TransferWise quer fazer remessas de dinheiro mais simples

Fundada em 2011, startup da Estônia abre escritório no Brasil de olho em alta demanda; desde 2016, empresa já movimentou R$ 5 bilhões no País

TransferWise foi criada por Kristo Käärman, que sofria com as taxas do câmbio

Transferir dinheiro para fora do Brasil ou receber uma remessa internacional é uma tarefa complicada, demorada e cara – em alguns bancos, só as tarifas cobradas, sem contar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) podem chegar a mais de R$ 350. No entanto, ganha força no mercado uma alternativa digital para esse tipo de serviço: a TransferWise, startup da Estônia que acaba de abrir um escritório em São Paulo – é o 11º da empresa, fundada em 2011, no mundo.

A vantagem competitiva da empresa, que cobra tarifas de R$ 23,60 para cada remessa, além do IOF, é a tecnologia: ao invés de realizar uma transferência passando por fronteiras, a startup faz compensações em contas bancárias locais. “No nosso sistema, o dinheiro não sai de um país. Ele só acha uma transação equivalente”, explica ao Estado Kristo Käärman, fundador e presidente executivo da empresa, que a criou por uma necessidade própria – ao se mudar para Londres, em 2007, ele recebia em libras, mas perdia dinheiro ao mandar remessas para a Estônia, onde tinha um financiamento imobiliário. Achou a solução ao trocar dinheiro com o hoje sócio Taavet Hinrikus, um dos primeiros funcionários do Skype.

Desde que passou a operar no Brasil, em 2016, a TransferWise já movimentou R$ 5 bilhões por aqui – hoje, o País é um dos cinco maiores clientes da startup, que atua por aqui em parceria com dois bancos. No mundo, a empresa tem 4 milhões de usuários e transaciona US$ 4 bilhões por mês, em 1,3 mil rotas comerciais e 49 moedas diferentes. Os números impressionam até concorrentes tradicionais do mercado, como a Western Union e bancos tradicionais. “Eles poderiam ter feito algo parecido há trinta anos, mas não fizeram”, diz o executivo. “Mas acredito que precisarão se adaptar: o dinheiro está cada vez mais digital.”

Na entrevista ao Estado, Käärman fala mais sobre como a TransferWise funciona e como a tecnologia auxilia a empresa – em mercados onde está há mais tempo, as transferências chegam a ser feitas em questão de segundos. Além disso, discorre sobre a fama da Estônia (um dos país com governos mais digitais do mundo) e como a ascensão do nacionalismo pelo mundo afeta sua empresa.

O Estado de S. Paulo: O que é a TransferWise?
Kristo Käärman: O melhor jeito de entender a TransferWise é saber como nós começamos. Sou da Estônia e fui, em 2007, trabalhar em Londres. Eu recebia em libras, mas minha conta bancária e meus gastos estavam em euros, na Estônia. Quando precisei mandar meu salário para casa, achei que só precisaria converter o dinheiro – mas acabei perdendo 500 euros na conversão. Me senti estúpido quando descobri que os bancos faziam uma conversão bem diferente do que eu consultei no Google. Tentei buscar alternativas, mas todos faziam a mesma coisa. Até que conheci o Taavet, que tinha o problema oposto: ele recebia em euros, mas morava em Londres e gastava em libras. Começamos a trocar o dinheiro entre nós – eu depositava minhas libras para ele em Londres e ele me devolvia o pagamento em euros, na Estônia. Deu tão certo que sugerimos o mesmo para nossos amigos, até percebemos que era um problema global – não só para estonianos em Londres, mas para brasileiros em Lisboa ou nigerianos no Brasil. A diferença de lá para cá é que hoje, trabalhamos com contas bancárias e um sistema organizado, mas o princípio é o mesmo: no nosso sistema, o dinheiro não sai de um país, ele só acha uma transação equivalente.

E o que acontece quando há uma diferença de fluxo?
É aí que nosso tesouro entra: nós balanceamos a quantidade de dinheiro fazendo operações no mercado de varejo. É algo que nos custa dinheiro, mas acreditamos que vale a pena porque é assim que conseguimos fazer as pessoas terem dinheiro de forma rápida. E, com tecnologia, estamos cada vez mais eficientes.

