Na política americana, mulheres são alvo de ataques

Candidatas a diversos cargos chegam a desistir de concorrer por casos de vandalismo e ameaças de estupro e de morte
Maggie Astor, The New York Times

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Erin Schrode, 27, foi assediada durante a sua campanha ao Congresso em 2016. As ameaças continuam até hoje, acrescentou Foto: Erika P. Rodriguez para The New York Times

Quatro dias antes das primárias do Congresso em 2016, em seu distrito no Norte da Califórnia, Erin Schrode acordou com dezenas de milhares de mensagens. Estavam em toda parte, no seu e-mail, no celular, no Facebook, no Twitter e no Instagram.

“Todos riam da ideia de estuprá-la em grupo e depois esmagar sua cabeça”, uma delas dizia.

“É engraçado ficar imaginando se ela aguentaria uns vinte mais ou menos por 8 ou 10 horas”, afirmava outra, sugerindo novamente um estupro em grupo.

Isto aconteceu há dois anos, desde que Erin, hoje com 27, foi derrotada nas primárias democratas e foi em frente. Mas as ofensas – a lama venenosa das provocações online, repletas de misoginia e antissemitismo, que incluía imagens retocadas do seu rosto no formato de um abajur nazista, e referências a “pré aquecer os fornos” – nunca pararam.

“Ela precisa parar de mexer as mãos como uma drogada”, disse um tuíte este ano. “Mais um plano feminazi fracassado!” proclamou outro.

O ciclo eleitoral americano de 2018 trouxe uma verdadeira onda de mulheres que decidiram candidatar-se. Um número recorde aspirara, no passado ou agora, a uma cadeira no Senado, na Câmara dos Deputados e ao cargo de governadora, segundo informa o Center for American Women and Politics da Rutgers University de Nova Jersey.

Muitas outras se candidataram aos legislativos estaduais e a uma cadeira nas Câmaras Municipais. Ao longo de todo o processo, elas estão descobrindo que o assédio e as ameaças, já comuns para as mulheres, podem agigantar-se nas disputas políticas – principalmente se a candidata pertence a um grupo minoritário.

No ano passado, abusos de caráter sexista e antissemita contribuíram para fazer com que Kim Weaver, democrata de Iowa, abandonasse a sua candidatura contra o deputado Steve King.

Alguém entrou em sua propriedade durante a noite e colocou uma tabuleta escrita “vende-se”. O site neonazista The Daily Stormer publicou um artigo (que não está mais disponível) com o título “A prostituta que concorre contra Steve King”, lembra Kim, engrossando o teor das ameaças.

Um conhecido no governo alemão até telefonou para alertá-la por ter visto uma conversa ameaçadora em um quadro de recados extremista, e perguntou se ela dispunha de um segurança pessoal.

“Normalmente, eu sou uma pessoa bastante corajosa, mas quando você se sente em um aquário e não sabe quem lhe está atirando pedras, a situação se torna desconcertante”, disse Kim, 53. “Você não sabe se se trata de uma pessoa que está sentada no subsolo da casa da mãe, na Flórida, ou se é um branco supremacista que adora armas e odeia você, e mora a um quarteirão de distância”.

Quando Kim se retirou da disputa, King sugeriu que ela havia inventado as ameaças. “Eu queria #KimWeaver na disputa – e não fora”, ele tuítou. “Os democratas a tiraram da disputa – não foram os republicanos. As ameaças de morte provavelmente nem existiam, foram inventadas”.

Emily Ellsworth , 31, republicana de Utah, disse que quando procurou o apoio de delegados do partido para concorrer ao Senado Estadual, este ano, um delegado a assediou em diversos eventos e mandou uma dezena de mensagens pelo Facebook. Só parou depois que ela desativou sua conta.

As mensagens não eram de cunho explicitamente sexual, ela disse, mas fizeram com que ela sentisse que  “ele realmente queria forçar um relacionamento mais pessoal e tinha dificuldade para aceitar os limites que eu havia estabelecido”.

Morgan Zegers, 21, uma republicana que concorria à Assembleia do Estado de Nova York, contou que foi chamada de “a perfeita dona de casa republicana”, e frequentemente teve de deletar comentários vulgares de sua página do Facebook. Lauren Underwood, 31, candidata a Câmara dos Deputados em Illinois, lembra que quando estava visitando um apoiador, um cidadão republicano local parou perto dela e se ofendeu ao saber que Lauren concorria contra um amigo seu no Congresso.

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“É importante para mim mostrar um bom diálogo sobre as questões políticas e não assustar as mulheres que pretendem candidatar-se”, diz Morgan Zagers, que apaga regularmente comentários vulgares em sua página do Facebook Foto: Nathaniel Brooks para The New York Times

“Ele se endireitou, postou-se na minha frente com grande imponência, curvando-se como se fosse me agredir porque eu tinha a audácia de concorrer ao cargo”, disse Lauren, acrescentando que o seu partidário a defendeu.

