Entenda por que o Brasil não disputa o Oscar de filme estrangeiro desde 1999

Método de escolha brasileiro e perfil da Academia ajudam a explicar insucesso

Fernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira em cena de ‘Central do Brasil’, de Walter Salles, último filme a obter a indicação ao Oscar, em 1999 /Divulgação

Em março, o Brasil completa 20 anos desde que disputou o Oscar de filme estrangeiro pela última vez. Quando saiu o anúncio de que o representante deste ano, “O Grande Circo Místico”, não estava entre os nove longas semifinalistas, as redes sociais foram tomadas por comentários de que “o cinema brasileiro só produz porcaria”. 

Explicar o infortúnio, e compará-lo ao desempenho da Argentina, que emplacou quatro indicações e uma vitória no período, vai além de botar a culpa na qualidade. Envolve rever mecanismos de escolha, levar em conta particularidades americanas e não dar as costas para o prestígio de festivais como Cannes e Berlim. 

Até porque filmes brasileiros apareceram na cerimônia de outras formas. Em março deste ano, o Brasil esteve entre os produtores de “Me Chame pelo Seu Nome”, que disputou quatro estatuetas, incluindo a de melhor filme. Em 2004, “Cidade de Deus” disputou outras quatro. Em 2016, “O Menino e o Mundo” concorreu como animação.

Nos anos 1990, o Brasil apareceu bastante na categoria de filme estrangeiro. Três longas foram indicados —“O Quatrilho”, “O Que É Isso, Companheiro?” e “Central do Brasil”. 

Pesquisador do audiovisual, André Gatti tem um palpite para isso. Era a época em que os estúdios queriam desbravar o ascendente mercado nacional de salas multiplex. Hollywood, afirma, tinha interesse em afagar os brasileiros.

De lá para cá, houve baixas. A Miramax, poderosa agente de lobby no Oscar, foi vendida em 2010. A empresa foi importante para ajudar o país com “Cidade de Deus”, por exemplo. 

Há outros fatores. O sistema para escolher o representante nacional está nas mãos do Ministério da Cultura. Até 2017, a escolha era feita por comissão indicada pela Secretaria do Audiovisual. A crítica era que as decisões poderiam ter motivação política.

Há oito anos, a obra escolhida foi “Lula, o Filho do Brasil”, cinebiografia chapa-branca sobre o ex-presidente que teve avaliações ruins da crítica.

Em 2016, houve um caso já folclórico. “Aquarius”, que tinha sido a produção nacional mais destacada no exterior, foi preterido por “Pequeno Segredo”, que nem sequer havia estreado no circuito brasileiro. 
À época, o setor apontou revanche política já que, meses antes, em Cannes, o diretor de “Aquarius”, Kleber Mendonça Filho, protestou contra o impeachment de Dilma.

“Era um chute anual”, afirma Eduardo Valente, ex-assessor internacional da Ancine e delegado do cinema brasileiro no Festival de Berlim. “As comissões não tinham um pensamento estratégico porque mudavam anualmente.”

Hoje, a eleição cabe à Academia Brasileira de Cinema, que tampouco está imune a críticas. A organização, composta por profissionais que pagam valores para se associarem, concede o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, sem muita relevância e extemporâneo.

A entidade foi quem escolheu “O Grande Circo Místico”. O filme tem diretor de peso e de trânsito político, Cacá Diegues. Mas a obra teve recepção morna, ao contrário dos elogiados “Benzinho”, “Ferrugem” e “As Boas Maneiras”.

Se há insucesso no Oscar, a tendência não se repete em festivais internacionais, inclusive nos mais prestigiosos. 

Em 20 anos, o Brasil disputou oito vezes a Palma de Ouro em Cannes, principal mostra de cinema do mundo, concorreu o mesmo número de vezes ao Urso de Ouro em Berlim, onde foi vencedor duas vezes desse que é um dos principais prêmios dos filmes de arte.

A Argentina ganhou um Urso de Ouro e foi com “Tropa de Elite”, filme brasileiro que tem coprodutores do país vizinho. 

“A presença nacional nos festivais é imensa. Só que esses filmes nem sempre têm o perfil da Academia”, afirma André Sturm, secretário municipal de Cultura em São Paulo e fundador do programa Cinema do Brasil, que promove produções do país no mundo.

Quando se tomam os 20 últimos vencedores de Oscar estrangeiro, certos temas predominam. O Holocausto está presente em quatro; cicatrizes de guerra, em outros três —assuntos que, culturalmente, têm mais ressonância nos Estados Unidos do que no Brasil.

A votação dos semifinalistas ao Oscar na categoria também é intrincada e diferente. 

Há, em Los Angeles, um comitê de 300 pessoas, que veem todos os filmes para escolher seis deles. Como o grupo é assediado pelos agentes das produções, o Oscar institui que as outras três vagas sejam definidas por outro grupo, formado por membros antigos e com mais tempo de sobra. 

Indicação, aliás, turbina renda. Após o anúncio da nomeação de “Central do Brasil”, em 1999, a bilheteria do longa aumentou 114% na semana seguinte. É o tipo de dado que dá brecha à discussão do fomento público ao cinema.

Neste ano, o Fundo Setorial do Audiovisual desembolsou R$ 347,9 milhões na produção do país —mais do que a Argentina, que nos nove primeiros meses de 2018 investiu R$ 67,2 milhões. Por mês, seria um pouco mais do que um quarto do gasto brasileiro.

O país vizinho lançou mais filmes —165 nos nove primeiros meses, ante 139 do Brasil em dez. Isso não significa, entretanto, que se gaste muito e que se tenha pouco retorno. 

Aqui é mais comum que longas nacionais batam a marca do milhão de espectadores. Em 2018, a expectativa é que quatro superem; na Argentina, só um. Mas há que se considerar que o público de cinema no Brasil é 2,8 vezes maior. Nos dois casos, a porcentagem do público abocanhada por produções locais é de 15%. 

Nem tudo está perdido para o Brasil neste Oscar. Depois de uma elogiada passagem pelo Festival de Toronto, “Tito e os Pássaros”, de Gustavo Steinberg, André Catoto e Gabriel Bitar, está entre os 25 semifinalistas em longa de animação. [Guilherme Genestreti]

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