Paris moderniza guarda-roupa clássico sem apelar para a naftalina

Na coleção primavera-verão 2019, liberdade é a palavra da vez

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Coleção primavera-verão 2019 da Valentino Christophe Ena/AP

PARIS – Para algumas grifes, Paris já mostrou nas passarelas de verão 2019, liberdade significa não temer sair na rua com o corpo exposto. Outras, porém, versam sobre essa palavra que define as principais coleções da temporada com um estudo complexo sobre o guarda-roupa clássico.

De maneiras similares, Hermès, Valentino e Balenciaga, três guardiãs da boa costura, reestruturaram padrões simples, jogando com volumes e tecidos de forma que as peças emulassem a tal liberdade.

Na tarde do domingo (30), a Valentino do estilista Pierpaolo Piccioli olhou para os padrões da moda helênica, repleta de peças plissadas e silhueta solta, para cortar um trabalho de forma.

Tafetá, couro e seda são as bases das peças que parecem desabrochar dos colos como copas de flores, um estudo já empreendido por Piccioli na temporada passada, mas que nesta é menos estruturada e mais leve. Ele transforma as linhas sinuosas dos arabescos em estampas pontuais.

Os desenhos, no entanto, são menores nesta coleção, essencialmente monocromática em vermelhos, cor principal da Valentino, rosa, preto e tons de ocre, como se pedisse à plateia para olhar sua técnica, não o que está aparente e pronto para as redes sociais.

Volumes que variam de complexos casulos plissados a levíssimos xales cortados pela metade, caídos nos ombros, são exemplos da tesoura experiente que Piccioli aplica nessa alta-costura transformada em prêt-à-porter (pronto para vestir).

Uma alta-costura tão técnica e livre quanto a de Nadège Vanhee-Cybulski, estilista francesa que elevou o padrão das coleções da Hermès a um nível de detalhismo poucas vezes valorizado pelas marcas de luxo, hoje mais atentas ao furor imagético proporcionado pela noite.

Ensolarada, a coleção desfilada no sábado (29) é um meio entre a estética do mar e a da selaria, um tratado de elegância atemporal transformado em esportivo nobre, cortado em couro e cashmere dublado.

Nadège retirou cordas e redes da imagem “navy” para transformá-los, respectivamente, em aviamentos e tecidos vazados. Do universo equestre, pincelou as formas da sela, para criar camisas e vestidos envelopados e com linhas sinuosas.

Os arreios viraram alças e acabamentos para acessórios, e o couro, matéria-prima pela qual a Hermès é reconhecida, foi usado como base de jaquetas corta vento, peça que apareceu em vários desfiles, e saias vazadas como redes de pesca.

À sempre sóbria cartela da grife, uma bem amarrada mistura de off-white, beges e o laranja-Hermès, Nadège adicionou olivas e vinhos, só que em tom envelhecido, como se oxidados pela maresia.

Esse efeito da ação do tempo, próprio a uma marca famosa pelas peças que viram heranças de família, foi usado em botões desenhados pelo artista plástico Laurence Owen.

O ponto que permite a essas marcas criar uma moda clássica sem apelar para a naftalina é o contraste de volumes, tingidos por cores iluminadas e cortes tradicionais com proporções revistas.

Fórmula que a Balenciaga, dirigida pelo georgiano Demna Gvasalia, domina como poucos. Na passarela do domingo, ele deformou a alfaiataria clássica com ombreiras, camisas de golas enormes e mangas flácidas usadas em vestidos de corpo ajustado.

Bem mais noturno que seus colegas, ele tinge seu estudo sobre o corpo com o azul do jeans, o rosa choque e o verde limão, combinando-os ao preto básico das roupas de gala.

Tradicionais, mas comprometidas com a modernidade, abraçando códigos da elegância do passado, porém livres das formas convencionais, as grifes querem reverenciar seus legados com a poeira devidamente espanada. [Pedro Diniz]

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