O que muda na moda quando pessoas negras conseguem chegar ao poder?

O número de profissionais negros em cargos executivos na moda ainda é baixo. E isso precisa mudar.
Por Gabriel Monteiro

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 Virgil Abloh com sua coleção para a NikeLab
Virgil Abloh com sua coleção para a NikeLab (NIKELAB/Reprodução)

O estilista norte-americano Virgil Abloh, 38 anos, fundador da marca Off-White, foi anunciado como novo diretor artístico da linha masculina da Louis Vuitton e acaba de desfilar sua primeira coleção para a label. Abloh é o primeiro profissional negro a ocupar esse cargo na marca e um dos dois únicos designers negros numa posição de chefia em uma maison de luxo.

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Olivier Rousteing

O outro nome é do francês Olivier Rousteing, 32, há nove anos na Balmain. Antes deles, na história, apenas o britânico Ozwald Boateng foi um designer negro num cargo executivo de uma marca de luxo tradicional, enquanto trabalhava para o masculino da Givenchy, entre 2003 e 2007.

“Virgil e Olivier passam a representar não apenas, mas também uma parcela de pessoas negras que consome marcas como essas”, comenta o estilista Isaac Silva. “Isso pode se refletir em outras casas, mas nós precisamos entender que existe um longo caminho. Trata-se de um racismo estrutural. A moda, apesar de um mercado de muitos setores, ainda é em sua maioria branca”, continua.

De Chicago e formado em engenharia e arquitetura, Virgil Abloh virou DJ e stylist e se destacou no circuito fashion depois de trabalhar por 14 anos como diretor artístico do rapper Kanye West. Ambos, inclusive, fizeram estágios juntos na Fendi no ano de 2009. E sem receber nada.

Abloh ainda foi recentemente ranqueado pela revista Time como um dos 100 nomes mais influentes do mundo. Não há dúvida de que a sua contratação na Louis Vuitton está diretamente associada à sua expertise como designer e o impacto que ele tem no mundo da moda atualmente, mas a sua presença nesse lugar ganha também outros sentidos.

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Kanye West e suas criações (Retrato: Getty Images / Yeezy/Divulgação)

“Uma das maiores formas de militância é mostrar que você está num cargo como esse por seu conhecimento”, avalia a stylist Suyane Ynaya, que também faz parte do coletivo criativo MOOC. “Existem muitos talentos como Virgil , mas eles, se forem negros, demoram metade de sua vida para serem descobertos. Quando um de nós ocupa um espaço como esse, existe um sentimento de que as coisas podem mudar”, ela analisa.

Rachel Maia, executiva que ao longo de 16 anos trabalhou no mercado de luxo, como CFO da joalheria Tiffany e CEO da joalheria Pandora, enxerga a entrada de profissionais negros no setor mais alto da indústria de forma parecida. “Dentro do mundo corporativo, consigo gerar um engajamento, do tipo ‘se ela chegou lá, eu também posso’. Gosto de estar onde estou e sei que incentivo outros a almejar esse lugar”, comenta a executiva.

“Os números de diversidade que temos hoje são lastimáveis”, salienta Shelby Ivey Christie, mulher negra gerente omnimedia da Lancôme, marca de luxo do grupo L’Oréal. “A contratação no mercado de moda acontece principalmente por indicações. E isso, em geral, implica em indicações de gente que parece com você.”

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O designer e estilista brasileiro Isaac Silva (Thomas Rera/ELLE)

Shelby é formada em jornalismo de moda com especialização em estudos de raça, classe e cultura e já trabalhou para publicações como a InStyle e a W Magazine. Hoje, ela cuida de todos os núcleos midiáticos da empresa, procurando ressaltar a cultura negra. “É necessário interromper esse ciclo de amigos que indicam amigos para colocar no lugar candidatos qualificados e diversos. Algo como um terceiro setor que contrate bons candidatos diferentes entre si. Essa é uma maneira de impulsionar talentos negros.”

