Liya Kebede: “Padrões de beleza não são a realidade”

A covergirl da ELLE de março falou sobre auto-estima, feminismo e trabalho humanitário.
Por Nathalia Levy

liya
Liya usa malha de gola rolê, R$ 479, calça de sarja, R$ 479 e jaqueta de sarja, R$ 479. (Pamela Hanson/ELLE)

Liya está há horas sendo fotografada e segue aperfeiçoando cada detalhe das imagens. Está cansada, mas domina o set com doçura. Conta sobre seus projetos com a calma de quem já passou por muito em mais de 20 anos de carreira (ela completou 40 de vida no dia 1 deste mês). São incontáveis campanhas e desfiles, mas é quando discorre sobre o trabalho de outras mulheres que sua fala se intensifica, e o cansaço parece se dissipar. “Tantas mulheres fizeram coisas incríveis. É difícil pensar numa específica que me inspire. Mas há uma ativista, e seu nome é Nice Leng’ete. Ela advoga contra a mutilação genital e está realmente fazendo a diferença no Quênia”, conta sobre a jovem que ajudou cerca de 15 mil meninas a não passar por esse trauma. “Ela é uma garota comum. Não é alguém que tem muito, mas está usando sua voz para dizer que basta. Ela lutou contra sua própria cultura e passou por muita coisa até que começassem a entender o que ela estava dizendo. É incrível. É o tipo de pessoa que me inspira.”

É interessante conhecer as figuras que motivam Liya. Mesmo se definindo também como uma mulher comum, acabou se transformando no que ela mesma entende como uma pessoa inspiradora. Aconteceu na moda, ao sair da Etiópiaaos 18 anos com o sonho de ser modelo e, mais tarde, se tornando uma referência ao virar a primeira modelo negra a assinar com a Estée Lauder. Em seguida, veio o posto de embaixadora da Organização Mundial da Saúde. Assim como a ativista queniana, Liya nunca se conformou com a situação que viu de perto enquanto crescia na África: milhares de mulheres morrendo durante o parto por não ter acesso a instalações básicas de saúde. Por seis anos, ela ajudou a colocar esse problema na pauta dos países em desenvolvimento até abrir a sua própria fundação. Sempre com seu país de origem em mente, ainda lançou a Lemlem, uma marca sustentável que tem como prioridade gerar empregos e valorizar o trabalho dos artesãos em escala global.

Com os pés no chão, Liya, que chegou ao ranking de novas supermodels do respeitado portal Models.com, influenciou cada uma das áreas por onde passou sem deixar de ser crítica, principalmente quando o assunto é diversidade na moda. Afinal, mesmo 15 anos depois de sua campanha para a Estée Lauder, o racismo continua presente. “Esta é a questão: você não quer ser uma coisa ‘cool’. A diversidade não pode ser uma tendência”, diz ela. Não à toa, Raf Simons escolheu a icônica modelo etíope para fazer parte do novo momento da Calvin Klein. “A moda é política e o que Raf está fazendo é elevar a barra ainda mais nessa jornada. Ele dá continuidade ao impacto que a Calvin Klein sempre teve, seja com o jeans, seja com o underwear.” Ele a colocou em seus três desfiles e também como rosto do Eternity, um dos perfumes mais importantes da grife, que agora ganha uma nova versão, o Air. Com suas referências à cultura norte-americana e a reprovação às políticas xenofóbicas do presidente Trump, o designer inseriu esse olhar atento e contestador em todas as áreas da marca, inclusive na linha comercial, a Calvin Klein Jeans, que fotografamos com exclusividade em Liya nesta edição – e que chega às lojas do Brasil neste mês. As peças remetem ao clima industrial da Nova York dos anos 1970 e aos desertos norte-americanos.

Em um mês tão especial para as mulheres, conversamos com a modelo não apenas sobre seu papel como ativista dos direitos femininos mas também sobre como deixar um legado que inspire as próximas gerações a encontrar o equilíbrio entre aceitar os seus limites e transformar o seu entorno.

Como você acredita que as mulheres podem encontrar o amor-próprio em um mundo com tantos padrões?
Acho que não há opção. Os padrões de beleza não podem influenciar o amor-próprio. Não há motivo para aceitá-los. Você tem que se amar porque não existe absolutamente nada de errado com você.

Você sempre pensou assim?
Eu acho que é uma coisa que acontece quando você vai ficando mais velha. Você começa a perceber que tem que aceitar quem é porque, de qualquer forma, ninguém pode ser você. Os padrões de beleza não são a realidade e às vezes esquecemos que eles vêm de um grupo de pessoas que decide o que é legal hoje, mas que amanhã pode virar outra coisa. E você não pode ficar subindo e descendo nessa dança porque, mesmo que tente, nunca vai alcançá-los.

Mas você já se sentiu insegura alguma vez?
O tempo todo. (risos) Nós todas nos sentimos, claro.

E o que você faz?
Eu tento falar para minha cabeça parar de pensar nisso. Quando não funciona, eu medito. Tento meditar quando fico meio louca ou muito distraída. Eu volto e falo “ok, preciso fazer minha meditação todas as manhãs e voltar a um ponto zen”. Isso ajuda bastante.

