Retrato falado: Gisele Bündchen dá voz a angústias em novo livro

Em ‘Aprendizados’, modelo fala sobre pensamentos suicidas, sabotagens e intimidades de sua vida

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Gisele divide intimidades às quais quase ninguém havia tido acesso 

A moda é um mundo de aparências – de preferência, as melhores possíveis. Não deixa de ser surpreendente, portanto, que Gisele Bündchen, a ubermodel brasileira, ícone nacional de beleza e de sucesso, tenha decidido se expor tão intimamente no livro Aprendizados, lançado no Brasil pela editora Best Seller, do grupo Record.

Estão colocados ali detalhes curiosos e até excêntricos de sua rotina, as frustrações que teve ao decidir assumir o papel de dona de casa e o arrependimento depois de turbinar os seios com silicone. “Não ficou como eu imaginava. Fiquei incomodada, com raiva e deprimida. Por que eu tinha feito aquilo comigo?”, conta em um trecho.

Em algumas passagens, Gisele demonstra o ressentimento com o bullying sofrido no início da carreira (“diziam que meu nariz era muito grande e meus olhos pequenos demais”), lembra da vida desregrada de modelo e das futilidades da indústria. O ponto alto é quando ela fala pela primeira vez sobre os ataques de pânico que enfrentou no auge da carreira e que a levaram a pensar em suicídio, coisa que surpreende até os mais próximos. “Soube do pânico, mas não sabia da gravidade da coisa (de ter pensado em suicídio). Gisele sempre foi muito equilibrada e não é uma pessoa que externa muito seus problemas”, conta o beauty-artist Daniel Hernandez. Sua volta por cima foi apoiada nos ensinamentos da ioga, da meditação e da respiração pranayama.

É claro que a narrativa não está livre de clichês, tampouco se propõe a ser uma obra com qualidade literária. Mas Gisele se abriu, foi honesta, tocou em questões íntimas e conseguiu revelar os bastidores da indústria por vários ângulos, inclusive os mais mesquinhos e sombrios. As sabotagens pré-desfile armadas por concorrentes (uma vez chegaram a soltar o salto de um sapato para que ela caísse na passarela), por exemplo, apesar de soarem como planos do Gargamel para derrubar os Smurfs, significavam uma ameaça concreta a sua performance. “É lógico que a Gisele, por ter o status que tem, deve ter passado por outras situações, mas nunca presenciei esse tipo de coisa”, diz a top Lu Curtis, outra colega de trabalho.

Durante a leitura de Aprendizados, dá sim para ouvir a voz empolgada de Gisele, uma das brasileiras mais famosas e bem-sucedidas do mundo, contando sua história e dizendo o que pensa. E ela pensa muita coisa, sempre com foco e estratégia, como você confere nesta entrevista, concedida ao Estado por e-mail. [Maria Rita Alonso]

Você conta no livro que durante os seus 23 anos de carreira acabou sendo uma imagem sem voz. Como se sente agora podendo se abrir e falar sobre suas experiências?
Acho que é libertador. Percebi que quando você consegue se abrir e expor suas vulnerabilidades, isso não só ajuda você trabalhar nas suas feridas e curá-las como também a se sentir útil. Ao dividir suas histórias, muitas pessoas vêm lhe agradecer, pois elas também passam por coisas parecidas e é importante saber que há uma luz no fim do túnel.

Em algum momento você teve dúvidas sobre o quanto se abrir? Qual foi o trecho mais difícil de escrever?
Fico empolgada em poder dividir algo que acho que pode ajudar as pessoas, como quando falo sobre alimentação saudável, a prática da meditação ou de exercícios, já que tudo isso faz com que eu tenha uma vida mais equilibrada. Eu tive, sim, dúvidas de quanto deveria me abrir, mas acredito que se minhas experiências puderem contribuir de alguma forma positiva para alguém, então já valeu a pena. Umas das partes mais difíceis de contar com certeza foi a questão dos meus ataques de pânico, pois foi algo que me marcou muito e é difícil você admitir que chegou no fundo do poço.

