Marc Jacobs: a ascensão e a queda do designer número 1 dos EUA

O que, afinal, aconteceu com o estilista e sua marca, cujos desfiles estavam entre os mais aguardados da temporada
Steven Kurutz – The New York Times

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Marc Jacobs, em frente ao hotel Four Seasons em Nova York, em maio de 2015. Sua companhia vem sofrenmdo finaceira e criativamente levando analistas a avaliarem sua situação como bastante delicada Foto: Landon Nordeman/The New York Times

Segunda-feira à noite, quando alguns dos maiores nomes da moda se reuniram no Brooklyn Museum para o prêmio anual do CFDA, o Conselho de Estilistas de Moda – frequentemente chamado de Oscar do mundo da moda – uma figura familiar foi lembrada: Marc Jacobs.

Houve um tempo em que ele identificou e atraiu uma nova mulher urbana, que misturava a atitude do centro e o glamour de Uptown. Sofia Coppola e celebridades como Winona Ryder incorporavam o look e não só usavam as roupas de Jacobs, como também se tornaram suas musas, eram as meninas “cool” do tapete vermelho.

Agora, há a sensação de que o estilista perdeu o rumo. Com um valor elevado e um designer que admite ele mesmo que não entende mais o que as clientes querem, a etiqueta produz hoje roupas e acessórios sem um ponto de vista atraente, deixando de gerar a excitação criada pelos colegas mais jovens, como Alexander Wang e Joseph Altuzarra.

Durante uma reunião com investidores em janeiro de 2017, ao responder perguntas sobre o ambiente de negócios durante a presidência Trump, Bernard Arnault, presidente do grupo LVMH, que detém uma participação na marca Marc Jacobs, disse: “Estou mais preocupado com Marc Jacobs do que com o presidente dos Estados Unidos”. Mais tarde naquele ano, Marc Jacobs apresentou uma das poucas performances negativas do grupo, levando a LVMH a fechar a linha masculina da etiqueta como uma medida de redução de custos.

Em uma entrevista recente, Luca Solca, chefe de pesquisa de produtos de luxo na Exane BNP Paribas, calculou que Marc Jacobs estava perdendo mais de 50 milhões de euros, ou cerca de R$ 225 milhões, nos últimos anos com receitas estáveis durante esse período.

Em 2015, a marca Marc Jacobs encerrou sua linha popular Marc by Marc Jacobs. A empresa fechou outras dezenas de lojas nos últimos anos, tanto na Europa como em Nova York, quase dizimando a extensão de Bleecker Street antes chamada de “Marcland” (terra de Marc) por causa da onipresença do designer em várias lojas. A marca de moda de Nova York por excelência agora não tem um carro-chefe na cidade além de uma butique modesta no SoHo, a Bookmarc, que vende livros e bugigangas de marca.

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Com apresentações impactantes, como essa do inverno 2013-2015, Marc Jacobs já foi o mais importante criador da temporada norte-americama. Hoje, seus desfiles ainda são aguardados, mas ele mesmo assume ter perdido a conexão com o hoje Foto: Josh Haner/The New York Times

No que diz respeito ao fechamento de lojas, a turbulência corporativa na etiqueta talvez seja mais preocupante. Houve a saída de Robert Duffy, amplamente considerado como a “força motriz” por trás da ascensão de Jacobs. Duffy conheceu Jacobs em 1983 no jantar de formatura do designer, na Parsons School of Design, quando Duffy era um jovem executivo da Reuben Thomas em busca de novos talentos. “Liguei para a escola no dia seguinte e pedi que nos colocassem em contato”, disse Duffy à revista Port em 2012. “Marc me ligou de volta e nos encontramos naquele dia, almoçamos e apertamos as mãos. No dia seguinte, começamos a trabalhar juntos”.

Nas três décadas seguintes, Duffy foi tanto parceiro de negócios de Jacobs como seu incansável defensor, e em 1997 orquestrou o investimento da LVMH em Marc Jacobs. Mas abriu mão de seu papel de comando em 2015, abandonando as tarefas do dia-a-dia. Um representante de Duffy, que permanece no conselho da empresa, disse que ele estava fora do país e indisponível para comentar o assunto.

