O atual momento da moda masculina

Se antes as semanas de moda dedicadas aos meninos eram sinônimo de uma parada infinita de ternos, hoje elas são um resumo do que há de mais cool no momento.
Por Pedro Camargo

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 (Pascal Le Segretain/Getty Images)

Quem é completamente viciada em moda não deve ser estranha aos painéis de discussão do SHOWstudio.com. A plataforma criada pelo icônico fotógrafo de moda Nick Knight — responsável entre outros feitos pela capa do disco Homogenic (1997), um dos mais importantes da carreira da islandesa Björk — reúne vários fashionistas nerds para discutir os desfiles mais badalados da temporada. São vídeos de mais de 40 minutos com debates instigantes que, para quem curte esse tipo de “blá blá blá”, vale muito a pena.

Eu, obviamente, faço parte desse time meio maluco e, em uma dessas aventuras, aprendi muita coisa a respeito do que está acontecendo agora com a moda masculina no mundo. “Acho que os meninos estão cansados de usar uma roupa que eles já conhecem só por causa da marca. Está chegando o momento em que o design inteligente também importa“, disse um dos convidados sem imaginar as mil perguntas que surgiriam na minha cabeça depois desse comentário disparado quase displicentemente.

O tema do bate-papo em questão era o desfile masculino da Maison Margiela. Na verdade, a estreia da linha Artisanal (como a marca chama sua alta-costura) para garotos. Uma coleção que entrega ao mercado de moda masculina exatamente o que dizia aquele convidado: a possibilidade de transcender as fórmulas sobre as quais o sistema opera. “As coisas funcionam de uma maneira muito simples em geral. Existe uma série de roupas que todo mundo faz [cada um à sua maneira, mas sempre as mesmas peças]. O que muda é um logo, ou uma referência à cultura pop que aparece em uma estampa ou em um símbolo de maneira direta”, continuou explicando no intuito provar que John Galliano — diretor criativo da MM — estava indo muito além disso.

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 (Maison Margiela/Divulgação)

De fato, essa fórmula é repetitiva e talvez o mundo esteja pedindo por alternativas. No entanto, precisamos dar o braço a torcer: ela funciona. Veja bem, enquanto a moda feminina passou anos explorando tudo e mais um pouco em termos de conceito, técnica, execução, proposta, tema e referências, a masculina gastou seu tempo dando ao seu cliente roupas que ele de fato deseja, que não parecem estranhas à primeira vista. Possivelmente, essa é a razão pela qual os desfiles da última temporada tiveram tanta repercussão de maneira geral. Claro, coisas extraordinárias aconteceram, mas, às vezes, o extraordinário acontece e ninguém nota. Desta vez, o extraordinário tinha público ávido, interessado e (com sorte) consumidor.

Basta olhar para a estreia de Virgil Abloh na Louis Vuitton para entender o hype. Palavra que, por sinal, nunca esteve tão embebida em seu próprio significado. Para começo de conversa, o estilista — amigo íntimo de Kanye West, um dos rappers mais influentes do mundo — fez valer o seu spot na Semana de Moda de Paris. Se é para fazer uma apresentação, então que ela seja realmente pensada como um espetáculo. Vale passarela de arco-íris, uma infinidade de looks, casting majoritariamente negro, trilha sonora ao vivo com a banda BadBadNotGood e roupas que, sim, seguem essa receita de bolo, mas com uma legitimidade muito diferente de quem está forçando uma entrada no streetwear sem ter o background do designer.

Aliás, o grande mérito de Virgil é o de realmente ter consagrado a estética street — que passou por uma longa trajetória de guerra e paz, orgulho e preconceito, crime e castigo no mundo da moda — com o aval da marca de luxo mais desejada do mundo. E, com essa chancela aberta, muita coisa pode acontecer. Até porque, muita gente está interessada. Galliano, por exemplo, aproveitou essa movimentação para quebrar barreiras e explodir em criatividade. O francês Jacquemus, outro estreante da temporada, chegou no masculino para delinear uma versão superlativa do mundo que o rodeia. São os homens da praia, com os corpos das praias, com o mar ao fundo e com uma releitura delicada das roupas que eles já vestem no dia a dia que desfilam neste debut poético.

Dentro desse novo contexto de moda, ganha quem consegue reinventar o guarda-roupa masculino fazendo viagens com ele — para lugares somente conhecidos pela história de cada estilista. Elas podem ser para um ponto geográfico no mundo, para um bairro distante do centro ou para dentro da própria roupa. De qualquer forma, para se encontrar no meio do cabo de guerra, a moda feminina está suavizando suas propostas — basta assistir aos desfiles de alta-costura que acabaram de acontecer — enquanto a masculina está correndo atrás do prejuízo. Vamos ver se dá match.

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