Conheça Ulla Sommerfelt, a designer que criou uma empresa baseada em compaixão

A designer norueguesa recebeu Casa Vogue no escritório em Trondheim para falar sobre criatividade, feminismo e design
Por Aline Takashima I Fotos Divulgação

ulla_conversando_com_as_designers_da_america_latina

Foi só aos 40 anos que a designer norueguesa Ulla Sommerfelt se sentiu segura o suficiente para revelar a sua força feminina no ambiente de trabalho. Ela é CEO e cofundadora da EGGS, empresa de design e tecnologia, com sede em Oslo e escritórios na Dinamarca e no Brasil. Com energia de sobra, a criativa se desdobra entre viagens de negócios, consultorias e relacionamentos com os clientes. O sorriso largo seguido de um discurso firme revela uma líder generosa e amigável. Mas nem sempre foi assim.

No começo da carreira, em 1986, Ulla trabalhou como engenheira de sistemas na IBM, empresa de tecnologia da informação. Em um universo rodeado por homens, adotou um discurso austero e um guarda-roupa com peças escuras, que nada combinavam com quem ela realmente era.

“Eu me sentia insegura em um ambiente de negócios dominado por homens, principalmente quando era jovem, nos meus 20 anos. Eu não era desrespeitada por eles, mas sentia que deveria ter atitudes mais duras e masculinas.” No momento em que decidiu ser ela mesma e agir de acordo com o que acreditava é que os negócios fluíram. E, aos 50 anos, iniciou uma nova fase da carreira.

Às vésperas de seu aniversário, a designer acordou às 5h com uma epifania. Ela decidiu abrir uma empresa com valores baseados na compaixão. Foi então que nasceu a EGGS Design. O conceito, Ulla explica, é simples: contratar ótimos profissionais e tratá-los como pessoas e não máquinas. “Compaixão é a capacidade de compreender as necessidades e os problemas dos outros e agir”, explica.

Se na teoria a visão parece óbvia, na prática as coisas não são tão simples. “Muitas empresas se baseiam no medo e na ameaça, são lugares tóxicos e podem deixar as pessoas doentes”, conta em palestra para o TEDx, em Trondheim, a terceira maior cidade da Noruega. E completa: “Em alguns ambientes corporativos, compartilhar pode ser perigoso. Muitas pessoas podem pensar: ‘se eu falar como estou sentindo, os meus colegas vão rir de mim e fofocar sobre os meus problemas’ ou ‘se eu contar uma ideia, outras pessoas podem tomar o crédito para si”.

equipe_eggs_

Ulla defende que, ao contrário dos homens, as mulheres demonstram mais empatia e compaixão. “Muitas de nós somos mães e a sociedade nos permite e espera que sejamos assim.” Ela tem propriedade no que diz. É mãe de três filhos e avó. E manifesta os sentimentos tanto com os amigos e a família quanto no trabalho. O que faz com que a sua família a enxergue como modelo de liderança. Tanto que a sua única filha decidiu abrir uma startup recentemente. “Eles dizem que admiram o meu lado empresarial”, conta orgulhosa.

equipe_eggs2

Mesmo sem políticas de cotas femininas, a empresa possui 11 cargos de liderança exercidos por mulheres e 10 por homens. Ulla diz que mesmo os chefes homens brincam como são feministas e femininos. Um deles canta em um musical e o outro é dançarino. “Eles estão bem com quem eles são e não tem medo de demonstrar a sua personalidade. Não é como se tivessem medo de ferir a masculinidade.”

Vale lembrar que a Noruega é o segundo país mais igualitário do mundo, de acordo com o Fórum Econômico Mundial. Ou seja, o país conta com a participação das mulheres no mercado de trabalho e na política, oferece oportunidades econômicas, acesso à educação e saúde. “Comparado com outros países, nós [os escandinavos] estamos bem. Mas a gente tem que trabalhar com essas situações para sempre. As mulheres ainda têm muitas conquistas pela frente.”

“Todos nascem criativos”

O escritório da EGGS em Trondheim reflete esse ambiente transformador criado pela CEO. Ser gentil com os outros é uma prerrogativa que eles levam a sério. E, claro, em um local bonito que propicie o bem-estar. Ulla acredita que um ambiente acolhedor abre espaço para a criatividade.

eggs_apresentacao

“Muita gente pensa que só quem desenha ou é artista é criativo. Mas todos nascem com criatividade. Eu não sei desenhar, mas me considero criativa, pois eu resolvo problemas e penso de uma forma holística, eu tento enxergar o todo. E é assim que os designers atuam. Mas definitivamente todas as profissões podem ser criativas.”