Vinda de uma família com tantas mulheres, como enxerga os movimentos de empoderamento feminino da nova geração?
Acredito que as mudanças só acontecem quando há uma grande movimentação em torno de um determinado assunto. Foi assim ao longo da história. As mulheres não podiam votar, não podiam usar calças, eram submissas dentro de casa. Hoje, acredito que há um novo movimento, que é importante para que as mulheres consigam se livrar de outros estigmas, não sejam assediadas e desrespeitadas, por exemplo. Por outro lado, também entendo que homens e mulheres são biologicamente diferentes e, por isso, têm aspectos diferentes. O que não significa que não devam ter direitos e obrigações iguais. Mas ambos precisam procurar entender e respeitar as diferenças alheias.

Hoje em dia, você indicaria a profissão de modelo? Ficaria feliz, por exemplo, se sua filha resolvesse seguir a carreira?
Vejo a profissão de modelo como outra profissão qualquer, com seus benefícios e desafios. É uma profissão que acaba mexendo muito com a autoestima, é preciso ter suporte da família, ainda mais porque as meninas iniciam muito novinhas. Quanto a minha filha, ela terá liberdade para seguir o que quiser, assim como meus pais fizeram comigo.


Você enfrentou ataques de pânico no auge da sua carreira. Pode falar um pouco sobre esse momento?
Foi um período muito difícil na minha vida. Era algo que fugia totalmente do meu controle. Não tinha domínio sobre meus sentimentos e medos. Já não conseguia mais estar em lugares fechados, era sufocante e desesperador. Estava realmente no fundo do poço, mas estava dedicada a sair dessa. Em momentos como esse, é muito importante buscar ajuda e fazer as transformações necessárias na sua vida para reverter seu quadro. O maior desafio que já passei foi também o mais transformador na minha vida. Me proporcionou que eu olhasse para dentro e promovesse uma reviravolta. Aprendi ioga e como a respiração e meditação podiam fazer diferença na forma como eu me sentia. Mudei radicalmente a alimentação. Me livrei de maus hábitos como cigarro, excesso de cafeína e das taças de vinho diárias que achava que me ajudavam a relaxar. Comecei uma nova vida, que me trouxe muito mais alegria e equilíbrio. Sei que fazer mudanças não é fácil, exige muita disciplina, força de vontade e dedicação. Mas a escolha está sempre nas nossas mãos, na de mais ninguém.

Você abdicou de trabalhos ou contratos profissionais para introduzir hábitos e práticas mais saudáveis na sua rotina?
Na época, reduzi o ritmo de trabalho e, com o tempo, também fui ficando mais e mais seletiva. Percebi que não precisava estar sempre frenética trabalhando e atendendo a todos os convites e propostas que recebia, aprendi a dizer não. É importante aprender a conhecer seus limites, ter um tempo para respirar e observar para onde está indo e se as escolhas que fazemos estão nos fazendo bem ou não.

Como lidar com as crueldades típicas do universo da moda?
Esse eu diria que é um dos lados mais difíceis desta profissão, pois muitas vezes esquecem que você é um ser humano. Você é uma entre os milhares da fila de casting, e não há muita delicadeza na forma de falar o porquê você foi descartada. Mas como gosto de dizer, o que não te derrota, te deixa mais forte. Foi assim que saí de muitas dessas situações. Apesar das “imperfeições”, consegui me destacar. Preferi focar no que tinha de positivo para oferecer.

No Brasil, algumas revistas de moda perderam mercado e a comunicação das marcas está cada vez mais voltada ao universo digital. Como enxerga o futuro da moda nesse novo contexto?
Acho que não só o mundo da moda, mas todos os segmentos estão sendo impactados por esta nova era digital. E é inevitável que acabemos consumindo mais conteúdo online do que impresso, pela facilidade e disponibilidade de acesso. Afinal, ele está na palma da mão quando você precisa.


Veja a seguir dois trechos da publicação: 
Não conseguia ver uma saída e não podia suportar mais um dia me sentindo daquele jeito. Um pensamento m
e invadiu: ‘Quem sabe vai ser mais fácil se eu simplesmente pular. Tudo vai passar. Eu posso me livrar de tudo isso’. Quando penso naquele momento e naquela garota de 23 anos, sinto vontade de chorar. Ela era tão jovem que quase me parte o coração. Quero dizer para ela que vai ficar tudo bem.”

“Quando comecei a fazer mais sucesso e os clientes começaram a me mandar passagens aéreas de primeira classe, eu as trocava por um assento na classe econômica, e o dinheiro que sobrava ia direto para a poupança. Foi economizando cada centavo que ganhava com meu trabalho que consegui comprar meu primeiro apartamento em Nova York, em Tribeca.”

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