As casas e cidades brasileiras são feitas para negros?

Palestrante do Casa Vogue Experience 2018, Stephanie Ribeiro reflete sobre o papel dos negros na arquitetura do país
Texto: Carol Scolforo I Retrato: André Klotz I Produção: Natália Martucci

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Arquiteta Stephanie Ribeiro

Já no primeiro ano da faculdade de arquitetura, Stephanie Ribeiro percebeu: as vagas de trabalho que surgiam davam preferência a determinados perfis de pessoas – nos quais nem sempre ela se encaixava. As inquietações aumentavam e quando ela tocava no assunto, as pessoas ao redor resistiam em conversar sobre ele. Tempos depois, ela passou a enxergar também que o racismo e o sexismo estavam impregnados no desenho arquitetônico praticado no Brasil. “Fiz uma pesquisa sobre o ‘quartinho da empregada’ e vi que as pessoas falavam disso com muita naturalidade. Hoje existe uma legislação sobre o assunto, mas ainda se desenha esse ambiente sob o nome de almoxarifado, para aprovar nos órgãos públicos. Na prática, continua existindo esse espaço pequeno e sem janela para a funcionária morar”, conta.

Stephanie, aos 25 anos, é arquiteta, colunista da Marie Claire e ativista. No talk “As cidades brasileiras são feitas para negros?”, marcado para o dia 7/11 dentro da programação do Casa Vogue Experience 2018 (evento que acontece em São Paulo entre 6 e 11 de novembro), ela pretende refletir e inspirar novas visões do tema. Seus companheiros na empreitada serão Gabriela de Matos e Bárbara Oliveira, fundadoras do movimento Arquitetas Negras, e o curador Hélio Menezes. Segundo ela, é preciso falar sobre elementos que incomodam e merecem ser revistos, como o elevador de serviço, que segrega funcionários, ou a cozinha isolada, que também os esconde. “Tudo isso perpetua nossa cultura escravocrata”, diz.

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Arquiteta Stephanie Ribeiro

Repensar a arquitetura é preciso. “Na faculdade, tive um choque quando as pessoas achavam normal desenhar o quartinho de empregada. Elas diziam que não há outra alternativa quando o cliente pede. Mas acredito que podemos propor uma narrativa que faça as pessoas refletirem”. Outro fato curioso citado pela arquiteta é que as ruas do país raramente recebem nomes de negros. “Fiz uma pesquisa demonstrando que 98% das ruas têm nomes de pessoas brancas. Parece simples, mas estamos apagando muitas histórias importantes protagonizadas por negros. Não há representatividade”.

As cidades podem ser mais inclusivas e empáticas – esse é o olhar que a arquiteta pretende levar ao talk. “Se pensarmos as cidades a partir do ponto de vista de quem não tem acesso a determinados locais, a arquitetura se torna mais humana. Isso pode mudar o nosso modo de viver. A questão vai desde a rampa para uma pessoa com deficiência a uma boa iluminação em uma praça, que se torna menos perigosa para uma mulher passar à noite”.

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