Diretor Park Chan-wook de Oldboy se aventura na TV com romance de espionagem

Park Chan-wook deixa cinema e comanda thriller de John le Carré
Roslyn Sulcas, The New York Times

Alexander Skarsgård as Becker, Florence Pugh as Charlie Ross – The Little Drumer Girl _ Season 1, Episode 3 – Photo Credit: Jonathan Olley/AMC/Ink Factory

LONDRES – Há uma maleta de couro em um quarto escuro. Uma mulher corre sobre um calçamento de pedras com botas de salto alto. Uma criança brinca de jogar a bola contra a parede. São momentos aparentemente banais, sem qualquer relação entre si, mas o incessante tique-taque do relógio e os rápidos vislumbres do tempo em vários relógios e mostradores digitais – 8:19, 8:20, 8:29 – deixam claro: algo de ruim irá acontecer.

Nestes instantes iniciais de tensão de “The Little Drummer Girl”, uma nova minissérie na AMC, uma rede americana a cabo, o diretor sul-coreano Park Chan-wook usa um tom de ameaça e de paranoia fabricada, um detalhe perfeito do período e a sensação visceral vívida, que percorre a narrativa em seis partes do salão dos espelhos de John le Carré centrada em torno do conflito israelense-palestino, no final dos anos 70.

Esta é a segunda incursão recente no universo de Le Carré, nascido David Cornwell, de seus filhos Simon e Stephen Cornwell – uma continuação de sua minissérie de sucesso, “The Night Manager”, que foi exibida pela BBC e pela AMC em 2016.

Essa série foi interpretada por Hugh Laurie e Tom Hiddleston.

Desta vez, a grande jogada dos Cornwell foi segurar Park, renomado diretor de cinema de arte conhecido por filmes como a violenta fantasia de vingança, “Oldboy”, e o suspense erótico “A Criada”, que nunca trabalhara para a TV antes.

O elenco inclui Alexander Skarsgard (“Big Little Lies”), Michael Shannon (“A forma da Água”) e Florence Pugh, relativamente desconhecida (“Lady Macbeth”), no papel central como a jovem atriz britânica Charmian Ross, conhecida como Charlie.

“The Little Drummer Girl” é o raro trabalho de Le Carré construído em torno de uma protagonista: os talentos de Charlie (como sua capacidade de mentir), sua coragem e idealismo levam os israelenses a recrutá-la para infiltrar-se em um grupo terrorista palestino que planeja ataques na Europa.

A combinação de um autor coreano provocador e de uma minissérie de espionagem, uma brilhante revisitação, poderia parecer estranha. Mas Park era fã de Le Carré desde adolescente, quando leu “O espião que veio do frio”.

“O meu filme é muito sombrio, e eu diria que Le Carré influiu consideravelmente neste aspecto”, afirmou.

“The Little Drummer Girl”, publicado em 1983, só foi traduzido para o coreano por volta de 2005, ele disse, e embora a história seja ambientada em 1979, teve forte repercussão. “A Coreia é um país em que a Guerra Fria continua ainda hoje, em termos do que ocorre nos bastidores entre Norte e Sul”.

Quando Park se aproximou dos Cornwell para falar da direção de uma nova versão de “The Little Drummer Girl” – que foi um filme de pouco sucesso, estrelado por Diane Keaton, em 1984 – eles já haviam decidido que este seria seu próximo projeto para a TV. (Além disso, estão com “O espião que veio do frio” na mira.)

Depois de uma reunião, enviaram alguns roteiros ao diretor, mas sem muita esperança, porque ele ainda não havia feito nada para a TV, segundo Stephen Cornwell. Para sua surpresa, Park concordou – com a ressalva de que não mudaria a sua visão cinematográfica. E também ressaltou que somente uma pessoa poderia ser Charlie.

“Nós quase demos uma gargalhada quando ele falou ‘Florence’, porque somos grandes fãs de ‘Lady Macbeth’ e da atriz, e ela estava em primeiro lugar na nossa lista”, contou Cornwell.

Park disse que embora não pretendesse mudar sua abordagem cinematográfica para a televisão, havia uma importante diferença para ele. “O momento limite de máximo suspense para trazer de volta os espectadores na semana seguinte é importante, algo a ser desfrutado e muito diferente do que acontece com um filme normal”, afirmou. “Quanto a acompanhar a viagem de Charlie, eu quis que ela tivesse um encontro muito forte no final de cada episódio”.

Mais do que o sexo e a violência, pelos quais Park é conhecido, “The Little Drummer Girl” mostra a genialidade do diretor na composição visual e na ordem Desde os vestidos de cores primárias de Charlie às amplas panorâmicas da acrópole à noite, cada detalhe conta uma história.

“Eu quis me afastar das cores fúnebres sem graça que se imaginaria para o gênero espionagem”, ele disse. “Esta é uma história sobre uma mulher, não um militar, uma atriz, e eu queria essa vitalidade e essa vida visualmente falando”.

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