em 2015 pelo empresário Ayman Hariri, filho de um ex-primeiro ministro do Líbano, que estava cansado de ver anúncios em redes sociais, o Vero caiu nas graças dos influenciadores digitais nas últimas semanas. Os motivos? A promessa de não ter anúncios nem algoritmos de filtragem de conteúdo, duas críticas bastante populares às redes sociais da atualidade. Isso, no entanto, não evita que o Vero já esteja envolto em polêmicas.

Coleta de dados. A primeira delas é a promessa de que, por não ter anúncios, a rede social não coletaria os dados pessoais de seus usuários para mostrar publicidade a eles. Ao se verificar os Termos de Uso da rede, porém, é fácil perceber que o Vero tem práticas de coleta de dados bastante parecidas com a das outras redes.

“A premissa é não coletar dados, mas ao ler o contrato o usuário pode tomar um susto, até porque a rede não explica como a coleta de dados é feita, nem como as informações são armazenadas”, diz Eduardo Magrani, coordenador do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), que analisou os termos de uso da rede a pedido da reportagem do Estado. Para ele, o Vero tenta surfar a onda de uma insatisfação geral com os algoritmos de filtragem de conteúdo do Facebook, que geraram o chamado “efeito bolha”.

Ao fazer o cadastro, o Vero pede a seu usuário uma confirmação de identidade por email e por telefone – dois dados que, por si só, já são bastante suficientes para gerar uma lista de dados a serem vendidos para terceiros e encher bastante a paciência de qualquer pessoa. Outro problema? A empresa pede o nome inteiro do usuário para registrá-lo – e não um login simples, como acontece no Instagram ou no Twitter.

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Empresa foi lançada por Ayman Hariri, filho de um ex-primeiro ministro do Líbano

A confusão não para por aí: em uma versão anterior de seu contrato com usuários, o Vero exigia que todo conteúdo publicado nela – isto é, fotos, textos e até mesmo “curtidas” – tivessem seus direitos autorais transferidos à empresa que a administra. Depois de críticas, a rede social mudou seus termos de uso, mas não deixou de lado a má impressão causada inicialmente.

Para o advogado do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br) e especialista em privacidade, Bruno Bioni, a promessa de uma rede “pró-privacidade” é interessante e deveria ser mais usada como elemento competitivo por startups. “É bom ficar de olho, porém, para ver se a publicidade em torno da rede social se comprova de fato nos termos de uso”, avisa.

Sem saída? Outra polêmica em que o Vero se envolveu gira em torno de seu criador: antes de lançar a rede, ele cuidava da empresa de construção da família, a Saudi Oger. A empresa fechou as portas no ano passado, mas, antes disso, deixou mais de 30 mil funcionários sem salário e em um acampamento no meio do deserto na Arábia Saudita sem acesso a comida, água ou tratamentos médicos.

As primeiras críticas fizeram boa parte da onda de usuários que aderiu ao Vero querer deletar sua conta na rede social. E aí surgiu outro problema: não há um jeito de fazer isso explicitamente, da mesma forma como acontece no Facebook ou no Twitter, por exemplo.

O máximo que os usuários podem fazer é solicitar à empresa para que sua conta seja excluída, seja via aplicativo ou pelo site oficial do Vero. “Ter uma política de entrada e saída da rede complexas gera muita insegurança ao usuário”, avalia Magrani, do ITS-Rio.

Como funciona. Para quem tiver a curiosidade de saber como o Vero funciona, ainda assim, vamos lá: apesar de querer ser uma substituta ao Instagram, com muito uso de hashtags, a rede também permite o compartilhamento de links, textos e até mesmo de dicas de filmes, livros e séries.

É possível, como no bom e velho Orkut, dividir os amigos entre “conhecidos”, “amigo”, “melhor amigo” e “seguidor” – na hora de fazer uma publicação, a rede permite que as mensagens sejam visualizadas apenas por um ou outro grupo específico.

Outro ponto forte do Vero – e que tem sido abandonado por Instagram, Facebook e até, em certa medida pelo Twitter – é definir a ordem dos posts que aparecem na rede social não por um algoritmo, mas sim em ordem cronológica reversa (isto é, publicações mais recentes aparecem primeiro).

Ao contrário do Facebook e do Twitter, que podem ser usados gratuitamente, mas exibem anúncios, a ideia do Vero é ganhar dinheiro com assinaturas. Por enquanto, a rede social não está cobrando dos usuários, mas começará a fazê-lo no futuro, embora os valores não estejam definidos ainda. Isso, claro, só vai funcionar se a rede cair no gosto popular. Vamos Vero que acontece. [Bruno Capelas – O Estado de S. Paulo]

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