Filme “Sexy por acidente” levanta discussão sobre autoestima feminina em relação ao corpo

Negar os ideais de beleza não equivale a aboli-los
Amanda Hess, The New York Times

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Amy Schumer é protagonista de filme que debate autoconfiança feminina em relação ao corpo 

“Sexy por acidente” parte de uma mentirinha: as aparências não importam, o que conta é o que está no interior.

No filme, a autocrítica Renee (interpretada por Amy Schumer) bate a cabeça na academia de ginástica e acorda do desmaio acreditando que se tornou esbelta como uma supermodelo. Ela se deleita com a novidade, participando de um concurso de roupa de banho, faturando uma promoção e conquistando o afeto de um disputado herdeiro corporativo, para afinal descobrir que sua aparência nunca mudou. Os benefícios que ela imaginava ter conquistado com a beleza foram em vez disso fruto de sua nova autoconfiança.

O filme dá a entender que o único obstáculo para as mulheres de aparência normal seria a sua crença segundo a qual a aparência normal seria para elas um obstáculo. Tal perspectiva joga sobre as mulheres o ônus de melhorar a autoestima em vez de criticar os padrões de beleza definidos pela sociedade. A realidade é que a expectativa em relação à aparência das mulheres nunca foi mais implacável.

Esta recente negação dos padrões de beleza pode ser vista nos anúncios de cosméticos, nos monólogos dos professores de ginástica, nas legendas do Instagram e, cada vez mais, nos princípios do feminismo pop. Em seu livro ainda não lançado, “Perfect Me”, a professora de filosofia Heather Widdows, da Universidade de Birmingham, Inglaterra, argumenta que as pressões às quais as mulheres são submetidas para parecerem mais magras, mais jovens e mais firmes são mais fortes do que nunca.

Cuidar da aparência não é mais um objetivo superficial: tornou-se também um objetivo ético.

Assim, vemos agora entidades corporativas cinicamente incentivando as mulheres a se envolverem em atividades ligadas à beleza e à ginástica para se tornarem pessoas melhores, e não apenas mais atraentes.

Esse sentimento se tornou algo básico na indústria da beleza, ou melhor, do “bem estar”. Os Vigilantes do Peso passaram a oferecer soluções de “estilo de vida”, e não apenas dicas de “dieta”, embora o objetivo (não declarado) seja o mesmo: emagrecer. E a moda do SoulCycle apresenta a mania de ginástica como imperativo moral: “Com cada pedalada, nossas mentes ficam mais limpas e nos conectamos ao que há de melhor e mais verdadeiro em nós”.

“O Amor é cego”, comédia de 2001 na qual Jack Black se apaixona por uma Gwyneth Paltrow obesa depois de ser hipnotizado para pensar que ela se parece com a Gwyneth Paltrow normal, situou os padrões de beleza extremos na cabeça de homens maus. “Sexy por acidente” responsabiliza as mulheres. A verdade é que o foco da responsabilidade é difícil de definir. Mas as redes sociais servem como árbitro dos padrões de beleza.

Juntamente com os tutoriais de maquiagem do YouTube e os influenciadores digitais da moda no Instagram, a negação dos padrões de beleza proliferou na internet. As redes sociais aumentam ainda mais a pressão sobre a questão das aparências, mas também sobre a projeção de uma mensagem politicamente correta, incluindo a promoção de conceitos como positividade corporal, aceitação de si e “expansão” do ideal de beleza para incluir uma diversidade de corpos. Espera-se das mulheres que sejam ao mesmo tempo femininas e feministas.

A negação dos padrões de beleza é promovida por “Sexy por acidente” e também pelos críticos do filme. Quando o trailer foi lançado, muitas comentaristas feministas rejeitaram a ideia segundo a qual Amy Schumer, branca, loira e ultrafeminina, teria sido escolhida para um papel diferente do de uma beldade.

Já se tornou tabu admitir que o ideal da sociedade é um padrão altamente específico que praticamente ninguém consegue alcançar.

Ao acompanhar o andamento da controvérsia em torno de “Sexy por acidente”, fui lembrada de um documento do site Vulture que acompanha como as personagens femininas são descritas nos roteiros de filmes famosos. Muitas das mulheres apresentadas como “personagens femininas independentes” precisam ainda assim atender aos mesmos requisitos físicos: bonita, jovem e magra. Por exemplo, a protagonista de “Millenium: os homens que não amavam as mulheres”, Lisbeth Salander, é descrita como “uma jovem pequena, quase anoréxica, com pouco mais de 20 anos”.

Além disso, supõe-se que essas mulheres seriam ignorantes em relação à própria aparência, como a heroína de “Brooklyn”: “abertamente linda sem ter consciência disso”. Essas descrições revelam outra falácia de “Sexy por acidente”: a ideia segundo a qual todas as mulheres comuns só precisam de uma dose saudável de autoconfiança para vencerem na vida.

Esse novo mantra da beleza é um reflexo das mensagens corporativas de termos como “síndrome do impostor” e “fazer acontecer”: a noção de que o sucesso profissional é negado às mulheres não pela discriminação, mas pela falta de confiança em si mesmas. Na verdade, a mulher ideal da nossa cultura é maravilhosa e modesta.

A busca pela beleza é, no limite, uma escolha racional num mundo que a valoriza tanto. A energia cerebral que dedico diariamente pensando na minha aparência é um desperdício monumental. O simples acúmulo de imagens de corpos de celebridades no meu histórico de navegação parece digno de uma psicose.

A única maneira que descobri de expulsar momentaneamente essa sobra do eu idealizado é pagar para que ela me deixe: seja fazendo compras na Sephora ou participando de uma aula de spin.

A beleza é esperada, mas agora a chamamos de bem estar.

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