Precisamos falar sobre Khloé Kardashian

Longe das fogueiras e dos rojões, não há mal em usar as celebridades como ponto de partida para reflexões mais amplas, nos limites do respeito e do diálogo.
Por Vivian Whiteman

e946613d3d83415d8645e211bf7e69d8Há alguns meses escrevi uma coluna sobre o programa Revenge Body, apresentado por Khloé Kardashian. Comentava então como era estranho esse conceito de modificar seu próprio corpo para se “vingar” de outra pessoa. Agora, o nome da moça volta a circular em um outro contexto de vingança, que, embora se refira a algo diferente, também alimenta uma ideia obscura sobre preconceito e padrões de exclusão.

O namorado de Khloé, o jogador de basquete Tristan Thompson, com quem ela está prestes a ter uma filha, foi filmado traindo a mulher em diferentes ocasiões. Imediatamente, as redes resgataram o passado: a Kardashian começou a se relacionar com Tristan quando ele era comprometido com outra mulher, que estava grávida dele. Ele teria inclusive voltado a sair com a ex em algum momento. Um padrão que se repete.

Logo surgiu um novo velho mantra: “how you get them is how you lose them”, naquela linha “o feitiço se vira contra o feiticeiro”. Ou seja, se Khloé o “pegou” em uma situação de mentira e desrespeito a um relacionamento anterior, agora vai “perdê-lo” da mesma maneira. Uma inversão de papéis que os haters ou venenosos da web estão chamando simplificadamente de karma. Ou seja, Khloé estaria vivendo uma espécie de “vingança do destino”.

É claro que nossas ações têm consequências. Tentamos, mas às vezes não podemos fugir delas. Faz parte da formação do caráter e da organização psíquica aprender a lidar com consequências. Isso podemos afirmar sem medo.

Porém, não é disso que se trata nas redes nesse momento.

Khloé, prestes a parir, virou a Geni, apedrejada e indigna de qualquer solidariedade porque um dia participou de uma situação ambígua. Não se importou com os sentimentos de outra mulher e fez uma escolha. 

Não que essa escolha deva ser aplaudida, pelo contrário. As mulheres precisam aprender a avaliar suas próprias ações com rigor, não para serem ainda mais cobradas por tudo ou impedidas de viver conforme suas regras, mas porque muitas vezes essas ações reforçam e perpetuam uma organização afetiva que dá sempre cobertura ao homem. 

Quem é o sujeito que agiu mal acima de tudo, ou seja, quem é o protagonista dessa cena? Tristan. Ele é que era comprometido e desrespeitou esse acordo voluntário entre adultos capazes em dois relacionamentos seguidos. Por que então ele é o que é “pego” e “perdido”? Por que é ele o prêmio, o que deve ser conquistado e mantido, disputado?

Que grande perda é essa, afinal? Tudo se resume à briga de duas mulheres por um homem em quem não se pode confiar, um cara sem palavra? Existe um tesouro a ser defendido? Qual? Por outro lado, comenta-se a superioridade do macho pegador, aquele que passa lábia nas garotas enquanto realiza todos os seus desejos sem restrições. Muitas vezes a pegação em série envolve um grande vazio, que obviamente jamais deve ser mencionado sob pena de botar a virilidade em sério risco. A angústia é engolida a seco ou regada a muita bebida, como recomenda o manual. Se um menino de 12 anos é abordado sexualmente pela professora de 30 ele deve obrigatoriamente gostar disso, se ela for bonita. O comedor deve “mastigar” tudo e todos, mesmo sem fome. E sem demonstrar nenhum desconforto. Isso, obviamente, não pode dar certo a longo prazo.  A observação tem mostrado isso de muitas maneiras.

Em The Will to Changebell hooks fala sobre essa ideia tóxica de masculinidade. Diz que, para que haja um avanço social efetivo nas relações, os homens precisam entender como o patriarcado os afastou de seus sentimentos e de sua vida interior. Inclusive do amor. O homem cresce aprendendo que tem de espalhar filhos, não deve sentir demais, deve fugir do romantismo, ter muitas amantes, não chorar, reagir com violência a finais de namoros/casamentos não liderados por eles, entre muitos outros venenos administrados desde o berço aos meninos.

As amantes por séculos têm sido a regra não escrita dos casamentos e, embora aí existam outras muitas questões envolvidas, sobre desejos, traumas e negócios, elas têm contribuído com uma certa paralisia da ética masculina, que não quer perder privilégios da compensação/prazer/poder nem tomar responsabilidades.

Hooks defende, conectada a esse raciocínio, que a educação dos meninos tenha um potencial libertador e que seja direcionada para o amor. E também para um visão menos mecânica e comercial do sexo. O que ela propõe tem implicações revolucionárias no ponto em que o subjetivo, aquilo que é de cada pessoa, se conecta com o macro. 

Não se trata de clichês de romance de novela, mas de comprometimento, parceria, respeito mútuo e desconstrução de hábitos e de padrões nocivos.

Pessoas se apaixonam nas mais variadas situações, relacionamentos se deterioram, acabam, isso é da vida. Porém comportamentos repetidos sistematicamente em várias esferas merecem análise. 

Uma mulher fez um desabafo no Instagram de Khloé. Se referiu aos comentários das irmãs que fetichizam homens negros e à sua aproximação com as estéticas da negritude. E disse que já que as irmãs gostam tanto de afirmar publicamente que só namoram negros, entre outros exemplos, agora teriam de lidar com uma realidade estatisticamente mais presente entre as mulheres negras: a maternidade solo. 

Outras traziam à tona a ideia de felicidade plástico-fake das fotos do Instagram. A variedade de temas é impressionante.

No mundo conectado, as celebridades funcionam como exemplos gerais, vidas distantes, mas tão perto e ao alcance dos olhos, ouvidos e comentários de tela. E, longe das fogueiras, dos rojões e da malhação de Judas, não há mal em usá-las como ponto de partida para reflexões mais amplas, nos limites do respeito e do diálogo. Keeping up with the Kardashians, no melhor sentido da expressão. 

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