Janelle Monáe | Dirty Computer – Crítica

Em álbum de protesto, Janelle Monáe exalta liberdade e entrega hits brilhantes

A1+i3xu+dbL._SX522_.jpgBrian WilsonPrincePharrell WilliamsStevie WonderZöe KravitzGrimes: essa é a curta lista de nomes que contribuíram, de algum modo, ao último álbum de Janelle MonáeDirty Computer. Por mais que a impressionante escalação de veteranos e estrelas da música atual já fosse o suficiente para chamar atenção, os convidados não se destacam mais do que o elemento principal da história criada pela cantora: ela mesma.

Dirty Computer é o primeiro trabalho de Janelle que não faz uso da personagem andróide Cindi Mayweather, introduzida em seu primeiro lançamento, em 2007. Despir-se de uma figura simbólica faz bastante sentido, principalmente porque, no novo disco, a compositora apresenta uma jornada autobiográfica, que tem a auto-afirmação como objetivo principal. Mais atual do que nunca, a cantora que chegou ao mainstream em seu primeiro álbum, ArchAndroid, de 2010, agora traz uma narrativa que mantém sua estética futurista tradicional, mas se apresenta totalmente contemporânea.

Divulgado em conjunto com um filme, batizado por Janelle como uma “emotion picture”, Dirty Computer traz a história de uma sociedade distópica, onde seres considerados “fora da norma” são computadores sujos, que passam por uma limpeza de suas memórias extravagantes para se tornarem membros pacíficos da sociedade. Apesar da jornada da personagem principal ficar muito clara no filme, o álbum não segue estritamente o caminho de uma história, mas, em seu lugar, cria um relato ainda mais claro de crítica aos Estados Unidos atual e um protesto pela libertação sexual.

O disco começa com uma sequência bombástica: a faixa título, que traz o vocal característico de Brian Wilson ao fundo, e “Crazy, Classic, Life”, um hino pop que fecha com o primeiro rap de Janelle no álbum, onde ela canta das injustiças de sua vida, como uma mulher negra nos EUA, mas focando não no sofrimento, mas no orgulho. A mensagem é marcada mais fortemente no maior rap do álbum, “Django Jane”, na qual a cantora constrói sua maior crítica ao machismo e vangloria a voz feminina. A faixa, aliás, segundo o site interativo lançado do álbum, foi inspirada na Dora Milaje, mulheres da guarda real de Wakanda em Pantera Negra.

Apesar de recheado de mensagens e declarações políticas, Dirty Computer também é um álbum altamente sexual, e não peca pela falta de hits sedutores e certeiros, como o primeiro single “Make Me Feel”, “Screwed” e “I Got The Juice”. O álbum também soube mostrar o lado humano e vulnerável de Janelle, exemplificado em “So Afraid” e “Don’t Judge Me”, música que traz as inseguranças da cantora, sem se desprender do cenário maior. Em outra citação que chama atenção nas inspirações do álbum, Janelle explica que a ideia veio das diferenças entre o discurso e a realidade: “algo entre o que os Estados Unidos defende sobre liberdade e o que faz com meus irmãos e irmãs”. Mas a culminação final de Dirty Computer, “Americans”, é seu maior triunfo: a faixa em parte inspirada em um discurso de Barack Obama é cativante, grandiosa, e uma análise final da sociedade dos EUA.

Em Dirty Computer, Janelle Monáe entregou um protesto de liberdade que funciona menos como agressão e mais como exaltação. O resultado final, além de um grande álbum, é um discurso brilhante e pessoal de uma mulher negra, e um testamento de resistência de uma geração. [Julia Sabbaga]

Nota do crítico***** (EXCELENTE)

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