Herchcovitch não pode ser bode expiatório do sistema doente da moda nacional

É mais importante analisar o papel das agências brasileiras na gestão amadora do sistema

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Desfile da grife À La Garçonne, estilista Alexandre Herchcovitch, no Masp (Danilo Verpa/ Folhapress)

O assunto da semana na moda brasileira foi a diligência do Sated (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversão) no desfile da grife À La Garçonne, na segunda-feira (13), na qual foi constatado que parte considerável dos modelos da apresentação noMasp, em São Paulo, não receberia dinheiro pelo trabalho.

A discussão não deveria, porém, resumir-se à estratégia duvidosa dos representantes da marca, os estilistas Alexandre Herchcovitch e Fábio Souza, mas também se estender à gestão amadora de todo o sistema da moda nacional.

Se é passível de questionamento a escalação de não modelos com o objetivo de “diversificar” os biotipos na passarela –algo que a moda internacional faz há tempos, mas pagando seus contratados e os restringindo a ações pontuais em benefício da indústria profissional–, é ainda mais importante analisar o papel das agências brasileiras na confusão.

Desde os 1990, quando se desenvolveu o mercado de desfiles no país, modelos são submetidos a negociações amadoras que permitem, por exemplo, pagamentos irrisórios —assim as agências burlam tabelas mínimas e ganham mais clientes— e atrasos constantes de até seis meses.

Falta de diálogo e brigas de ego entre os representantes dessas agências também explicam os motivos da crise. É mais fácil fazer uma marca pagar em dia do que juntar os diretores das cinco maiores agências de São Paulo para uma conversa sobre seu próprio mercado.

Com a condescendência de seus representantes e a promessa de que suas imagens ganharão a ribalta, meninas continuam perseguindo em apartamentos minúsculos o “sonho de ser Gisele”.

Não sabem, porém, que isso nunca acontecerá só com desfiles, campanhas e fotos no Instagram. Tino para negócios e saber a hora de romper com a própria agência para sua imagem ser maior do que o nome da empresa estampado no contrato, estratégia usada por Gisele, é a maior lição que nunca irão lhes ensinar.

Nem Herchcovitch, nem À La Garçonne, nem os não modelos que sonham com os flashes devem ser bodes expiatórios da gestão ineficiente encrustada na moda brasileira.

O silêncio dos agenciadores, o acuamento das tops profissionais e a falta de autoanálise dos empresários de moda que só pagam dívidas se tiverem seu desfile atual ameaçado por um boicote não são sintomas, mas, sim, as causas desse sistema doente fadado ao escrutínio público. [Pedro Diniz]

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