A LVMH se recusou a liberar qualquer um de seus executivos para entrevistas, mas emitiu uma declaração. “A reviravolta está em curso na Marc Jacobs International e estamos vendo sinais muito encorajadores de progresso”, disse a empresa. “Estão sendo realizados alguns dos benefícios das ações mais difíceis de serem tomadas para direcionar corretamente os negócios”.

“No acumulado do ano, estamos vendo alguns sinais positivos de varejistas e clientes e uma melhora substancial nos resultados”, acrescentou. “A empresa precisa manter o foco, mas está indo na direção certa.”

Do grunge a Louis Vuitton
Por mais de duas décadas, desde que ele vestiu modelos em flanela para sua coleção grunge 1992 para Perry Ellis, que dividiu acentuadamente os críticos, Marc Jacobs tem sido considerado de longe como o mais excitante e talentoso designer dos EUA de sua geração, o único verdadeiro sucessor de Calvin, Donna e Ralph.

Em 1997, Jacobs assumiu o papel de diretor de criação da Louis Vuitton. Ele transformou a marca francesa criadora de malas e baús numa casa de moda contemporânea, criando desfiles sensacionais, trazendo colaboradores como o artista Takashi Murakami e quadruplicando os negócios. Simultaneamente, com o poderoso apoio da LVMH, Jacobs e Duffy tornaram a marca Marc Jacobs global, com vendas de cerca de US$ 300 milhões em 2006 e novas lojas em distritos de compras de alto luxo, de Paris a Tóquio.

“Eles criaram a excitação da moda. Não foi uma fórmula. Algo novo ia acontecer a cada temporada. Marc não estava em uma caixa como algumas marcas estão “, comenta Ron Frasch, um ex-executivo da multimarcas de luxo Bergdorf Goodman e ex-presidente da Saks Fifth Avenue, que atualmente trabalha com vestuário de luxo para um fundo de investimento privado.

Durante as Semanas de Moda de Nova York, fashionistas de todo o mundo esperavam ansiosamente pelo desfile de Marc Jacobs, em que seriam surpreendidos e teriam um vislumbre do zeitgeist da moda. Jacobs manteve isso, temporada após temporada. E continua a ter fãs leais e amigos em altos cargos – nas palavras de Anna Wintour, a toda poderosa editora da Vogue norte-americana, ele é “um ótimo, ótimo estilista”. Jacobs ainda agita o tapete vermelho: este ano Janelle Monáe o acompanhou ao Met Gala; em 2015, Cher era a sua parceira, mas ao longo do caminho, algo parece ter dado errado.

A dramática transformação física de Jacobs, descrito em 2008 como um desajustado de óculos escuros e transformado em alguém musculoso e bronzeado, parecia o presságio de uma nova era, uma que nem todos os fãs abraçaram. Em 2011, Jenna Sauers, uma escritora do site Jezebel, declarou ao The New York Times que sentia falta do “antigo” Marc. “Havia algo nele que era tão cativante”, disse Sauers. “Ele era meio que desajeitado e você se sentia amado pelo trabalho dele. Eu tenho muito carinho por esse Marc.”

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Uma das grandiosas apresentações dos áureos tempos de Marc Jacobs na Louis Vuitton, a do outono-inverno 2012-2013 teve até um trem na cenografia Foto: Benoit Tessier/ Reuters

Jacobs se irritou com essas críticas. “Se a minha infelicidade estava criando inseguranças e é disso que as pessoas sentem falta, sinto muito”, respondeu naquele artigo. “Mas sou a mesma pessoa, apenas mais forte e mais positivo agora.”

Enquanto isso, seu histórico de comportamento errático – Incluindo os anúncios de que estava se internando para reabilitação, um relacionamento muito público com um ex-ator pornô e, acidentalmente, postando uma foto de seu traseiro no Instagram – continuaram a levantar preocupações sobre sua capacidade de administrar uma grande empresa, dúvidas que nunca desapareceram. (Embora aos 55 anos, o designer parecia finalmente estar se estabelecendo; ele foi notícia em abril ao pedir em casamento seu noivo, Char Defrancesco, num Chipotle)

Em 2014, Jacobs deixou seu cargo na Louis Vuitton, depois de 16 anos, para se concentrar em sua própria etiqueta antes do anúncio de uma planejada oferta pública na bolsa de valores. Falando ao New York Times na época, Michael Burke, um dos principais executivos da Louis Vuitton, disse que a etiqueta “não era tão organizada quanto deveria ser” sob Jacobs. Ela passou a criticar o tipo de abordagem do estilista, caótica e cara, para apresentar uma coleção. E o IPO? Mal foi mencionado desde então, e os problemas atuais o tornam improvável, pelo menos no futuro próximo.