E existe outra questão importante, ressalta Shelby, que é a existência de um ambiente confortável de trabalho para esse indivíduo. “Trabalho desde os meus 19 anos na indústria da moda e preciso dizer que esses lugares podem ser traiçoeiros e hostis. A inclusão demanda que a gente faça perguntas complicadas e que entremos em conversas mais desconfortáveis, especialmente quando falamos do mercado de luxo, mercado que foi fundado na exclusividade e na exclusão”, continua.

Para Rachel Maia, também existe outro fator. A mudança não pode ser feita de imediato. “Fazemos parte de uma estrutura falha, medíocre e as coisas podem facilmente se quebrar. Em médio e longo prazo, conseguimos.” De acordo com a executiva, que também é dona do projeto Capacita-me, que procura capacitar mulheres da periferia no mercado varejista, é necessário colocar tudo num contexto maior de mudança.

“Indo para além da questão de raça, existe também a questão de gênero. Somos 16% de mulheres em posições de liderança, mas esses 16% ainda são hegemonicamente brancos.”

Rachel continua: “Diversidade traz para a luz aquilo que incomoda, mas depois vem outra pergunta: se você quiser mais, a empresa vai te dar mais? Não sei. O que ainda precisa ser trabalhado é o quão de fato a sociedade, e falo sobre Estado, privado e o próprio cidadão, estão realmente dispostos a dar mais a esse pedaço do coletivo deixado de lado”.

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 Rihanna em campanha da Fenty Beauty
Rihanna em campanha da Fenty Beauty (Fenty Beauty/Reprodução)

“A entrada de uma pessoa negra em um cargo como esse é mais um passo que a gente dá, mas só ocupar não é uma militância”, completa Fióti, cantor e sócio da marca Lab, ao lado do irmão Emicida. “Além de ocupar, é necessário propor mudanças porque temos muito para resolver. A Louis Vuitton é uma das maiores marcas do mundo e isso se reflete em outras grifes. É um espaço importante para impactarmos a indústria da moda e a sua estrutura”, continua.

“Espero vê-lo se apropriando do peso político que a sua presença causa na indústria e, além disso, envolvendo ainda mais a negritude dentro do seu trabalho”, comentou em seu instagram o designer Kibwe Chase-Marshall, que já trabalhou para marcas como Michael Kors, Oscar de la Renta e Ralph Lauren.

Não necessariamente dentro do mercado de luxo, mas também em grandes marcas, outros profissionais negros estão na linha de frente e ditam o que acontece na indústria hoje. Pense, por exemplo, em Rihanna, cantora que virou diretora criativa da Fenty Puma, comanda a marca de beleza Fenty Beauty e está pronta para lançar uma linha de lingerie. Tracy Reese é um dos nomes mais respeitados da semana de moda nova-iorquina, enquanto Shayne Oliver se transformou em um dos nomes mais badalados do mesmo circuito – assinou, inclusive, uma coleção recente para a histórica Helmut Lang.

“E tem também Kanye West”, ressalta Shelby. “Não concordo com ele em muitos aspectos, mas ele é um ótimo exemplo de quem sempre foi sincero sobre os mecanismos internos da indústria de luxo e foi banido e segregado por ela. Eu penso que portas se fecham quando você não joga o jogo que esperam que você jogue”, ela comenta sobre o dono da marca Yeezy.

Em uma de suas primeiras intervenções já dentro da maison, o estilista decidiu escrever “strap” em cima de uma alça da bolsa Jeff Koons.

Não se trata de um grande statement do designer, mas um gesto que não deixa de ter um significado potente. Em cima dos logos da Vuitton está a assinatura de Abloh. Os mesmos logos que um dia Dapper Dan reproduziu clandestinamente numa jaqueta bufante. No final das contas, Virgil Abloh mostra que está ali.

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