‘Hereditário’: Uma hora e meia de puro pavor…

…e, então, uma meia hora final que quase põe a perder o trabalho fabuloso do diretor estreante Ari Aster até ali
Por Isabela Boscov

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Cena de Hereditário

Medo é muito pessoal, e cada um sabe onde exatamente o sapato lhe aperta. Pois Hereditário pisou no meu calo: durante toda a primeira hora e meia de filme, passei aquele tipo de pavor que faz o couro cabeludo pinicar, o sangue fugir do rosto e a boca ficar seca – resultado do trabalho extraordinário do diretor estreante e também roteirista Ari Aster, que trata aqui o terror como uma infecção que se espalha. No caso, essa infecção toma conta da família de Annie (Toni Collette), que acabou de perder a mãe depois de uma longa doença acompanhada de demência. O relacionamento entre as duas foi sempre terrível, e a morte traz consigo uma sensação de alívio. Ela dura pouco, porém. Annie sente que há algo de anormal na sua casa; o marido (Gabriel Byrne), cético, e o filho adolescente (Alex  Wolff), desligadão, acham que é o problema está na verdade em Annie – e, talvez, também em Charlie (Milly Shapiro), a peculiar menina de 13 anos que era unha e carne com a avó. Charlie vê a avó, cercada de fogo, na mata que circunda a casa – e, em vez de se assustar, quer se juntar a ela. Annie acha que viu o espectro da falecida no seu quarto de trabalho – e julga estar alucinando. É sobrenatural, ou é loucura? Caminhando na fronteira entre as duas possibilidades, Ari Aster estica os nervos do espectador até o limite: tudo, aqui, está nos enquadramentos, na luz clara mas leitosa, no ritmo deliberado que nunca permite susto ou resolução, nas atuações magnificamente moduladas de todo o elenco e em especial de Toni Collette, que ora se desintegra, ora reúne todas as forças em explosões operísticas de ressentimento.

Um acidente tenebroso faz o que ia mal piorar drasticamente: a família toda cai sob uma nuvem de chumbo, e a intromissão de uma estranha (a sempre sensacional Ann Dowd) – nos dois sentidos da palavra – faz o mal irromper entre eles. Aí o espetáculo passa a ser de Alex Wolff, cujo personagem vai desmoronando em um estado de fragilidade comovente. E, então, vem a meia hora final, em que Ari Aster quase que desfaz por inteiro a costura meticulosa que ele vinha desenvolvendo até ali em conjunto com o diretor de fotografia Pawel Pogorzelski, a desenhista de produção Grace Yun e o compositor Colin Stetson (a trilha é um primor do mal-estar). Não é que eu tenha parado de sentir medo – não parei. Mas ele começou a se misturar à incredulidade e até a um certo sentimento de ridículo. A pior coisa que um filme de terror pode fazer é se explicar: não só o medo do sobrenatural está justamente no fato de que não há o que o explique, como as explicações de Aster são elaboradas demais e muito inconvincentes. Mas não tenho dúvida de que, no futuro, ele ainda vai me fazer passar muito mal no cinema de novo. Ari Aster nasceu para isso.

HEREDITÁRIO
(Hereditary)
Estados Unidos, 2018
Direção: Ari Aster
Com Toni Collette, Alex Wolff, Milly Shapiro, Gabriel Byrne, Ann Dowd
Distribuição: Diamond

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