Casa com formato inusitado se camufla em bosque no Chile

Mimetizada num bosque de carvalhos quase centenários em Vilches, a casa de campo do arquiteto Smiljan Radic serpenteia entre as árvores como se estivesse ali desde sempre
Texto Marianne Wenzel I Fotos Cristóbal Palma

Além de detalhes do concreto pintado de preto, é possível ver o formato pouco usual das claraboias, pensadas em função do visual externo – uma delas enfoca uma árvore próxima, outra mira uma montanha, e a terceira se volta para o céu: “Este jeito vertical de relacionar a casa com a paisagem, quase uma via de escape, foge do óbvio”, explica Smiljan

Dois ritmos regulam nosso destino: um sol nasce, um sol se põe, um sol nasce novamente. Assim termina o Poema do Ângulo Reto (1947 -1953), escrito por Le Corbusier, ilustrado com 19 litografias também feitas por ele – uma espécie de manifesto artístico sobre sua visão de mundo e, claro, da arquitetura.

A planta do imóvel se distribui ao redor de um pátio interno e se desenvolve como uma galeria, sem ambientes fechados

A ideia da continuidade irrefreável do tempo, em geral, e um dos desenhos dessa série, em particular, inspiraram o arquiteto chileno Smiljan Radic quando ele e sua mulher decidiram reconstruir seu refúgio de campo em Vilches, 300 km ao sul de Santiago, depois de o terremoto de 2010 ter reduzido a ruínas o velho chalé da família.

“Não pudemos aproveitar nada da casa antiga, pois ela foi inteira ao chão. Só restaram as memórias”, recorda Smiljan. De qualquer modo, a vida útil da residência típica de montanha, erguida nos anos 1960, já havia se esgotado, segundo ele. Por meio da imponderável força da natureza, abriu-se espaço para o novo.

Na interpretação própria de Smiljan, surgiu a oportunidade de estabelecer uma relação mais íntima com aquele cenário. Dessa maneira, com a lembrança da litografia de Le Corbusier que mostra um casal descansando numa caverna, o chileno definiu não a forma, mas a ambiência do refúgio.

O jardim de rochas, montado por Marcela Correa, busca passar a ideia de permanência: “Ele evoca um tempo arqueológico, ancestral”, diz o arquiteto, que sempre pesquisa formas de incorporar rochas brutas a seus projetos

“Imaginei uma casa opaca, introvertida, com poucas aberturas e o mínimo de interferência no bosque. Não estávamos muito preocupados como que se passa lá fora, porque já conhecemos bem o entorno. Não temos a necessidade de permanecer em contato com a natureza o tempo todo. Convivemos com ela de outros jeitos”, fala.

Além do fogão a lenha da cozinha, a lareira da sala aquece a morada de 160 m², feita sob medida para o descanso no fim de semana

Completada em um ano e meio, a morada de concreto foi moldada manualmente por dois mestres de obra orientados pessoalmente por Smiljan, que gosta de se envolver na execução de seus projetos. “Por se tratar de um local isolado, as betoneiras não conseguiam chegar ao terreno. Por isso, o concreto foi misturado à mão, quase como em uma autoconstrução. Os dois pedreiros não conheciam esse método, foi um processo de ensino e aprendizagem mútuos”, conta ele.

A madeira e o piso claros, as aberturas para o pátio interno e as claraboias iluminam o interior da casa, num forte contraste com seu exterior – “O cedro é uma madeira muito perfumada, traz um aroma bastante agradável para os ambientes”, diz o arquiteto

Com a pintura negra, as paredes externas de concreto resultam sóbrias, como se não quisessem sobressair em meio ao bosque de carvalhos quase centenários. Por dentro, a sensação muda: a fortaleza que se vê de fora converte-se num espaço transparente. “A contradição entre a opacidade externa e a fluidez interna sempre aparece nos meus trabalhos”, observa o arquiteto, cuja realização mais aclamada internacionalmente foi o pavilhão temporário da Serpentine Gallery, em Londres, em 2014.

Sob a maior das três claraboias, obra de Marcela Correa, escultora, mulher de Smiljan: um móbile de madeira retorcida cujo desenho remete ao de uma nuvem, elemento presente na litografia de Le Corbusier que inspirou o projeto

“Nas fotos, a casa parece complexa. Mas ela é muito doméstica, funciona bem em seus 160 m², uma área possível de aquecer rapidamente quando chegamos para passar o fim de semana. Ela guarda uma conexão direta com a litografia de Corbusier, mas se trata somente de uma referência, que não aumenta nem diminui seu valor”, sublinha. “Para nós, é apenas um lugar onde gostamos de perder tempo.” Simples assim.

O quarto do casal é o único ambiente que permite comunicar-se escancaradamente com a natureza, numa espécie de arroubo visual calculado

É possível ver, em um único recorte, os acabamentos da construção: concreto pintado de negro, cimento queimado, assoalho de madeira no piso e paredes internas brancas ou revestidas de cedro

Ao encaixar-se cuidadosamente entre árvores quase centenárias, o refúgio passa a impressão de que existe há mais tempo – ele ocupa um pequeno platô logo abaixo do topo da colina, um ensinamento de Frank Lloyd Wright para evitar interferência excessiva no entorno

Questionado sobre o minimalismo dos interiores, Smiljan afirma: “A casa está equipada com o que precisamos para passar alguns dias, não mais do que isso”
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