Mas é um serviço regulado?
Transferir dinheiro das pessoas é uma atividade regulada e exige confiança dos consumidores. Conseguimos a regulação para operar em Londres em 2010 e lançamos o serviço em 2011. O apoio legal era base para nossa operação. É por isso que não estamos em todos os países do mundo – operamos em 49 moedas, em mais de 1,3 mil rotas de câmbio. Cada lugar tem um jeito de dar certo: no Brasil, precisamos de uma parceria com bancos locais (Banco Rendimento e M.S. Bank). É uma regra brasileira: na maior parte dos lugares, precisamos apenas de licenças.

Se o processo é o mesmo desde a criação, onde está a tecnologia? Como vocês inovam?
Nossos clientes ligam muito para três coisas: rapidez, custos e conveniência. Hoje, 15% das nossas transferências internacionais, de um banco a outro, demora menos de 20 segundos. É algo que conseguimos na Europa ou em Hong Kong – e que demanda tecnologia. Infelizmente não chegamos a esse ponto no Brasil. Conforme ganhamos escala e infraestrutura, também conseguimos reduzir os custos. E investimos em tecnologia para ter uma plataforma mais fácil de ser usada. Além disso, investimos em transparência. Na minha história, se o banco me contasse que suas taxas eram diferentes do mercado, eu não ficaria tão bravo – e talvez não tivesse fundado a empresa. É uma questão de cultura, não de tecnologia, porém.

O que impede os grandes bancos ou a Western Union de fazer um sistema igual ao de vocês?
Nada. Eles poderiam ter feito isso nos últimos trinta anos, ou ao menos desde que nós fomos criados. Mas é bom lembrar que, tirando algumas exceções, bancos são negócios locais. Quanto à Western Union, é uma empresa que respeito muito, porque eles lidam com papel-moeda. Eles fazem dinheiro sair de uma esquina em Fortaleza e chegar numa portinha em Lagos, na Nigéria, com eficiência. Acredito que há um mercado para o que eles fazem, embora o dinheiro vá ficar cada vez mais digital. Será preciso se adaptar.

Vocês acabaram de abrir um escritório no Brasil. O que acham do País?
Vemos grandes oportunidades. Antes de começarmos a operar aí, em 2016, o Brasil era um dos países mais pedidos pelos usuários em nosso site. Havia muita demanda. Desde que chegamos, já movimentamos R$ 5 bilhões. É muita coisa. Além disso, o Brasil está hoje no top 5 entre os países com mais usuários da TransferWise – hoje, temos 4 milhões de pessoas.

A TransferWise opera um negócio que lida diretamente com fronteiras. Hoje, o mundo vive uma onda nacionalista. Como isso afeta vocês?
Política não é meu forte. Respeito governos democraticamente eleitos, é o direito das pessoas escolherem seus políticos. Mas hoje, o mundo está cada vez mais global. Qualquer empresa que nasce hoje tem uma ambição global – a menos que ela tenha uma restrição física, como um restaurante ou uma casa noturna. Além disso, as forças de trabalho são cada vez mais internacionais: hoje, pode até se tornar mais difícil que alguém migre para os EUA, mas é cada vez mais fácil trabalhar à distância e prestar serviços para empresas em outro país. A internet fez os bens, os serviços, o comércio, tudo se mover globalmente. Em 2017, segundo o Banco Mundial, as remessas internacionais cresceram 7%; nesse ano, a previsão é de mais 4,6%. O mundo está se tornando mais próximo.

A Estônia é um país pouco conhecido – mas tem se tornado referência quanto à digitalização, com eleições online e documentos de identidade digitais. Como o sr. vê o país?
Em 1991, quando a União Soviética colapsou, a Estônia voltou a ser independente. Mais que isso: sofremos um choque de economia moderna, tivemos de começar do zero. Tivemos sorte: na virada do século, pessoas inteligentes perceberam a importância de estarmos conectados à internet. Quando o governo desenhou como seria o país, tudo já foi desenhado de forma digital. Hoje, o governo é online – e, por consequência, as empresas também são. Como país pequeno, conseguimos nos gerenciar bem. Mas não podemos deixar a peteca cair e nos dar ao luxo de acharmos que seremos referência para sempre. As coisas evoluem muito rápido.


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