O assédio não é nenhuma novidade para as mulheres na política, ou em qualquer outro lugar – os homens o enfrentam também, principalmente se são afro-americanos ou judeus. Mas, no caso das mulheres, o assédio se dá a toda hora, frequentemente é de cunho sexual, e só veio à tona nestas eleições, em parte porque há muitas mulheres concorrendo e em parte porque elas passaram a expor abertamente as experiências pessoais.

Participantes do Women Win, um fórum realizado em junho pelas mulheres democratas que concorrem no Texas, afirmaram que descobriram um sentimento de camaradagem na iniciativa.

“Estar na sala com todas essas mulheres que falam dos mesmos problemas que eu tenho fez com que eu me sentisse muito mais normal”, comentou Samantha Carrillo Fields, 31, uma candidata à Câmara do Texas, referindo-se não apenas à questão da segurança, mas também a outras formas de misoginia durante a campanha. “Foi muito bom receber esta confirmação”, afirmou.

Em um vídeo de 2017 realizado pelo Womens’s Media Center, as que foram eleitas descreveram suas experiências como parte de uma campanha chamada #NameItChangeIt, que encoraja as mulheres a se manifestarem sobre o assédio. E as mulheres, agora, se mostram mais dispostas a fazê-lo em comparação a alguns anos atrás.

Quando Rebecca Thompson, democrata, concorreu à Câmara de Michigan em 2014, notou que uns estranhos começaram a segui-la até em casa, à saída de alguns eventos, e passavam devagar de automóvel várias vezes em frente à sua casa. A certa altura, alguém arrombou o seu carro. No final da campanha, contou, passou a dormir na casa do seu companheiro porque tinha medo de ficar na sua.

“Eu me senti desprotegida durante toda a campanha”, afirmou Rebecca, 35 anos. “Parecia quase uma guerra psicológica, como se tentassem me enlouquecer. Fiquei apreensiva o tempo todo, porque não sabia aonde podia ir, em qualquer lugar da cidade, sem ter a sensação de estar sendo seguida”.

Na época não se sentiu à vontade para falar a este respeito. “Dizia a mim mesma que tinha de aguentar esta situação. Se essas coisas acontecessem agora, acho que me sentiria segura para denunciá-las”.

Mesmo assim, algumas candidatas entrevistadas disseram inicialmente que não haviam sido assediadas – mas quando foram mencionados alguns exemplos, como ameaças em mensagens na mídia social, acabaram falando que, de fato, já haviam passado por isto. Como muitas participantes do movimento #MeToo, estas candidatas observaram que certo grau de misoginia já é tão esperado que parece uma coisa banal.

“As coisas que as pessoas falam acabam se tornando comuns”, disse Mya Whitaker, 27, democrata que se candidatou à Câmara Municipal de Oakland, Califórnia. “O fato de ser uma mulher negra e de existir, em alguns casos, é suficiente para irritar as pessoas”.

Um tipo diferente de percepção de normalidade ocorre no outro extremo do espectro, em que o assédio é tão perverso e constante que ultrapassa a capacidade de reação.

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Mya Whitaker disse que o fato de ser uma mulher negra é suficiente para ser assediada por algumas pessoas Foto: Cayce Clifford para The New York Times

Desenvolvedora de videogames independente em 2014, Brianna Wu foi alvo de abuso durante o GamerGate, quando mulheres que trabalhavam neste setor foram vítimas de assédio.

Agora, Wu, 41, democrata que concorre ao Congresso em Massachusetts, disse que as ameaças de morte e de estupro são tão rotineiras que parou de se preocupar tanto. Mesmo quando as pessoas atiraram objetos pela sua janela ou vandalizaram o carro do seu marido, e até quando enviaram fotos dela, ao estilo paparazzi, em sua própria casa.

“Muitas vezes, olhava aquilo e pensava: eu sei que deveria sentir alguma coisa neste momento. Sei que deveria ficar apavorada, irada ou estressada. A esta altura, já não sinto mais nada”, contou. “É quase como se o medo fosse um músculo sobrecarregado, e não conseguisse fazer mais nada no meu corpo”.

Muitas afirmam que, por princípio, não se intimidam a ponto de calar. Outras dizem que seus ideais políticos são muito mais importantes do que isto.

Frequentemente, Wu e outras insistiram com possíveis candidatas para que não se deixassem dissuadir. Morgan Zegers contou que foi por isso que deletou os comentários sexistas do Facebook.

“Muitas mulheres leem a minha página. Para mim, é importante mostrar um bom diálogo sobre as questões políticas e não assustar as mulheres fazendo com que desistam de se candidatar”.

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Brianna Wu disse que o assédio que ela sofreu como desenvolvedora de videogame em 2014 fez com que se tornasse insensível ao que agora sofre como candidata ao Congresso Foto: Kayana Szymczk para The New York Times

Algumas consideram o assédio uma dificuldade que terão de superar se quiserem mudar os sistemas que a mantêm.

O governo ainda é composto majoritariamente de homens que nunca sofreram assédio sexual, enquanto “um número enorme de mulheres experimenta este tipo de coisa”, disse Lauren.

“Acho que faz parte da oportunidade de concorrer em nome do progresso”, acrescentou. “É uma oportunidade de consertar isto e impedir que aconteça no futuro”.

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