Autorreferente, moda dos EUA tece crítica à intolerância em desfiles de NY

Estilistas se inspiram nos estereótipos do povo americano na abertura do circuito internacional

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Look de balneário do desfile da Tory Burch – Richard Drew/AP

SÃO PAULO – “Isto é América”, cantaria Childish Gambino se tivesse de resumir a temporada verão 2019 da semana de moda de Nova York. O hit homônimo do rapper versa sobre o história de violência encrustada nas raízes do “american dream” e é crítica objetiva à política de intolerância do governo Trump.

Nos desfiles mais relevantes da cidade que inicia o circuito internacional, os estilistas se debruçaram sobre os estereótipos da imagem do povo americano, um raio-X que vai do meio-oeste Ralph Lauren a uma Miami Michael Kors.

Ponto de interseção dos guarda-roupas de democratas como Hillary Clinton, republicanos como a primeira-dama Melania Trump e caubóis modernos que ainda usam chapéu de abas largas, Lauren revisitou signos da indumentária nos EUA que embalam a história da grife.

Sob os olhares de amigos que vão da apresentadora Oprah Winfrey ao próprio casal Clinton, Ralph Lauren desfilou os 50 anos de sua marca no Central Park, costurando sua trajetória com base na roupa dos imigrantes italianos até seu “Ivy Look”, conjuntos de blazer sobre suéteres de tweed, baseado no armário das universidades da elite norte-americana.

Os tipos “western”, as camisetas polo, as bermudas, os cachecóis em zigue-zague. Lauren explorou todos esses elementos em modelos que desfilavam em pares ou abraçadas a crianças, como se mostrassem um ideal de família americana rica e de cores de pele diversas, frutos de uma miscigenação cada vez mais distante nos EUA da era Trump.

As influências latinas, das cores fortes dos florais aos vestidos de camadas, apareceram em vários desfiles, como na estreia de Wes Gordon na Carolina Herrera e na coleção berrante de Michael Kors.

Kors arrisca derrubar os muros que separam as culturas latina e anglo-saxônica ao apostar em referências às cores que tingem a parte mais ao sul do continente.

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Desfile da Michael Kors em Nova York – Bebeto Matthews/AP

Tomara-que-caia, babados e franjas adornam propostas para garotas de diferentes corpos e etnias que frequentam regiões costeiras, da Flórida à Califórnia. É como se a grife carioca Farm —que, aliás, aposta na mesma estética em sua nova incursão no mercado americano— tivesse baixado na passarela do estilista.

Queridinho dos free shops, Kors investe num ideal de luxo acessível e kitsh, cheio de tops e jaquetas estampadas para dias de sol mais felizes.

Sol que Tory Burch, outra instituição da moda americana, parece ter tomado para um passeio pelos Hamptons, destino da elite nova-iorquina. A “white party” da designer tem códigos do despojamento francês, abotoado até o pescoço, de linhas retas e cartela monocromática.

Há caftãs, vestidos longos de mangas bufantes e acessórios com pinta de souvernirs de um passeio pelo Mediterrâneo —Grécia, Itália e Espanha inspiraram a estilista.

Burch resume a imagem idealizada de um verão elegante, distante do caos das praias dos surfistas do oeste.

É na mesma Nova Inglaterra, na parte nordeste dos EUA, que o belga Raf Simons tirou as inspirações da apresentação mais forte desta temporada nova-iorquina. Mas em vez de uma festa branca, ele promove um banho de sangue que é metáfora da escalada de violência no país.

A região é cenário do filme “Tubarão”, de Steven Spielberg, que teve pôster aplicado em camisetas da coleção, desfilada sobre um tapete vermelho-sangue. Ao fundo, projeções do mar faziam os convidados mergulharem na tese do estilista que, desde a entrada na marca, ironiza os costumes do país onde vive.

Simons propôs uma fusão do look do surfista, os mesmos do longa de 1975, e o dos bailes de formatura dos filmes blockbuster dos 1990.

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Modelo apresenta a linha de 50 anos de aniversário da Ralph Lauren – Shannon Stapleton/Reuters

Como se dissesse que o sonho americano morreu na praia, abocanhado por um tubarão sentado na Casa Branca, ele rasgou as saias plissadas dos modelos, alguns molhados e ainda usando seus chapéus de formando.

Outra obra-prima do cinema, “A Primeira Noite de um Homem”, de Mike Nichols, serviu de base para o personagem de formando imaturo e perdido em meio à pressão de se tornar homem.

Calças de neoprene e jaquetas de couro com franjas vermelhas como se espirrassem sangue compuseram parte da imagem agressiva proposta pela Calvin Klein.

É como se a marca tivesse pintado um retrato da juventude desencantada, saudosa da vida blockbuster que lhe prometeram e não se concretizou. Simons joga a real e lhe responde: isto é América. [Pedro Diniz]

 

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