Google de hoje, a Microsoft de ontem

Se o Chrome ou a busca já está na tela, quem é que vai atrás de um concorrente?
Por Pedro Doria – O Estado de S. Paulo

Google paris -031É impossível receber a notícia da multa que a União Europeia impôs ao Google por práticas anticompetitivas sem lembrar da Microsoft nos anos 1990. No caso atual, foram quase R$ 20 bilhões, além da ordem de mudar sua atuação em até 90 dias. Os comissários antitruste consideram, em essência, que a empresa californiana usa seu sistema Android para forçar que os fabricantes de smartphones ponham os aparelhos, nas lojas, já com o Chrome e a busca do Google pré-instalados. Um monopólio alimenta o outro.

A história da Microsoft impressiona. Ao fim de um processo movido pelo governo americano contra a empresa de Bill Gates, que teve início em 1998 e se encerrou em 2001, não houve condenação. Ou houve. Na primeira instância, a Justiça decidiu dividir a companhia em duas, ao que a Microsoft recorreu. E, perante o recurso e já tendo ganho a primeira rodada, o governo simplesmente desistiu da acusação. Largou o processo porque não fazia mais sentido. A realidade havia mudado por completo naqueles quatro anos.

Esta é a história de como a mais poderosa empresa de tecnologia daquele tempo perdeu a corrida da internet. E este é, também, o risco ao qual Google — e também Facebook — estão expostos. Mas mostra, igualmente, os riscos de injustiça que governos podem impor ao lidar com o monopólio digital.

Em 1995, quando teve início a internet comercial, quase todo computador rodava Windows. Neste tempo dos primórdios, o navegador que quase todo mundo usava era o Netscape. E, dominar aquela internet nascente era, em essência, dominar o software usado para navegar. A Microsoft fez algo parecido com o que hoje faz o Google. Obrigou os fabricantes de computador a pré-instalarem seu Internet Explorer em cada máquina nova. Os usuários ainda verdes, que ganhavam acesso à rede pela primeira vez, sequer sabiam que havia alternativa. E não procuravam. No digital, a inércia assume o controle. Se aquele navegador já estava lá, aquele seria usado.

Este foi o foco do governo americano. Utilizando-se do quase monopólio que tinha no sistema de praticamente todos os computadores, a Microsoft conseguiu tornar seu navegador padrão e, assim, quebrou a startup original da internet. A Netscape não aguentou a concorrência e terminou vendida.

Tecnologia muda muito rápido. Enquanto lutavam para evitar a cisão da companhia, os executivos da Microsoft não foram capazes de manter o olhar estratégico sobre a rede. Neste período surgiu o Google e, nos anos seguintes, o controle sobre a busca tornou-se o centro do negócio internet. Bill Gates e os seus não tiveram fôlego para jogar duas partidas de xadrez ao mesmo tempo — a do negócio e a da Justiça. E, tendo ganho em 2001, quando o governo se debruçou sobre a realidade, viu que inadvertidamente já havia abatido o monopólio da empresa. Tinha, na verdade, arrancado da Microsoft sua capacidade de competir durante aqueles quatro anos. Quem mandava no sistema do computador, ou mesmo no navegador, já não era mais relevante. Só recentemente, sob o comando de Satya Nadella, a empresa foi capaz de se reinventar.

O Google distribui o Android de graça. E segue o mesmo princípio: inércia. Se a caixa de busca já está lá na tela, se o Chrome já está lá, quem é que vai atrás dum concorrente? Mas este é seu modelo de negócios. É o que justifica ao Android ser de graça. E, sim, a prática reforça dois monopólios — no sistema que está em três quartos dos smartphones e na busca utilizada em 90% das vezes.

O desafio é o seguinte: como impedir monopólios sem afetar a capacidade de as empresas se moverem rápido num mercado como este? Não tem nada de trivial. E a briga só está começando.

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