A declaração de Maju sobre não querer filhos levanta um debate necessário

Maju Coutinho, apresentadora de meteorologia e jornalismo da TV Globo, disse que não pretende ter filhos. A declaração foi feita no programa Papo de Almoço, da Rádio Globo.

A fala de Maju é importante para acabar com a ideia de que a mulher nasce pra ser mãe

“Eu não tenho vontade de ser mãe. Mas gosto de crianças, porque, às vezes, tem essa ideia [que quem não quer engravidar não gosta de crianças]. Não tem nada a ver. Eu gosto delas e elas gostam de mim. Mas é outro lance, não sei explicar muito bem o que é. Não sinto vontade de ser mãe. É de dentro”, revelou.

A revelação causou surpresa e isso diz muito sobre o papel da mulher na sociedade. Como a própria Maju pontuou, não se trata de gostar ou não de crianças. Na verdade, a jornalista casada há oito anos com o publicitário Agostinho Paulo Moura, se despiu de obrigações impostas por uma cultura machista.

“A gente está bem tranquilo em relação a isso. Se for acontecer, tudo bem, um dia a gente pode ter. Mas não estamos apressados”, pontua.

A necessidade do esclarecimento não é exclusividade apenas de Maju. Pelo contrário. A psicóloga Liediani Medeirs Souza escreveu sobre o assunto no Blogueiras Feministas. Ela começa o artigo tratando da quase obrigatoriedade de ser mãe.

“Por que o seu desejo tem que ser o meu? Todos temos sonhos, desejos e conquistas que perseguimos. Dependendo do contexto, da situação familiar e política. Casar e ter filhos são apenas dois deles e que são, geralmente, entendidos (ou ensinados) como tipicamente femininos. Mas existem tantos outros. Viajar, ter uma carreira, comprar um carro, ser ativista, adotar animais, passar em um concurso público e ter estabilidade. Um sonho, mesmo quando compartilhado com outras pessoas ao redor do globo, é inerentemente individual. Não é porque eu desejo algo, que necessariamente todos tem que querer o mesmo”.

É preciso ouvir mais. Mas não só isso, tem que mudar o repertório. Não dá pra, em pleno 2018, causar espanto uma mulher que não deseja se casar ou ter filhos.

“Se aquela mulher não se casar ou não tiver filhos, Ela não casou e não teve filhos! Você pode fazer essas duas coisas, nada o impede. Surpresa! Somos seres individuais Quando se trata da vida afetiva de uma mulher e das escolhas que ela faz, essa proposição é invalidada. Muitos se acham no direito (e até no dever) de avaliar, julgar e doutrinar àquela para que se comporte adequadamente, voltando ao modelo. O que isso muda na vida daquele que se intromete? Posso dizer que pouco ou até nada.”

Mães arrependidas

A análise esbarra em um novo conceito, o de mulheres que pretendem apagar a experiência da maternidade em suas vidas. O livro Mães Arrependidasescrito pela socióloga israelense Orna Donath, apresenta o depoimento de 23 mulheres de Israel que não rejeitaram a maternidade, mas que, se pudessem voltar no tempo, o fariam.

“Ouvir cuidadosamente as mães arrependidas, sem estigmatizá-las como irresponsáveis, nocivas, desleixadas ou loucas pode reduzir o sofrimento na vida delas e na vida dos seus filhos. Também pode dar mais espaço de manobra às mulheres que não são ou não sabem se querem ser mães – para que possam decidir por conta própria, já que apenas elas sabem o que querem ou o que não querem; o que são capazes ou não de fazer, e são as únicas que melhor sabem quais são as suas circunstâncias sociais”, disse a socióloga em entrevista à revista Cult

Tal como o grupo de ‘mães arrependidas’, as NoMo também não pretender ter filhos. Simplesmente não. Preferem cuidar da carreira ou talvez outros aspectos da vida pessoal.

“Não sou mãe, sou gente”, ressalta à revista Serafina a cantora Karina Buhr. 

A sigla foi inventada pelas inglesas da Gateway Women, organização sediada no Reino Unido para apoiar mulheres sem filhos. É um movimento pela liberdade de escolha. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que no Brasil, apenas 14% das mulheres não têm planos de engravidar. [Hypeness]

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