Islândia descobre seu primeiro negro

Estudo revela 780 descendentes de ex-escravo Hans Jonathan
Martin Selsoe Sorensen, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

Some of the estimated 780 living descendants of Hans Jonathan, an escaped slave, attend a commemoration at his burial site in Iceland.
Descendentes de Jonathan realizam cerimônia no local onde ele foi enterrado na Islândia Foto: NYT

Muito tempo depois de sua morte, Hans Jonathan finalmente recebe a merecida atenção. Embora já fosse uma espécie de celebridade na Islândia e tema uma biografia bem recebida, ele agora é também centro de um estudo genético inovador. Acredita-se que Hans Jonathan tenha sido o primeiro negro a viver na Islândia.

Na Dinamarca, porém, onde Hans Jonathan (ele não tem sobrenome) foi escravo, lutou numa guerra, perdeu uma famosa disputa judicial sobre escravidão se livrou da servidão fugindo para a Islândia, sua extraordinária história não desperta muito interesse.

Quando uma sua descendente nascida nos Estados Unidos pediu ao governo dinamarquês que o declaresse, postumamente, um homem livre, recebeu apenas uma polida rejeição.

Quem hoje passa em frente da mansão de cinco andares situada a menos de cem metros do Palácio Real de Amelienborg, em Copenhague, não encontra nenhum marco histórico falando da família Schimmelmann, que era dona do imóvel, ou dos escravos que lá viviam, entre eles, Hans Jonathan.

“Quem fala ou escreve sobre comércio de escravos colonialismo dinamarquês dirige-se a surdos”, disse Gilsi Palsson, professor de antropologia da Universidade da Islândia, autor de The Man Who Stole Himself: The Slave Odissey of Hans Jonathan.

O passado colonial quase desapareceu da memória coletiva dinamarquesa. O país tem comunidades com laços históricos com a Groenlândia e com as Ilhas Feroe, mas são relativamente poucos habitantes com ligações ancestrais com as antigas colônias dinamarquesas do Caribe, África e Índia.

Hans Jonathan nasceu em 1784 em St. Croix, na época, possessão dinamarquesa e hoje parte das Ilhas Virgens Americanas. Sua mãe era uma escrava doméstica negra de propriedade dos Schimmelmanns, uma família germano-dinamarquesa. Seu pai era branco.

Quando Hans Jonathan tinha 7 anos, os Schimmelmanns o levaram para Copenhague. Em 1801, ele se alistou como voluntário para lutar pela Marinha dinamarquesa , saindo incólume de uma feroz batalha naval contra os ingleses.

“Foi um combate furioso”, disse Palsson, cuja biografia de Hans Jonathan foi publicada na Islândia em 2014 e em inglês em 2016. “Seu navio foi bombardeado pesadamente.”

Hans Jonathan ganhou a simpatia de seus oficiais, que falaram dele para a família real dinamarquesa. O príncipe herdeiro e governante de facto, futuro rei Frederik VI, escreveu em uma carta que Hans Jonathan era “considerado livre e detentor de direitos”.

A Revolução Francesa trouxe novas ideias sobre igualdade e liberdade.  Como várias outros países colonialistas, a Dinamarca ainda permitia a escravidão no Caribe, mas em casa movimentos abolicionistas começaram a ganhar força. Entretanto, o status dos escravos, trazidos das colônias,  era ainda incerto.

Quando Henrietta Schimmelmann tentou reclamar a posse de Hans Jonathan para levá-lo de volta para St. Croix, e ele foi ao tribunal confirmar sua condição de homem livre, num caso que ficou famoso à época. Mas, por motivos desconhecidos, não conseguiu apresentar a carta do príncipe Frederik. Em 1802, o tribunal negou sua reivindicação e determinou que ele voltasse a pertencer aos Schimmelmanns, que quiseram vendê-lo em St. Croix.

Hans Jonathan então fugiu para a Islândia, estabeleceu-se no vilarejo de Djupivogur, casou-se com uma islandesa, teve filhos e viveu como homem livre até a morte, em 1827.

Embora quase esquecido na Dinamarca, na Islândia Hans Jonathan se  tornou muito conhecido, uma figura folclórica. Kari Stefansson, diretor da empresa deCODE Genectics, cujo pai era de Djupivogur, disse que as pessoas gostam muito dessa história que, segundo ele, “mostra que o racismo não é inato, mas um comportamento aprendido.”

DeCODE publicou neste ano um estudo aproveitando a vantagem do fundo genético altamente homogêneo da Islândia, dos notáveis registros genéticos do país e do lugar único de Hans Jonathan na história islandesa.

Pesquisadores identificaram 780 descendentes vivos do ex-escravo, colheram amostras de 182 e isolaram fragmentos caracteristicamente africanos que só poderiam ter vindo de Hans Jonatthan. Eles conseguiram reconstruir 38% do genoma da mãe de Hans Jonathan e rastrearam o material até a África Ocidental.

“É interessante constatar que  fragmentos de um genoma africano foram encontrados nos genomas de islandeses atuais”, disse Stefansson.

Os islandeses já conheciam a história de Hans Jonathan, mas muitos de seus decententes, que vivem espalhados por vários países, passaram a vida sem saber que tinham como ancestral um negro escravo.

Entre estes está Kirsten Pflomm, gerente de comunicações de Connecticut que, ao pesquisar online seu nome, 15 anos atrás, descobriu ela e toda a família estavam listados em um site escrito em islandês. Kirsten contatou o administrador do site e ficou conhecendo a dramática história do remoto avô.

“Visivelmente branquíssima”, Kristen disse que nunca passou por nada nem de longe parecido com racismo. Ela não está atrás de nenhum pedido oficial de desculpa pelo tempo que Hans Jonathan viveu acorrentado, nem espera maior conscientização dos dinamarqueses em relação à escravidão e à colonização. “Isso é uma discussão mais ampla que não me inclui”, afirmou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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