Estudantes de ciência da computação repensam emprego dos sonhos no Facebook

Estagiários da companhia chegam a ganhar cerca de R$ 30 mil por mês

Placa do Facebook em Menlo Park, na Califórnia – Josh Edelson/AFP

NOVA YORK –Um emprego no Facebook parece muito atraente. Os estagiários ganham cerca de US$ 8 mil (R$ 30 mil) por mês, e um engenheiro de software iniciante ganha cerca de US$ 140 mil por ano (R$ 525 mil). A comida é grátis. Há uma trilha para caminhadas, com vegetação natural da área, e um juice bar.

Mas entre os cientistas da computação, que estão entre os profissionais mais procurados do mercado de trabalho atual, o tom quanto à rede social está mudando. Em uma noite recente, na Universidade da Califórnia em Berkeley, um grupo de jovens engenheiros estava reunido para uma demonstração de habilidades tecnológica, e muitos dos presentes disseram que prefeririam não trabalhar para a rede social.

“Ouvi dizer que muita gente que trabalha lá não usa [o Facebook]”, disse Niky Akora, 19, estudante de engenharia convidada para um evento de recrutamento do Facebook na sede da empresa, em Menlo Park.

“Eu simplesmente não acredito no produto, porque, no Facebook, a base de tudo que eles fazem é o desejo de exibir mais anúncios às pessoas”.

Emily Zhong, 20, que está estudando ciência da computação, expressou sua opinião. “É surpreendente, mas muitos de meus amigos dizem agora que não querem trabalhar para o Facebook”, ela disse, “invocando questões de privacidade, ‘fake news’, dados pessoais, tudo isso”.

“Antes, trabalhar lá era uma coisa mágica, gloriosa”, disse Jazz Singh, 18, também estudante de ciência da computação. “Agora as pessoas acham que só porque eles fazem algo que as pessoas querem não significa que estejam fazendo o bem”.

Facebook vem sendo abalado por escândalo depois de escândalo, e alguns jovens engenheiros estão decepcionados com a empresa. Muitos deles ainda aceitam empregos lá, mas os que o fazem hoje são mais discretos, e dizem aos amigos que trabalharão para mudar a empresa por dentro, ou que buscarão áreas mais éticas de trabalho em uma empresa cuja reputação se tornou tóxica.

O Facebook, que emprega mais de 30 mil pessoas em período integral, em todo o mundo, afirma que “em 2018 contratamos mais engenheiros do que em qualquer ano anterior”. A empresa acrescentou que continua a ver forte engajamento e empolgação quanto à perspectiva de trabalhar na empresa, na comunidade de engenharia.

A mudança de atitude não se restringe ao Facebook. Em todo o Vale do Silício, os selecionadores de pessoal dizem que os candidatos a empregos agora fazem perguntas mais duras durante as entrevistas, e querem saber especificamente o que seriam instruídos a fazer em seus novos postos. Orientadores de carreiras dizem que vêm sendo consultados por profissionais de tecnologia em busca de conselhos sobre como lidar com dilemas morais. As questões incluem “como evitar um projeto do qual discordo?” e “como devo agir para lembrar aos meus chefes qual é a missão declarada da empresa?”

“Os empregados estão ficando cientes do fato de que a missão que uma empresa declara em seu site é uma coisa, mas, quando observam de que maneira uma empresa cria novos produtos ou toma decisões, a correlação entre as duas coisas já não é tão clara”, disse David Chie, diretor da Palo Alto Staffing, que recruta pessoal para o setor de tecnologia no Vale do Silício. “Todo mundo está tendo essa conversa”.
E quando engenheiros se candidatam a empregos, eles também mudaram sua maneira de fazê-lo.

“Eles pesquisam muito mais, agora”, disse Heather Johnston, presidente do distrito de Palo Alto da Robert Half, uma agência de empregos em tecnologia. “Antes os candidatos não queriam realizar entrevistas com a equipe completa do empregador. Era uma entrevista individual e pronto”.

