A hora da imprensa

Saem memes, berros em vídeo e lacradores, entram os dados. A democracia agradece.
Por Pedro Doria – O Estado de S. Paulo

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No exterior, programa ajudou Facebook a reduzir em 80% a disseminação de notícias falsas na rede social

O Facebook iniciou, esta semana, uma parceria com duas agências de checagem de notícias brasileiras: Lupa e Aos Fatos. Aos trancos e barrancos, a rede social está tentando evitar o que já viu ocorrer antes. Que notícias falsas, espalhadas usando seu algoritmo, interfiram nas eleições. Uma turma da direita não gostou. Afirma que é censura. Vai além. Acusa as agências de trazerem um viés à esquerda. E iniciaram uma campanha covarde de ataques pessoais aos jornalistas que trabalham na checagem, envolvendo inclusive seus parentes. E crianças.

Nenhuma novidade no front.

Nos últimos dez anos, um naco da esquerda acusou a imprensa de ser de direita. Situações semelhantes ocorrem em boa parte das democracias ocidentais. O motivo é evidente. Os fatos não interessam. Quanto mais um movimento ou governo é movido a propaganda de enaltecimento próprio, exageros e mitificação, mais a imprensa atrapalha. Imprensa serve, justamente, para atrapalhar essa turma.

O conceito é tão velho quanto a democracia. Thomas Jefferson, um dos homens que imaginou o que seria a primeira república, já falava de saída: é melhor imprensa sem governo do que governo sem imprensa. Disse isso antes de ser o terceiro presidente americano, apanhou feito um condenado da imprensa em seu governo, e continuou um defensor ardoroso desta ideia nas quase três décadas que viveu após deixar a Casa Branca.

O que os intelectuais que imaginaram democracias defendiam, ainda no século dezoito, é que um sistema assim só é possível com o livre fluxo de informação. Entendiam que ideias devem vir a público para que sejam debatidas, questionadas, derrubadas quase sempre, e poucas sobrevivem. Já havia, naquela época, quem não gostasse de ser questionado.

A praça pública evoluiu tecnologicamente desde os anos 1780, assim como o número de democracias. Até que veio esta nossa era do algoritmo.

Há mais de duas bilhões de pessoas no Facebook. O que define aquilo que cada uma delas vê é um programa que leva em conta seus amigos, leituras passadas, seus muitos curtires, até aqueles posts que prendem mais a atenção. O algoritmo não simula o tipo de filtro da praça pública humana — a imprensa, as mesas de bar, as conversas ao cafezinho, o almoço de família. Fora períodos de crises históricas excepcionais, o resultado da conversa na praça pública sempre tendeu à moderação. Não é natural partir para a violência por discordar.

O algoritmo, porém, ao apostar no que prende mais a atenção, atua como aquele tabloide sensacionalista do passado. É o espetacular, o claramente exagerado, o grito de guerra, o toque de recolher-se à sua tribo fitando o resto do mundo como inimigo a ser derrotado. De preferência, humilhado.

O melhor antídoto para a informação falsa é a checagem. E, na internet, quase tudo é fácil de checar. Estes grupos bons de juntar manadas na rede acusam as agências de viés à esquerda. As duas têm toda sua obra, pública, na internet. Basta ir lá e ver. O PT não sai bem. O PSDB não sai bem. O MDB não sai bem. E, muito cá entre nós, nenhum tem motivo para sair bem. Mais: quando afirmam que uma informação é falsa, as agências sempre dizem no que se basearam para dizê-lo e dão a fonte. Qualquer um pode conferir, com o direito de concordar ou não.

Jefferson defendia que imprensa era necessária porque só um povo bem informado vota bem. A mesma informação pode levar, perfeitamente, a soluções distintas. É onde entram ideologias. O Facebook, ao trazer a checagem de fatos para a conta do que será visto ou não, faz um esforço para evitar a manipulação. Saem os memes forçados, os berros em vídeo e os lacradores, entram os dados. A democracia agradece.

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