Como eu parei de reclamar e passei a amar os desfile de coleções cruise

Como você queira chamá-los. Resort? Pré-primavera? Que tal só ‘roupas boas’? As confissões de uma crítica de moda
Vanessa Friedman – The New York Times

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Modelo apresenta look da coleção de cruise 2019 da Christelle Kocher Foto: REUTERS/Jean-Paul Pelissier

Por anos, eu fui uma reclamona. Em maio (ou precocemente em abril), quando os e-mails sobre cruise – ou resort, ou holiday, ou primavera, ou pré-primavera, ou como você queira chamar as coleções que chegam às loja em novembro e ficam até março – começam a lotar minha caixa de entrada, eu tenho um reação quase que Pavloviana: vejo o texto, começou a choramingar. Esta temporada me deixa maluca.

Não me leve a mal, ela é muito importante. Estas roupas ficam nas prateleiras com o preço original mais do que qualquer outra coleção e, para muitas pessoas, fazem mais parte do seu guarda-roupas do que as peças das semanas de moda. As coleções resort são gigantes (na Carolina Herrera, Wes Gordon fez 14 camisetas brancas de algodão diferentes) e são responsáveis pelo lucro anual da marca mais do que qualquer outra estação.

Mas esta temporada também é totalmente desorganizada, dura pelo menos dois meses, se encavala com os desfiles de moda masculina e couture e nem no nome as grifes conseguem manter uma unidade, pelo amor de Deus!

Quer dizer: de um lado temos a Gucci, Chanel, Dior e Louis Vuitton, fazendo quase que um destination wedding em localizações distantes e remotas com um certo tom de misticidade. Clientes e empresas são levados até as localizações para o evento, com direito a uma experiência de passarela megalomaníaca e jantares glamurosos.

E também tem a Michael Kors.

Quando eu cheguei ao armazém cavernoso em downtown Manhattan onde ele iria apresentar sua coleção no começo do mês, encontrei um lugar vazio, com cadeiras enfileiradas e o estilista lá, parado. “Estou muito adiantada?” perguntei, confusa. “Não, é só você e o Matthew!”, respondeu ele, rindo feliz.

Então, eu e meu colega Matthew Schneier e sentamos lá, no espaço ecoante, enquanto Kors se jogou no banco ao lado ao nosso e 39 modelos desfilaram a coleção, incluindo uma camiseta com uma pintura muito cool e conjuntos de calças e camisas listradas, e alguns bordados estilo “Casino Royale” com pele de python e Birkenstocks com apliques de cristal. Kors arrasou. Foi um desfile em pequenas doses.

“Não são gêmeas – são trigêmeas!”, explicou ele sobre um conjunto de vestido, jaqueta e botas com estampa floral. Sobre um vestido de lamê dourado em camadas, ele disse “é o Jitney que virou glamuroso.”

Eu sempre sofri para estabelecer um padrão lógico, porque sinto que é meu trabalho, como uma fashionista adulta responsável, (1) servir de filtro entre as marcas e meus leitores e (2), contar as verdades sobre a indústria, deixando vocês saberem quando e o que eles estão fazendo não tem o mínimo senso para seus consumidores. E, seu eu não conseguia colocar os desfiles cruise dentro de uma estrutura, o que isso significa para todo o resto das pessoas?

Para mim, a resposta sempre foi caos. Mas eu também percebi que tem uma quantidade surpreendente de boas roupas. E essas coisas podem não ser relacionadas.

Justamente porque não existe aquela estrutura formal e o imperativismo corporativo que transformou as semanas de moda em uma fábrica de dinheiro e uma máquina de alimentar o Instagram, os estilistas estão mais relaxados. Eles brincam mais. Eles tentam coisas novas e dão de ombros para as polêmicas. E, às vezes, isso funciona muito bem. Mas às vezes… ops! Tá tudo bem. Pisque e isso já já desaparece.

“Têm menos ansiedade”, me disse Gordon, enquanto ele me contava sobre sua primeira coleção como designer solo da Carolina Herrera. Enquanto eu estava lá, também a Bergdorf Goodman fazia os seus pedidos, e eu dei uma espiada. Caso você esteja se perguntando: vestido de baile tequila sunrise e vestidos de verão, alguns com pequenos animais de madeira no lugar de miçangas.

“Eu posso arriscar ter um gosto duvidoso de vez em quando”, disse Gordon, mostrando uma capa de mink nas cores do arco-íris combinando com um manto com a mesma estampa, resquício do look que Lena Waithe usou no baile de gala do MET. “Chique não significa tenso. Essas são roupas felizes.”

Narciso Rodriguez disse basicamente o mesmo depois de seu mini-show (duas filas de araras em ambos os lados de uma sala estreita de seu escritório) de tops elegantes, calças e saias com alfaiataria assimétrica bem construída. “Eu estou tranquilo fazendo coisas que já fiz no passado, mas as tornando melhores e mais relevantes”, ele explicou enquanto as modelos aguardavam como se fossem filhotes de galgo sem nenhum lugar para ir.

Existe um tipo de imprudência na tempora que é viciante. É difícil ficar presa a racionalidade quando todo mundo parece estar se divertindo. Especialmente porque, apesar de toda esta aleatoriedade das coleções que vi até agora, tem muitas roupas boas.

A Valentino, por exemplo, marca na qual Pierpaolo Piccioli parece estar melhorando a cada temporada, desta vez apontou para duas direções opostas, mergulhando nos anos 1970 para vestidos leves e trocando para alta boemia, com peças primaveris altamente elaboradas.

Ou então na Coach, na qual Stuart Vevers trocou um iate por uma viagem ao Viper Room, repleta de patchwork de veludo, jaquetas de tecido estofado e um decadente moletom com capuz rosa pálido que faria distinção entre o traje de escritório e um look athleisure irrelevante.

Teve um rumor, há alguns meses, sobre Alexander Wang estar tentando convencer o Conselho dos Designers da América (CFDA) a organizar uma “semana de moda pré-coleções” (então ele decidiu que sua pré-coleção seria o seu desfile principal), mas não ocorreu, por sei lá que razão. E espero que não ocorra.

Porque, o que eu aprendi depois de reclamar das coleções cruise é: não precisamos de outra semana de moda normal que exige que os membros da indústria viagem pelo mundo, vejam cada desfile através da tela de um iPhone e façam uma pausa na realidade até que a semana de moda tenha acabado (as ex-hypadas e agora decadentes semanas de moda masculina de Londres e Nova York são prova disso). O que temos já é demais.

Precisamos de mais oportunidades para conhecer os designers e entender o que passa na cabeça deles. Precisamos de estilistas com bagagens que, confiantes, fazem diferentes tipos de mulheres se sentirem seguras e acolhidas em quaisquer que sejam seus lugares no mundo. E se estas bagagens estão espalhadas pelo mundo, então nós também estaremos. E, no final das contas, não é nada estranho.

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