Brasil Arquitetura: trabalhar com reabilitações é atender às reais demandas da sociedade

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Praça das Artes . Image © Nelson Kon

Brasil Arquitetura, formada em 1972, é uma associação de arquitetos liderada por Francisco Fanucci e Marcelo Ferraz, tendo executado projetos emblemáticos como o Bairro Amarelo em Berlim, Alemanha, Museu Rodin em Salvador-BA e a Praça das Artes em São Paulo, entre muitos outros. Os dois arquitetos estiveram muito próximos a Lina Bo Bardi em momentos importantes de sua vida profissional, incluindo a construção do Sesc Pompéia. Em diversos projetos, encararam o desafio de reabilitar edifícios antigos, como o Museu do Pão, a Praça das Artes, o Museu Rodin e o próprio Sesc Pompéia. Nessa direção conversamos um pouco com o escritório para saber mais sobre esse tipo de intervenção.

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Teatro Erotídes de Campos. Image © Nelson Kon

ArchDaily: Diversos de seus projetos são reabilitações de edifícios antigos, geralmente industriais. O que vcs acham interessante nesse tipo de desafio?
Brasil Arquitetura: Ao trabalhar com a reabilitação de edifícios para usos diversos dos originais, como no caso de antigas indústrias, entramos num jogo dialético. Temos que tirar do próprio edifício, ou espaço, as soluções de adaptação aos novos usos. Ou seja, nunca partimos do zero. As dificuldades e limitações é que nos guiam e indicam as soluções de projeto, como num jogo de xadrez em que, a cada jogada, alteramos a realidade, tendo que refazer os cálculos e buscar novamente as saídas, ou soluções. Ao projetar em edifícios existentes, antigos ou não, temos que buscar a “vocação” de cada espaço em função programa a ser implantado. E isso é muito prazeroso.

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Sesc Pompeia – Lina Bo Bardi. Image © Nelson Kon

ArchDaily: Quais experiencias com a Lina Bo Bardi e o Sesc Pompeia são referencias para vcs até hoje?
Brasil Arquitetura: Os nove anos dentro do canteiro de obras do Sesc foram mais que um laboratório, uma profunda formação na prática projetual. Fizemos ali restaurante, teatro, piscina, quadras, salas de ginástica, biblioteca, espaços expositivos, espaços administrativos, áreas técnicas e de apoio, etc. O Sesc Pompeia não é um projeto só. São muitos dentro de uma unidade conceitual. Cada um com suas características e especificidades relativas aos usos e funções. Fizemos também neste período várias exposições, participando de todas as etapas, desde definições curadorias até o trabalho manual de montagem, passando pela pesquisa temática, detalhamento de expografia, produção, etc. Uma verdadeira escola.

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Sesc Pompeia – Lina Bo Bardi. Image © Iñigo Bujedo Aguirre

ArchDaily:  Pode explicar um pouco sobre algumas estratégias na hora de escolher o que é preservado ou não no edifício existente?
Brasil Arquitetura: Uma profunda análise do objeto a ser utilizado é fundamental – sua história, sua tectônica, fatos e mitos. Tudo importa e pode ajudar. Mas o mais importante é fazer toda esta leitura de reconhecimento com o olhar projetivo, ou seja, sob a ótica do que se quer implantar e instalar neste edifício ou conjunto de espaços construídos; como deverá ser a futura vida ali. Uma viagem de mão dupla, prospectiva e projetiva ao mesmo tempo. Ou seja, quando prospectamos, ou procuramos, já estamos projetando porque procuramos com uma meta – ou sonho-, já definida. E, como já disse, as descobertas no decorrer desta procura alteram também a meta. Esse é o jogo dialético.

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Teatro Erotídes de Campos. Image © Nelson Kon

ArchDaily: Como é trabalhar no Brasil com esse tipo de projeto?
Brasil Arquitetura: Muito bom e ainda pouco usual, ou melhor, pouco praticado ou adotado como campo de trabalho para essa enorme massa de arquitetos que temos, como também como uma possível solução para certos problemas em nossas mais de cinco mil cidades. Quando os edifícios tornam-se obsoletos para os fins aos quais foram concebidos, temos que adapta-los a novas funções, tentar incorpora-los à vida contemporânea com novos usos. Nem sempre é possível e muitos desaparecem, como acontece na história das cidade, por vários motivos. Mas vale a pena pensar e tentar descobrir se são portadores de, pelo menos alguma vitalidade, que possam novamente recoloca-los na vida urbana. Afinal, são frutos da riqueza produzida pelo trabalho humano. Mas não dá para preservar tudo e nem devemos querer isso. As cidades são organismos vivos, mutantes.

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Museu do Pão. Image © Nelson Kon

ArchDaily:  Que tipo de uso vcs preferem trabalhar em projetos dereabilitação?
Brasil Arquitetura: Qualquer uso é válido, desde que faça sentido. Fazer sentido significa atender a demandas reais da sociedade como um todo, ou de comunidades, grupos de pessoas, e não criar simulacros, algo muito comum hoje em dia. Nossas cidades estão cheias disso. Acho que ainda estamos muito fixados em projetar nas reabilitações centros de cultura e afins. O ideal seria expandir esse programa, projetar habitação, hotéis, hospitais, escolas, etc, nesses espaços e edificações abandonados ou subutilizados. São conjuntos industriais, ferroviários, quintais vazios nas zonas centrais das metrópoles (a Praça das Artes é um exemplo), espaços intrigantes, maravilhosos para se sonhar… []

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