Agora, ela disse, os candidatos a empregos “querem conhecer a equipe. Não aceitam mais uma empresa cegamente só pelo seu nome”.

Embora muitas das grandes empresas de tecnologia tenham sofrido com uma mudança da percepção pública quanto a elas, o Facebook parece ter sido o nome mais maculado, entre os trabalhadores mais jovens.

“Um par de clientes disse recentemente que o Facebook não os empolga tanto, porque estão frustrados com, aquilo que veem acontecendo no campo político ou social”, disse Paul Freiberger, presidente da Shimmering Careers, uma organização de aconselhamento profissional sediada em San Mateo. “É a privacidade e o noticiário político, e a preocupação de que será difícil corrigir essas coisas pelo lado de dentro”.

Na recente competição na Universidade da Califórnia em Berkeley, cerca de 2,2 mil estudantes de engenharia de todo o país se reuniram para a Cal Hacks 5.0 –um concurso de criação de apps. O evento durou todo o final de semana, e por isso os concorrentes adolescentes carregavam travesseiros. Os organizadores distribuíram dois mil burritos quando os participantes se inscreveram.

Também era um evento de recrutamento. Representantes do Facebook e da Alphabet montaram estandes (os brindes eram óculos de sol grátis, no do Facebook; US$ 200 ou R$ 750 em crédito na plataforma Google Cloud, no da Alphabet).

No auditório, o presidente da incubadora de startups e administradora de investimentos Y Combinator abriu os trabalhos recomendando que os jovens evitassem empregos nas grandes empresas de tecnologia.

“Você tem a chance de programar sua vida em escala completamente diferente”, disse Michael Seibel, da Y Combinator. “A pior coisa que pode lhe acontecer é arrumar emprego no Google”. Ele chamou os empregos na companhia de “previdência social a US$ 100 mil por ano” –o que significa, explicou, que o trabalhador pode se apegar demais ao salário e evitar todo risco.

Depois veio uma mensagem da patrocinadora do evento, a Microsoft. Justin Garrett, que trabalha na área de recrutamento da Microsoft e se define como “evangelista técnico sênior”, em seu perfil do LinkedIn, subiu ao palco rindo um pouco.

“Bem, é difícil falar depois do Michael, especialmente porque trabalho para uma dessas grandes empresas”, disse Garrett. “Ele as chamou de previdência, mas eu prefiro defini-las como uma imensa oportunidade”.

Os estudantes em seguida acorreram ao ginásio, onde estavam montadas longas mesas repletas de computadores, que eles usariam para a competição. No meio da balbúrdia, três amigos conversavam em tom brincalhão. Caleb Thomas, 21, estava sendo alvo de zombarias carinhosas dos amigos por ter aceito um estágio no Facebook.

“Calma lá, pessoal”, disse Thomas.

“São essas as realidades do mundo dos negócios”, disse Samuel Resendez, 20, que estuda ciência da computação na Universidade do Sul da Califórnia.

Resendez mesmo fez um estágio no Facebook, nas férias de verão. Olivia Brown, 20, presidente do Clube de Ciência da Computação e Bem Social da Universidade Stanford, e estagiária no departamento de sistemas operacionais iOS na Mozilla, imediatamente mencionou o fato. “Você também trabalhou no Facebook”, ela disse.

“Bem, pelo menos isso aconteceu antes da Cambridge Analytica”, disse Resendez, um pouco sem jeito diante do escândalo de violação da privacidade de dados e manipulação eleitoral que abalou a empresa no começo do ano. “95% do que o Facebook faz é circular memes”.

Brown disse que muitos estudantes criticam o Facebook e falam em recusar empregos lá, mas terminam aderindo. “Todo mundo na tecnologia se preocupa muito com ética, até conseguir um contrato”, ela disse.
Tradução de PAULO MIGLIACCI

THE NEW YORK TIMES

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