Baiano de Barreiras, estilista negro Isaac Silva conquista o gosto de divas como Elza Soares

Profissional peitou o preconceito e abre seu primeiro ateliê autoral de estilo afro-brasileiro

Estilista Isaac Silva conquista o gosto de divas como Elza Soares e Gaby Amarantos

O espesso véu racista que recobre o tecido social da moda, ele sabe, tenta impedir que “o único preto que ia a festivais de rock na adolescência” ascenda à ribalta.

Até ser reconhecido como estilista da elite criativa nacional, Isaac Silva, 30, ouviu mais nãos do que sins do momento em que saiu de Barreiras, no interior da Bahia, para tentar a vida em Salvador.

Nem o surpreende o fato que, mesmo agora, em São Paulo, para onde migrou em 2010 e, sem amigos famosos, conquistou o gosto das cantoras Elza Soares e Gaby Amarantos, além do interesse das atrizes Taís Araújo e Camila Pitanga, ainda não tenha conseguido crédito na praça para abrir sua loja homônima.

O espesso véu racista que recobre o tecido social da moda, ele sabe, tenta impedir que “o único preto que ia a festivais de rock na adolescência” ascenda à ribalta.

Hoje, estrela da passarela da Casa de Criadores, com desfile marcado para o dia 29, ele gastará as economias no sonho de abrir ateliê próprio, no miolo hype da Santa Cecília, no centro paulistano. O espaço seria aberto em agosto, mas faltou dinheiro no caixa e o sim dos gerentes dos bancos para o crédito. 

Estilista Isaac Silva

Na empreitada solo, agendada para começar a operar em dezembro, não devem faltar, porém, suas clientes negras dispostas a pagar até alguns milhares de reais nos vestidos sob medida estampadíssimos, muitos deles com tecidos importados de Angola, Moçambique e Senegal.

No mar de malharia de segunda mão importada da Ásia e nos milhões de metros de seda jogados fora em silhuetas que em nada dialogam com as raízes da cultura nacional, Silva se diferencia pelas referências africanas e indígenas aplicadas a uma moda usável.

Ainda que palatável ao olhar eurocêntrico do país, seu estilo sempre questiona símbolos do sincretismo religioso e o preconceito racial da história brasileira. O próximo desfile versará sobre as Yabás, os orixás femininos da umbanda, como Oiá, Obá, Iemanjá e Oxum —cujo dia, aliás, comemora-se no mesmo 8 de dezembro escolhido para a abertura de sua loja.

Desafios são a costura da trajetória de Silva, que deteve os reveses destinados aos negros no seio da moda, como o de nunca ter conseguido estagiar em uma marca famosa porque “sempre preferem contratar padrão de menina branca e loira nas equipes de estilo”.

Foi chamado para entrevistas na Triton. Não. Na Doc Dog. Não. Na Gloria Coelho. Também não. No tête-à-tête, os recursos humanos das empresas diziam que a vaga fora preenchida ou, em raros acessos de sinceridade, que ele “não fazia o perfil da marca”. O sim só veio quando uma confecção do Bom Retiro topou pagar menos do que o anunciado para a vaga de estilista. 

“Precisava trabalhar e não queria ser a bicha palhaça das marcas, que contratam gays talentosos como bibelôs para eles só carregarem roupa.”

O medo de Silva era acabar como muitos estilistas negros que, mesmo talentosos, foram paulatinamente jogados à vala do ostracismo e apagados com borracha das revistas e livros de moda. Ele cita como emblema desse modus operandi excludente a designer americana Ann Lowe.

Poucos sabem, mas ela foi a primeira designer afro-americana a ganhar notoriedade na alta sociedade dos Estados Unidos, que a adorava entre os anos 1920 e 1960, mas quase nunca citava seu nome nos créditos das colunas sociais.

O vestido de casamento de Jacqueline Kennedy com John F. Kennedy, em 1953, foi criado por ela. Nas matérias da época, é citada apenas como “estilista afro-americana”. Lowe morreu pobre, aos 82 anos.

“O preconceito nunca é explícito, ele acontece nessa névoa de negação, que te faz esquecer quem você é”, diz Silva. “Por esse preconceito, o Brasil se acostumou a branquear a raça para justificar sucesso. Negros nunca são negros, são pardos, morenos. É um choque quando me assumo preto.”

Silva também já teve seus créditos colocados à sombra. Clientes de grifes como Iódice, Le Lis Blanc e Mob podem não saber, mas muitas roupas criadas até 2014 são dele, compradas pelas marcas a partir do mostruário que a equipe de vendas da confecção em que trabalhava—toda branca, é claro— apresentava.

A Dafiti, uma das maiores plataformas de ecommerce do país, chegou a comprar 2.200 modelos idealizados por ele num único mês. Num jantar para comemorar a parceria, Silva relembra, os representantes internacionais da marca online pareciam abismados com o fato de um estilista como ele, que não fazia viagens de pesquisa à Europa, praxe entre as grifes nacionais, conseguir vender tanto.

“Fiz o que sempre fazia quando não tinha como investir em mim, que era ver novelas. Delas saem boa parte do que a classe média quer consumir, é uma questão brasileira. Não é fácil deixar velhos hábitos, mas os estilistas precisam olhar para o país e parar de ir à Europa para satisfazer o próprio ego e copiar o que ninguém aqui quer usar.”

Não foi fácil nem para ele, admite. Quando decidiu que iria tentar a vida com moda, por vergonha, não assumiu a brasilidade do sobrenome Silva e o travestiu de Ludovic. 

“Todas as minhas referências de sucesso não pareciam brasileiros. Herchcovitch, Marcelo Sommer, Fause Haten. A origem dos nomes diz muito sobre nossa moda.” [Pedro Diniz]

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