Anne Hathaway estrela ‘Calmaria’, como mulher que manda matar o marido

Atriz dos papéis cômicos e que seu filho odeia a voz da vencedora do Oscar em ‘Os Miseráveis’
Kathryn Shattuck THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

Anne. Em ‘Calmaria’, ela surpreende como a femme fatale Karen  Foto: DIAMOND FILMS

Em 20 anos de carreira, Anne Hathaway está acostumada a ser escolhida para o elenco de um filme de uma certa maneira. “Normalmente, não mandam papéis que são definidos pelo olhar masculino”, disse ela. “Em geral, eu recebo papéis de mulheres que vivem e pensam por conta própria – na mesma medida em que o fazemos neste mundo muito doente.”

Mas à primeira vista em Calmaria (Serenity), thriller noir do britânico Steven Knight, que está previsto para estrear no Brasil em 28 de fevereiro, a personagem de Hathaway parece ter passado toda a sua vida atendendo os prazeres dos homens. Como Karen, Hathaway faz uma entrada impressionante – longos cabelos loiros e olhos expressivos, uma femme fatale de branco – no único bar em Plymouth Island. E ela tem uma proposta para seu ex (Matthew McConaughey), um capitão de barco em dificuldades, que tem um passado que quer a todo custo esconder: levar seu novo marido, violento (Jason Clarke, de O Primeiro Homem), para pescar, depois deixá-lo no oceano para os tubarões, em troca de US$ 10 milhões.

É a primeira entrada em um grande ano para Hathaway, que roubou o show de Sandra Bullock e Cate Blanchett no Oito Mulheres e Um Segredo da primavera passada. Em maio, ela aparecerá em The Hustle, um remake centrado em Os Safados, com Rebel Wilson, seguido de The Last Thing He Wanted (A última coisa que ele queria, em tradução literal), adaptação de Dee Rees do romance de Joan Didion, sobre uma repórter que virou comerciante de armas, e Modern Love, uma série da Amazon derivada da coluna do The New York Times.

Quando não está no set, Hathaway, 36 anos, mora em Nova York com seu marido, o produtor, ator e designer de joias Adam Shulman, e seu filho Jonathan, de 2 anos e 9 meses. (“Ele é uma delícia”, ela disse, suspirando profundamente. “Há esses momentos em que eles se aconchegam em você só porque eles querem.”)

Telefonando de um local de férias da família em algum ponto ao norte de Los Angeles, Hathaway falou sobre outras atrizes e a câmara de eco dos homens de Hollywood.

Aqui estão trechos editados da conversa.

Karen é uma mudança dramática nos papéis em que estamos acostumados a ver você. Você topou de imediato?
Fiquei muito surpresa quando recebi o roteiro de Calmaria e descobri que Steven (Knight) me queria. Eu estava muito honrada e mal podia esperar para arregaçar as mangas e tingir meu cabelo.

Nós sabemos que os segredos se escondem em Plymouth Island e não haverá spoilers aqui. Mas qual foi sua reação com relação ao roteiro quando você leu pela primeira vez?
Ah, ele nocauteia você. Eu fiquei na ponta da cadeira ao ler. Era difícil esperar para virar a página e ver o que estava por vir, pois foi se tornando mais surreal e emocionante. Eu realmente amo fazer parte de filmes provocativos, que exigem certa atenção do público, um certo nível de maturidade dos espectadores. Uma das minhas coisas favoritas sobre Calmaria foi como eu me senti provocada por isso, tanto na minha mente como na boca do meu estômago.

No fim desta primavera, você estava interpretando uma vigarista de alta classe na comédia The Hustle. Você precisou de um empurrão para enfrentar a escuridão de Calmaria?
Você sabe, eu nunca pensei que seria capaz de dizer o que estou prestes a dizer: eu fiz isso por diversão. Parecia que ia ser o máximo, e na maior parte foi mesmo.

Principalmente?
Eu estava um pouco tranquila demais, confiante de que seria capaz de convencer os poderes de que minha personagem não deveria ser britânica, ela deveria ser americana. Eu pensei que ia ganhar essa, até o dia antes das filmagens. Então, fui encarregada de fazer a coisa que é mais difícil do mundo para mim, que foi adotar um sotaque britânico. De repente, fui, de achar que estava com um foguete amarrado nas costas, para a sensação de estar em uma corda bamba sem rede.

Você parece gostar de uma aventura cômica, como Daphne Kluger, a atriz narcisista de Oito Mulheres e um Segredo. De que lugar desvairado você a tirou?
Bem, para entrar nessa personagem firmemente, me diverti ao aplicar muitas observações que fiz ao longo dos últimos 20 anos sobre o incrivelmente ridículo mundo das celebridades. Daphne Kluger era apenas uma viagem. Eu adorei interpretar alguém que fosse tão transparente e, ao mesmo tempo, tão cega sobre si mesma.

Você entrou em Oito Mulheres e um Segredo dizendo: “Não se envergonhe na frente de seus heróis”. Com o que você estava tão preocupada?
Ah, eu estava preocupada mesmo. Achei que todos iriam gostar uns dos outros e, secretamente, não gostariam de mim e eu ficaria meio de fora. No passado, deixei a empolgação assumir o controle de mim, e eu só queria sentar e aproveitar a experiência, e não tentar preenchê-la com meu próprio entusiasmo, mas perceber o quão glorioso era estar na presença de tantas rainhas.

Você sempre contou a história de como estava nervosa perto de Meryl Streep em O Diabo Veste Prada – e aqui estou eu, de repente me sentindo meio constrangida na sua presença.
Oh, céus, não, tenha uma ambição maior. (Risos)

Mas, falando sério, há alguém agora que possa intimidá-la?
Sim. Comecei a chorar quando conheci Julia Roberts, e isso não foi há 20 anos. É uma história recente. É uma coisa estranha encontrar-se meio discreta, em um lugar onde você não nasceu, onde você não tem motivos para se imaginar e, ainda assim, de alguma forma, aí está você. Isso às vezes produz – como eu digo isso? – estranheza e esquisitice. E eu estou aprendendo a dizer obrigada e não dar tanta importância a tudo e me divertir.

No Instagram, você citou um estudo recente que descobriu que os filmes liderados por mulheres ganham mais do que os que têm protagonistas masculinos – e, no entanto, a desigualdade salarial ainda é um grande problema.
A razão pela qual penso que haja resistência é que Hollywood está sempre repleta de homens que se descrevem como bons, mas que têm estado em câmaras de eco cheias de outros homens que se parecem e pensam como eles. Isso não torna tais homens ruins, mas significa que as conversas que ocorrem nos níveis mais elevados de poder são, por padrão, limitadas.

Olhando para sua vitória do Oscar de 2012, interpretando Fantine em Os Miseráveis, lembrei de sua bela voz. Você tem cantado muito hoje em dia?
Meu filho odeia minha voz. (Gargalhadas) Ele não gosta quando eu canto. Então não, eu realmente não estou cantando. Há algumas músicas da (desenho animado infantil) Peppa Pig que ele me deixa cantar e juro, eu me dedico muito a isso. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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