Perdendo a magia
Os problemas se estenderam do lado criativo também. Durante anos, Jacobs parecia saber exatamente o que as pessoas queriam e, de repente, parecia não saber mais. Talvez o desvio criativo seja atribuível à saída de Duffy, que não só era parceiro de negócios de Jacobs, mas mantinha o designer nos trilhos, sentando ao seu lado nas semanas que antecediam seu desfile. Outros dizem que a empresa há muito tempo não tinha um diretor criativo forte, alguém que pudesse traduzir a visão de Jacobs em expressão real para a equipe de design. Esse papel foi ocupado com sucesso por Venetia Scott, que supervisionou a Marc by Marc em seu auge, mas que deixou a empresa em 2015.

Quanto ao próprio Jacobs, ele parecia desinteressado em canalizar a cultura moderna. No ano passado, fotografado rodeado por lendas do hip-hop dos anos 1980, como Biz Markie e Salt-N-Pepa para revista In Style, Jacobs disse à Vogue que “não se identificava com o que realmente parece ser o hoje” – uma admissão surpreendente para um designer de moda responsável por uma marca global.

Mesmo assim, seus desfiles ainda são muito esperados. Mesmo com ar pungente de irrelevância. Suas roupas parecem desconectadas do mercado e, na verdade, raramente são promovidas no site de comércio eletrônico Marc Jacobs. A apresentação mais recente, em fevereiro, foi realizada no Park Avenue Armory, sem produção e, ao com de uma música barroca sombria. A crítica Cathy Horyn comparou o desfile a um “funeral suntuoso”, e a crítica do The New York Times, Vanessa Friedman, escreveu: “Ele é um dos nossos grandes talentos. Mas isso ainda pode não ser suficiente.”

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Um dos mais recentes desfiles da marca, inspirado na cultura de rua e hip hop dos anos 80 em Nova York Foto: Eduardo Munoz/ Reuters

Uma mudança aconteceu independentemente de tudo isso. Enquanto Jacobs continua a projetar luxo pronto para usar e ser reconhecido pela CFDA, a marca Marc Jacobs não é mais vista como uma marca de luxo pelos consumidores. Está mais de acordo com os etiquetas contemporâneas de “luxo acessível”, como Coach e Kate Spade.

No site de e-commerce do Marc Jacobs, o preço total de novos produtos caiu de quase US$ 700 em média em 2015 para cerca de US$ 350 em 2017, segundo a pesquisa compilada por uma empresa de tecnologia de varejo. A estratégia de preços aumentou as vendas. Há uma sensação de que as finanças da empresa podem estar se estabilizando, se não se virando, disse Solca.

A etiqueta também tem uma nova bolsa de sucesso, a “Snapshot”, de 295 dólares, com sua alça de câmera colorida. A Marc Jacobs Beauty, uma linha de maquiagem que é comercializada com destaque na Sephora, vem crescendo de forma constante, especialmente entre as mulheres jovens. Mas a mudança do mercado de luxo para um mais popular também levou confusão ao consumidor e os produtos que levam seu nome foram desvalorizados.

Perguntado se Jacobs pode recuperar seu sucesso anterior, Frasch foi cauteloso. “É mais difícil. Certamente muito mais difícil do que era”, afirma ele. “E isso depende de Marc, do grupo LVMH e de quais suas projeções para a marca.” Fern Mallis, ex-diretora executiva do CFDA, e agora uma consultora do setor, afirmou que muitas pessoas ainda parecem acreditar em Jacobs, apesar de suas recentes lutas. “Marc é alguém que você nunca pode descartar. Seu talento é muito grande. Ele assume riscos. Ele não se importa. E isso é fabuloso”.

Tradução de Claudia Bozzo

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