Como você faz para ensinar sua a filha a ser uma mulher forte?
Ela tem 12 anos e como mãe, se você ama seus filhos, você tem que fazer com que eles saibam disso. O mundo lá fora nunca vai ser tão generoso como você pode ser como mãe, então você tem que ser a primeira a dar isso a ela porque aí, quando sair, terá uma espécie de bolsinho com coisas boas dentro, que poderá usar quando precisar.

Ela se interessa por moda? Você a apoiaria a entrar nessa carreira?
Sim, ela ama moda. Eu apoiaria se ela fosse um pouco mais velha. Não quero que ela seja destruída cedo demais, enquanto ainda não desenvolveu sua própria força. Porque é difícil, sabe? A moda é difícil. Você leva para o lado pessoal por ser rejeitada muitas vezes. Existe competição, é sobre a sua aparência, existem questões corporais. Há tantas coisas, e você precisa encontrar uma forma de ficar acima disso e não se sentir destruída toda vez que alguma coisa acontecer. É preciso mais tempo para crescer.

Você vê alguma melhora na indústria, considerando todo o tempo que está nela?
Ela está ficando mais diversa, mas ainda é uma indústria que constrói imagens e há muita pressão. A diversidade não pode ser só uma tendência que deixe de existir amanhã porque saiu de moda. Essa é a parte perigosa. Nós tendemos a apontar o tempo todo e fazer com que a diversidade vire uma “coisa”. Quando falamos de corpo, existem poucas meninas ainda. Existe a Ashley Graham, por exemplo, e ela é linda. Mas por que temos que ficar falando: “Ah, ela é uma modelo plus size”? Por que temos que identificá-la dessa forma? Ela é apenas uma garota bonita na passarela.

Você acredita que em algum momento chegaremos a esse ponto?
Eu não sei, mas se não chegarmos não será realmente diverso. Porque sempre será essa pequena coisa e aí já era. Na próxima temporada, algo novo será cool. E é esta a questão: você não quer ser uma coisa cool. Teria que ser: “Olha, aqui está uma garota bonita. Vamos fotografá-la”. E seguir em frente. A mesma coisa com cor, gênero, tudo.

Também há um debate grande sobre sustentabilidade e ética na moda hoje. Sendo empresária, como faz para levar adiante sua marca sem cair na ideia de fast fashion?
Acho que o que fazemos é naturalmente muito diferente. Nós queremos celebrar o trabalho dos artesãos, empregar pessoas e tentar mudar o ciclo de pobreza, além de trazer um pouco da beleza do que é feito manualmente para o mundo da moda. Por causa da natureza de nosso produto e de nossa história, acredito que sempre vá ficar bastante controlado. Fazemos roupas atemporais, confortáveis, que duram e que todos podem usar. Nós não temos a capacidade de cobrir todas as áreas, mas eu me esforço para criar imagens diversas.

41O Eternity é um perfume que atravessou gerações e virou um ícone. Qual é a sua primeira lembrança dele e quais são os valores que ele representa que você carrega?
Minha primeira recordação na verdade é sobre um perfume masculino por causa de um garoto por quem eu tinha uma queda no ensino médio. Me faz lembrar desse momento muito doce, mas também maduro, e mesmo naquela época eu achava aquilo muito sexy. A ideia de amor e infinidade, algo que conecta e continua, é algo que eu carrego.

Você pensa que as redes sociais podem ajudar a empoderar mulheres de alguma forma?
As redes sociais são complicadas. Acho que ainda não entendemos qual é a melhor maneira de usá-las. Eu tenho dificuldade porque elas são uma faca de dois gumes. Podem ser empoderadoras, mas também banalizam tudo. Elas fazem muito barulho. Muitas mensagens acabam se diluindo por causa de todo esse barulho, mas ao mesmo tempo algumas realmente conseguem sobressair e elas empoderam, como o movimento #MeToo. Elas são um animal estranho, que não pode ser domado. Por isso não estou muito segura, e sou um pouco cética. Mas elas mudaram muita coisa. Mudaram a moda e levaram o mistério embora, o que eu não gosto muito. Elas estão colocando muita pressão em todo mundo e isso é complicado.

Existem questões específicas de algumas mulheres que você acredita que os movimentos atuais não estão cobrindo?
Acho que todas somos feministas. Temos que ficar com a ideia de equidade e de que todas as mulheres precisam ser livres. Que elas tenham liberdade para existir, fazer e desejar o que quiserem e o mundo precisa aceitar isso. A verdade é uma só. No fim, como humanos, nós ficamos dissecando as coisas e, quanto mais a gente disseca, pior a situação fica. A gente deveria ser mais inclusivo, deveria dizer mais a palavra “juntos”, em vez de falar “eu sou tão específico e preciso de coisas só para mim”. E as coisas que nos conectam? Todas as mulheres? E o homens também. Eu não sou contra homens, pois tenho um filho.

E de que forma você acredita que podemos engajar os homens verdadeiramente?
Por meio da educação. Eu não acho que educamos bem. Esse é o problema. Meninas não foram bem educadas e meninos não foram bem educados. Você precisa ser bem educado para apoiar o outro. E eu não acho que nós somos, a escola não cumpre esse papel, e é por isso que estamos passando por tudo o que está acontecendo agora. Os meninos precisam ser educados tanto quanto as meninas. Não apenas as meninas têm que saber como reagir quando se encontram em situações desconfortáveis. Os meninos também precisam aprender como não colocar pessoas em situações desconfortáveis.

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