A CEO e o seu time unem design e tecnologia e criam produtos e experiências, onde todas as áreas do design dialogam e atuam em conjunto. Ela aponta que, num futuro próximo o design certamente tentará resolver os problemas do mundo. “Toda empresa deve descobrir como criar um futuro mais sustentável, independente da área”, comenta a designer. E, não à toa, a EGGS ganhou 5 prêmios no DOGA Award for Design and Architecture – premiação dinamarquesa que destaca projetos com soluções inovadoras.

O escritório no Brasil foi um dos vencedores com o projeto desenvolvido com a startup americana Loadsmart, uma espécie de Uber da logística de transportes. É uma plataforma online com banco de dados de diversos motoristas e veículos dos mais variados tipos para entregas. Ao otimizar a logística do caminhão, torna-se possível distribuir o frete de forma mais eficiente, ao mesmo tempo em que minimiza o número de caminhões vazios que poluem desnecessariamente. A EGGS desenvolveu a marca, o design do projeto e a plataforma digital.

dispensador2A empresa norueguesa também criou outros projetos interessantes, como saboneteiras e dispensadores de papel desenvolvidos para atender todo tipo de pessoas, incluindo crianças, pessoas cegas, com artrite e usuários de cadeiras de rodas. Nos dispensadores, por exemplo, o papel sai na parte da frente e não embaixo. Há também informações em braile para as pessoas pressionarem o botão e pegarem o papel. O visual também foi repaginado. As formas externas foram suavemente arredondadas. O produto recebeu dois prêmios: o DOGA Award for Design and Architecture e o UK’s Tomorrow’s Cleaning Award.

Design com a comunidade e não para a comunidade

Em junho do ano passado, a designer da EGGS, Valeria Gaitan, 31 anos, morou por três semanas em Santa Catarina Polopó, uma cidade de mil habitantes, na Guatemala, próxima ao lago Atitlán, considerado um dos lagos mais bonitos do mundo. O intuito era pensar formas de tornar as casas mais sustentáveis. O projeto foi organizado pela Cúpula Internacional de Design para Desenvolvimento (IDDS), uma organização que pensa modelos de soluções tecnológicas de baixo custo em comunidades carentes.

guatemala_designer_valeria_conversando_com_as_familiasA sua equipe pensou em como minimizar os danos causados por uma estrutura tradicional da cultura indígena: o temezcal. Construído dentro das casas, formam uma espécie de sauna. A água é transformada em vapor por meio do aquecimento de uma fogueira. Para funcionar, os Temezcals consomem lenha e soltam uma fumaça que causa doenças respiratórias e irritação nos olhos, além de dizimar as florestas do entorno. “Ninguém pode remover a identidade de um povo e as raízes indígenas. Por isso pensamos em formas de economizar energia e manter a cultura tradicional”, explica Valeria.

guatemala_lidia_representante_da_comunidade_testando_o_prototipo_temazcal

O grupo desenvolveu, então, uma estrutura que permite o aquecimento rápido e que requer menos lenha. Além de um tubo que direciona a fumaça para fora de casa. Valeria ressalta a importância de trabalhar com a comunidade e não para a comunidade. “Nós temos que escutar e trabalhar juntos. O projeto é muito mais do que encontrar soluções para serem implementadas amanhã. E sim empoderar as pessoas para melhorarem a sua cidade.”

guatemala_women_participating

Valeria conta que um dos momentos mais emocionantes foi quando Jessica Pérez, uma das mulheres de Santa Catarina Polopó abraçou o projeto e tornou-se uma voz na comunidade. “Ela era muito tímida e não gostava de conversar com a gente em espanhol, pois a sua língua materna é indígena. Mas, a cada dia, Jessica se interessava mais pelo projeto e, no fim, visitou as casas dos vizinhos explicando sobre a importância daquelas ideias.”

grupo_energia_guatemala

As soluções foram pensadas por profissionais de diferentes áreas e experiências, como designers, engenheiros e arquitetos, além de pessoas que moram na comunidade. Esse ambiente diverso também faz parte do universo que Ulla criou. A EGGS conta com 90 profissionais de 20 nacionalidades diferentes. Nesta semana, o escritório em Trondheim espera uma designer da Arábia Saudita e outro do Brasil. Com tantos criativos e ideias em ebulição, Ulla enxerga a estética como uma parte essencial, mas um efeito colateral da profissão.

“Os designers são ótimos em olhar para todas as partes de um problema, criar empatia com determinada situação ou produto, reformular e simplificar os processos.” E conclui confiante. “A missão do design é tornar o mundo melhor.” Pois é o que ela está fazendo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s