Tom Wolfe, jornalista literário e autor de ‘A Fogueira das Vaidades’, morre aos 88

Escritor americano escreveu clássicos como ‘A Fogueira das Vaidades’ e ‘Radical Chique’

1_CsjaJZ4Qljbxl6MiPjmsgw
O escritor e jornalista Tom Wolfe vestindo terno branco, sua vestimenta por mais de 30 anos

SÃO PAULO – O escritor e jornalista Tom Wolfe, um dos grandes nomes do jornalismo literário americano, morreu nesta segunda-feira (14) em um hospital de Nova York.

A informação foi confirmada ao jornal britânico The Guardian por sua agente literária, Lynn Nesbit. De acordo com ela, Wolfe fora internado devido a uma infecção.

Nascido em Richmond, no estado de Virginia, em 1930, Wolfe morava em Nova York desde 1962.

Ele se mudou para a cidade, que nunca mais deixou, para ser jornalista do The New York Herald Tribune —recém-saído da faculdade de direito, havia trabalhado no Springfield Union, de Massachusetts, e escreveu para outros veículos, como o Washington Post. Ele vivia com sua mulher, Sheila, com quem teve dois filhos.​

Com outros repórteres do período, Wolfe ajudou a consolidar a reportagem que adotava técnicas literárias em sua concepção.

Wolfe escreveu obras que se tornariam clássicos, como o romance “A Fogueira das Vaidades”, e textos jornalísticos cultuados, como “Radical Chique” —que trata da relação das elites nova-iorquinas com os Panteras Negras e que seria, numa expressão mais contemporânea, um retrato da esquerda festiva nova-iorquina.

Na reportagem em tom satírico, publicada no Brasil dentro do livro “Radical Chique e o Novo Jornalismo” (Companhia das Letras), Wolfe descrevia um jantar organizado na casa do maestro Leonard Bernstein para arrecadar fundos para os ativistas negros —que terminaram acusando o autor de racismo.

Num ensaio incluído nessa mesma edição, Wolfe tentava sistematizar o que a geração de jornalistas literários americanos havia criado —explicando o que, afinal, havia de novo naquele gênero.

A novidade consistia em aplicar, a narrativas de não ficção, técnicas de escrita estabelecidas pelo realismo literário, por nomes como Balzac e Gustave Flaubert. Por isso, o grupo que incluía ainda Truman Capote e Gay Talese adotava ferramentas como a construção de diálogos e a descrição minuciosa de cenas e ambientes.

É curioso o elogio que Wolfe faz do realismo literário —cujo surgimento ele compara à invenção da eletricidade—, porque o novo jornalismo floresce num momento em que, dentro da ficção, o gênero estava em baixa. Entre os anos 1950 e 1960, a França que lhe fornecia as influências já se dedicava a outra vertente de experimentação, o “nouveau roman”.

O jornalista já havia publicado livros de reportagem e ensaio sobre temas tão diversos como o programa espacial americano (“Os Eleitos”, 1979) e a arquitetura moderna (“Da Bauhaus ao Nosso Caos”, 1981) quando entrou na ficção por excelência com “A Fogueira das Vaidades”, um retrato satírico do mundo do dinheiro e do poder.

Ao romance de 1987 seguiram-se por “Um Homem por Inteiro” (1998) e “Eu Sou Charlotte Simmons” (2004).

O último título de Wolfe lançado no Brasil foi “O Reino da Fala”, de 2016 —quase toda sua obra saiu no país pela Rocco.

SILHUETA DE DÂNDI

Não era difícil reconhecer a silhueta de Wolfe. Alto, olhos azuis, rosto de criança —e sempre desfilando seus ternos claros, como um dândi. Em uma dada ocasião, pediram-lhe que descrevesse seu estilo. O escritor disse que era “neopretensioso”.

Sua escrita, afirmou certa vez, era feita contra o tom bege do jornalês que encontrou quando começou a trabalhar.

“Os leitores choravam de tédio sem entender por quê. Quando chegavam àquele tom de bege pálido, isso inconscientemente os alertava de que ali estava de novo aquele chato bem conhecido, ‘o jornalista’, a cabeça prosaica, o espírito fleumático, a personalidade apagada, e não havia como se livrar do pálido anãozinho, senão parando de ler”, escreveu em “O Novo Jornalismo”.

Entre suas outras reportagens clássicas, está “The Electric Kool-Aid Acid Test”, em que viaja com um grupo de intelectuais boêmios que pregavam as maravilhas do ácido lisérgico. Este, que é um dos grandes retratos da contracultura nos EUA, foi um de seus primeiros livros publicados, em 1968.​

Outro trabalho importante foi “The Right Stuff”, sua reportagem sobre os primeiros astronautas americanos. O livro foi publicado no Brasil como “Os Eleitos”, mesmo título de sua adaptação cinematográfica, de 1983, cujo elenco que incluía Sam Shepard, Dennis Quaid e Ed Harris

Antes deste, “A Fogueira das Vaidades” se tornara filme, em 1980, dirigido por Brian de Palma, com Tom Hanks, Melanie Griffith e Bruce Willis no elenco. [Maurício Meireles]

O QUE LER DE TOM WOLFE

“Os Eleitos – Onde o Futuro Começa” (1979) – Rocco

“A Fogueira das Vaidades” (1987) – Rocco

“Um Homem por Inteiro” (1998) – Rocco

“Eu Sou Charlotte Simmons” (2004) – Rocco

“Radical Chique e o Novo Jornalismo” (2005) – Companhia das Letras

“O Reino da Fala” (2016) – Rocco

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s