Zuckerberg foge, na Europa

Não houve uma pergunta leve. Todas foram respondidas genericamente

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O CEO do Facebook Mark Zuckerberg cumprimenta o Presidente do Parlamento Europeu Antonio Tajani para uma audição em Bruxelas, a 22 de maio de 2018. (Yves Herman)

Algo deu muito errado na sabatina de Mark Zuckerberg, terça-feira última, perante o Parlamento Europeu. Durante semanas, o CEO do Facebook fez o possível para evitar a conversa. Recusou o convite inúmeras vezes. Quando finalmente o aceitou, o fez informando que teria uma hora, não mais. A princípio, seria uma reunião fechada. Parlamentares ameaçaram boicote. O presidente da Casa, Antonio Tajani, negociou que pudesse ser aberto, com streaming pela web. Zuck fez o possível para parecer simpático, preocupado, ao mesmo tempo em que driblava as perguntas mais difíceis. Encontrou, porém, um grupo particularmente preparado de políticos.

Não convenceu a esquerda, não convenceu a direita, ambas por motivos distintos. Passou má vontade. No dia seguinte, uma revista francesa circulava com sua foto na capa, vestido de Napoleão, e o subtítulo “uma ameaça à privacidade, ao pensamento e à democracia”.

Zuckerberg, e com ele o Facebook, têm um problema de imagem na Europa. E, lá, as consequências podem ser sérias.

Houve uma diferença notável entre os parlamentares europeus e seus pares americanos. Os do Velho Continente tinham perguntas fortes, consistentes, e não pareciam ter qualquer desconhecimento a respeito dos meandros técnicos. Estavam preparados para a conversa com o CEO

Manfred Weber, que representa a centro-direita alemã e é um defensor convicto da União Europeia, quis conversar sobre monopólio. “É hora de quebrar o Facebook porque acumulou poder demais. Você pode me convencer do contrário?”

Outro conservador pró-Europa, o britânico muçulmano Syed Kamall, foi atrás dos perfis fantasmas. As informações que o Facebook preserva a respeito de quem não está na rede. “Você considera moralmente aceitável coletar dados de usuários sem que eles saibam para que serão usados?”

O parlamentar da direita nacionalista britânica Nigel Farage fez uma ponte com a direita mais dura americana ecoando, até, a brasileira. “A toda hora lhe perguntam se a sua é uma plataforma neutra politicamente”, ele observou, para então afirmar que, pelo contrário, há um viés pró-esquerda que vem tirando audiência do outro lado. (Líder do movimento Brexit, Farage esqueceu-se, ele próprio, de lembrar que o tema em pauta era o vazamento de dados via Cambridge Analytica, a consultoria que o auxiliou em campanha.)

Também britânico, porém trabalhista, Claude Moraes foi igualmente incisivo. “Gostaria de lembra-lo que o senhor não está no Congresso americano e, aqui na Europa, temos expectativas”, afirmou. “Já não há sinais claros de que o Facebook falhou em proteger a privacidade de seus usuários?”

Nenhum deles, porém, foi tão duro quanto o liberal belga Guy Verhofstadt, que vindo do centro costuma se aliar à esquerda em seu país. “Pelos meus cálculos, você já se desculpou 15 ou 16 vezes. Todo ano há um problema com o Facebook, você tem de pedir desculpas e afirma que vai consertar. Agora, você tem capacidade de consertar?” O ex-premiê seguiu em frente. “O único jeito, e veja que sou um liberal, um defensor do livre mercado, mas o único jeito é uma regulação pública.” Não ficou nisto. “Você estaria disposto a cooperar com as autoridades de antitruste europeias para que possamos entender se este é um monopólio? E, aí, qual a solução? Podemos separar Facebook Messenger de WhatsApp? Você pode, talvez, abrir mão do Instagram se alguém oferecer um bom preço?”

Não houve uma pergunta leve. Todas foram respondidas genericamente. E não houve um comentarista que, no dia seguinte, não estivesse repetindo o que todos viram: Zuck fugiu.

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