“Os Incríveis 2”: O que era originalidade virou fórmula

Muita ação, correria e lances previsíveis: o próprio ambiente da animação mudou muito nos catorze anos desde o primeiro filme
Por Isabela Boscov

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 (Pixar/Disney/Divulgação)

Com aluguel para vencer e sem emprego, a família Incrível ganha uma tremenda oportunidade: os milionários irmãos Winston e Evelyn – ele, bom de marketing, ela, um gênio tecnológico – querem patrocinar feitos super-heróicos e filmá-los, para que viralizem e convençam a população de que o veto aos super-heróis deve cair. Beto Pêra, o Sr. Incrível, se anima todo, mas aí vem o balde de água fria na cabeça dele: a proposta é específica para Helena, a Mulher-Elástica, que tem melhores índices de aprovação. Beto fica indignado, mas como recusar a baita casa, o baita salário e a baita chance? Lá vai ela, então, com seu novo uniforme (sem a assinatura de uma inconformada Edna Moda) protagonizar façanhas, enquanto Beto fica em casa cuidando de Violeta, que a adolescência transformou numa fera, de Flecha, que a puberdade transformou num dínamo, e do bebê Zezé, que quando está tranquilo (dois ou três segundos de cada vez) é a coisa mais fofa do mundo, mas que, com a falta da mãe, começa a revelar poderes extraordinários, variadíssimos e incontroláveis. A animação em si é impecável, com destaque para a equipe encarregada do adorável Zezé. O ritmo é puxado, com uma cena de ação atrás da outra – mas, apesar disso, há uma barriga considerável lá pelo meio de Os Incríveis 2. Acima de tudo, esta continuação deixa a sensação de que tudo que era novo e surpreendente no primeiro filme – tão bom e tão instigante que chegava a ser revolucionário – é aqui repisado, reformatado, reembalado e devolvido como fórmula.

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 (Pixar/Disney/Divulgação)

Três anos atrás, com Divertida Mente, a Pixar mostrou a matéria verdadeira de que são feitos seu sucesso colossal e sua imensa influência: para falar das loucas transformações de temperamento do início da adolescência, mostrou muito brevemente a menina Riley e seus atônitos pais, e então cedeu toda a cena à mesa de controle das emoções da garota, onde Alegria, Tristeza, Medo, Raiva e Nojinho batalhavam para entender que raios estaria acontecendo com a antes doce Riley, e tentavam a duras penas restabelecer algum equilíbrio. Isso é ser original – não é pensar em algo que ninguém pensou antes, mas sim tratar do banal ou conhecido por um ângulo tão novo (e tão sólido) que a plateia se vê redescobrindo do zero aquilo que já julgava conhecer. Não é, também, que a Pixar não saiba manter esse nível quando faz continuações: a série Carros hoje gira no vazio, mas em Toy Story, partindo dessa mesma originalidade – falar do fim da infância pelo ponto de vista dos brinquedos que se veem postos de lado –, John Lasseter e sua equipe fizeram uma tocante, e muito profunda, antologia do abandono em três capítulos. Já em Os Incríveis 2

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 (Pixar/Disney/Divulgação)

Dirigido pelo mesmo Brad Bird que comandou o filme original catorze anos atrás, Os Incríveis 2 troca o conteúdo pela forma, torce para a plateia não se dar conta da manobra e indica como o ambiente da animação mudou nesse espaço de tempo: antes a Pixar fazia as regras e dava as cartas sozinha; hoje, em um segmento tão competitivo, também ela arrisca menos. Bem menos. Algum tempo atrás, a produtora que colocou um rato no comando de um restaurante e fez um filme quase mudo com um robô romântico iria quebrar muito a cabeça antes de se contentar com um mote tão batido (desde os anos 50 fazem-se comédias com ele) quanto o homem que fica em casa cuidando dos filhos enquanto a mulher sai para trabalhar. Nem na vida real há nisso qualquer novidade – quanto mais no universo da animação.


OS INCRÍVEIS 2
(Incredibles 2)
Estados Unidos, 2018
Direção: Brad Bird
Com as vozes de Holly Hunter, Craig T. Nelson, Samuel L. Jackson, Catherine Keener, Bob Odenkirk, Sarah Vowell, Huck Milner
Distribuição: Disney

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