O problema de escritórios como o Google, com pufes e videogame

Para escritório de arquitetura de ambientes corporativos, o funcionário precisa se sentir bem em todos os lugares e não apenas na sala de convivência
Por Karin Salomão

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(Linx/Divulgação)

São Paulo – Pufes, escorregadores, mesas de sinuca e videogame. Para muitos, esse é o modelo ideal de escritório, com uma área de descompressão recheada de atrativos. No entanto, para a Arealis, escritório de arquitetura especializado em espaços corporativos, o modelo inspirado nos ambientes do Google, Facebook e outras empresas descoladas de tecnologia não funciona para todos.

Para os arquitetos, o funcionário precisa se sentir bem em todos os lugares da empresa e não apenas na sala de convivência. “O funcionário não tem que ser comprimido para depois procurar descompressão”, afirmou Enrico Benedetti, arquiteto e sócio da companhia em entrevista a EXAME. O francês Jean-François Imparato e a brasileira Mariana Guedes são os outros dois sócios do negócio.

As empresas podem ter até sorvete, cerveja e outros mimos, mas o que retém um colaborador é um ambiente adequado para o trabalho, diz ele. Por isso, ambientes divertidos não recebem tanto destaque em seus projetos.

O foco são os espaços de encontro, como corredores e áreas com sofás e mesas. De acordo com a Arealis, é nas conversas entre os colaboradores que parte importante do trabalho acontece.

No Brasil desde 2012, a Arealis já fez os projetos de arquitetura de escritórios como a startup Evino, a Linx de tecnologia, a indiana Tata Consultancy Services, de produtos de TI e o banco BNP Paribas. Ela atende principalmente empresas médias, com até 2 mil funcionários.

Confira abaixo a entrevista com o arquiteto Benedetti.

EXAME – Como a Arealis define como será um projeto?
Enrico Benedetti – Nosso escritório procura fazer projetos muito personalizados. Na fase inicial, pesquisamos todo o mundo da empresa, seus valores, como ela se comunica e qual a dinâmica de trabalho das equipes.

Pesquisamos como a empresa funciona, como os departamentos se conversam e como é a hierarquia. A resposta para um escritório de advocacia, uma empresa de tecnologia ou uma grife não pode ser a mesma.

Qual é o elemento mais importante para um bom escritório?
Diferente de nossos concorrentes, nossos projetos são bem estruturados, como uma arquitetura de interiores. É uma intervenção mais concreta que só uma decoração superficial.

O objetivo dessa intervenção é criar percursos, ruas assim como na cidade, onde o trabalho acontece. São espaços de café, salas de reunião e poltronas, que ajudam as pessoas a se encontrarem e interagirem. Para nós, é ali que o trabalho acontece.

Grande parte das startups e até de empresas grandes veem o Google e o Facebook como exemplos para seguir na hora de construir o escritório. Por que o senhor acredita que essas empresas são inspiração para tantos?
Porque esses escritórios, do Google e Facebook, se dizem jovens, descontraídos, não conformistas. As startups são criadas por jovens que se reconhecem nesse tipo de espaço. A geração que está entrando hoje no mundo de trabalho busca essa liberdade.

Em outras empresas, esses jovens convivem também com pessoas mais experientes, que precisam se adaptar ao novo espaço e paradigma. Antes, o avanço na carreira tinha mudanças físicas no escritório. Você começava com uma mesa no centro do local de trabalho, ganhava um escritório de coordenador, depois uma sala fechada, uma sala maior com mesa de reunião. O escritório espelhava fisicamente o avanço na carreira.

Hoje isso não existe mais, os jovens não ligam mais para essa estrutura hierárquica. Uma startup pode colocar todos, do fundador ao estagiário, no mesmo espaço.

Esse modelo serve para todas as empresas?
As empresas chegam a nós querendo um escritório como o Google. Mas perguntamos, vocês são o Google? Trabalham como eles? Claro que o Google é uma referência incontestável, mas não por ter criado esses espaços físicos divertidos e sim pela hierarquia horizontal.

Não podemos esquecer que as empresas querem produtividade de seus funcionários, o que não acontece só por causa dos espaços de descontração e lazer. Ao contrário, o conceito de espaço de descompressão é meio arcaico.

Acreditamos que o funcionário tem que se sentir bem em qualquer lugar da empresa. O funcionário não tem que ser comprimido para depois procurar descompressão. O ambiente de trabalho precisa ser propício para o trabalho descontraído, com várias áreas colaborativas.

Então não faz sentido ter pufes e mesas de sinuca?
Todas as empresas precisam de espaços mais descontraídos, simplesmente porque passamos grande parte do nosso tempo dentro das empresas. Escritórios de advocacia precisa disso tanto quanto uma empresa de tecnologia.

Cabe a cada empresa dar a cara dela ao ambiente. Um banco terá um escritório mais elegante, enquanto a startup será mais divertida.

Mas não são só os pufes e jogos. É necessário ter espaços para conversar e locais de trabalho que não sejam as mesas e cadeiras tradicionais, para que as pessoas se encontrem e resolvam coisas.

O modelo com espaços divertidos serve para hoje, mas talvez não funcione daqui há cinco anos.  Por outro lado, as pessoas vão continuar precisando se encontrar dentro da empresa. Por isso, os espaços de confluência continuarão a existir.

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