‘Os Estranhos: Caçada Noturna’: o melhor terror é o que nada explica

Se alguém bater à sua porta perguntando por uma tal de Tamara, fuja o mais rápido que puder. Quem sabe dá tempo
Por Isabela Boscov

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 (Diamond/Divulgação)

Quem viu Os Estranhos, um terror enxuto e malvado de 2008 com Liv Tyler, sabe que pode esperar vários arrepios na nuca e boca seca. Quem não viu está com sorte mesmo assim: Os Estranhos: Caçada Noturna não é propriamente uma continuação, e sim uma espécie de nova aventura, digamos assim, do peculiaríssimo grupo de assassinos do primeiro filme – que nunca dizem uma única palavra, nunca demonstram qualquer emoção, parecem estar em vários lugares ao mesmo tempo e de quem nunca se vê o rosto (as garotas usam máscaras de boneca, o sujeito usa um capuz de estopa). No original, Liv Tyler e Scott Speedman eram namorados passando a noite numa casa afastada, no meio do maior mal-estar – ele havia proposto casamento, ela recusara. Aqui, tem -se uma família passando a noite num trailer park à beira de um lago, no meio do maior clima (a filha adolescente e problemática está tornando o dia insuportável para os pais e o irmão mais velho). Em ambos os casos, a coisa começa de maneira estranha, mas casual: uma garota bate à porta perguntando se Tamara está em casa. Não, aqui não tem nenhuma Tamara. Quando a situação se repete, uns tantos minutos depois, os protagonistas se ligam de que algo não vai bem. E é tarde demais.

O que destaca os dois Os Estranhos é a qualidade do suspense: sem nenhum efeito especial, cria-se muita tensão a partir da luz noturna (ou falta dela), dos silêncios e dos ruídos que repentinamente os quebram, daquilo que o espectador vê mas os personagens ainda não perceberam. No primeiro filme, o diretor estreante Bryan Bertino usava com habilidade notável o interior de uma casa. Aqui, o diretor Johannes Roberts (de Medo Profundo) faz melhor ainda: sai dos interiores para o espaço aberto do trailer park e transforma o que era um jogo de gato e rato numa verdadeira caçada, como diz o título. Garanto que se há um terror recente do qual Johannes Roberts é fã, é Corrente do Mal. A inspiração é evidente nos enquadramentos abertos compostos com muita perícia, nos deslocamentos – os da câmera e os dos personagens – cuidadosamente organizados em eixos perpendiculares, longitudinais e diagonais e na distância ainda mais clínica dos torturadores em relação aos torturados. As explosões de violência, em geral breves mas muito intensas, vêm curiosamente desprovidas de qualquer sinal de raiva ou prazer – e o que pode ser mais assustador do que uma violência na qual não se consegue enxergar nenhum motivo? A trilha sonora vintage também é uma beleza, e há uma cena na área de uma piscina enfeitada com palmeiras de néon piscante, ao som de Total Eclipse of the Heart, de Bonnie Tyler, que para mim já é antológica.

OS ESTRANHOS: CAÇADA NOTURNA
(The Strangers: Prey at Night)
Estados Unidos, 2018
Direção: Johannes Roberts
Com Bailee Madison, Lewis Pullman, Christina Hendricks, Martin Henderson
Distribuição: Diamond

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