Mulheres afegãs temem que paz com o Taleban signifique guerra contra elas

Grupo negocia acordo com os EUA e o governo do Afeganistão

Rob Nordland Fatima Faizi

Jovens afegãs se preparam para participar de festival de dança em Cabul – Rahmat Alizadah – 24.jan.2019/Xinhua

CABUL – Quando Rahima Jami ouviu dizer que os americanos e o Taleban estavam próximos de um acordo de paz, ela pensou sobre seus pés.

Jami hoje é legisladora no Parlamento afegão, mas em 1996, quando os insurgentes do Taleban tomaram o poder, ela era diretora de escola – até que foi forçada a deixar o emprego, e informada de que só poderia sair de casa usando uma burca que a cobrisse até os tornozelos.

Certo dia de calor, no mercado, seus pés estavam visíveis, e por isso a polícia religiosa a surrou com um chicote até que ela mal conseguia se manter em pé.

Histórias sobre os horrores infligidos pelo Comitê da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, criado pelo Taleban, são comuns entre todas as mulheres afegãs com boa escolaridade e idade superior a 25 
anos. Agora, elas têm uma nova história de horror: a possibilidade de que as tropas americanas deixem o Afeganistão como parte de um acordo de paz com o Taleban.

Seis dias de negociações, encerradas no sábado com a promessa de uma retomada para breve, deixaram as duas partes mais próximas de um acordo do que em qualquer outro momento dos 17 anos desde que o Taleban foi tirado do poder.

A simples possibilidade de progresso concreto quanto à paz gerou uma onda de entusiasmo e esperança entre muitos afegãos, de todos as correntes políticas, quanto ao possível fim de quase quatro décadas de guerra ininterrupta.

Para muitas mulheres, porém, a esperança despertada pelo possível fim dos combates vem combinada a um sentimento inegável de pavor.

“Não queremos uma paz que torne a situação pior do que a atual, quanto aos direitos da mulher”, disse Robina Hamdard, diretora do departamento jurídico da Rede das Mulheres Afegãs. A organização é uma coalizão, bancada por verbas internacionais, entre importantes entidades de defesa da mulher no país.

Ninguém precisa convencer as mulheres afegãs da necessidade de pôr fim ao derramamento de sangue. Elas sepultaram número imenso de maridos, filhos e irmãos. Mas temem que uma paz que confira poder ao Taleban possa prenunciar uma nova guerra contra as mulheres, e querem que os negociadores não as esqueçam.

“As mulheres afegãs também querem a paz”, disse Jami. “Mas não a qualquer custo”.

Quando recorda a ocasião em que foi surrada, diz, “as lembranças me deixam a ponto de perder os sentidos”.

E como muitas mulheres, Jami está convencida de que qualquer acordo de paz que dê parte do poder ao Taleban virá à custa da liberdade das mulheres afegãs. “Quando essa hora chegar, eles completarão seus sonhos incompletos, e serão mais cruéis do que no passado”, disse Jami.

Para agravar essa preocupação, existe temor entre as mulheres de que tenham sido marginalizadas no processo de paz, e de que quando os afegãos enfim se sentarem à mesa para negociar a paz, não haverá 
mulheres presentes.

“Não queremos ser vítimas do processo de paz com o Taleban”, disse Laila Haidari, empreendedora que também trabalha com assistência a viciados em drogas.

O trabalho de Haidari não teria sido autorizado sob o regime do Taleban, período em que ela viveu exilada no Irã. “Mas o governo do Afeganistão ignora totalmente as mulheres afegãs no processo de paz”, ela diz.
Shukria Paykan, outra legisladora, recorda ter passado os anos do Taleban “forçada a viver dentro de uma caverna escura sempre que saía de casa – estou falando da burca”.

O processo de paz está apenas começando, e as negociações da semana passada em Doha, no Qatar, não incluíram quaisquer representantes oficiais do governo do Afeganistão – homens ou mulheres.

As autoridades dos Estados Unidos esperam persuadir o Taleban a negociar diretamente com representantes do governo, posteriormente, o que o movimento se recusa a fazer, e questões como a constituição, que garante os direitos da mulher, estariam em debate, então.

Algumas mulheres que têm postos no governo expressaram satisfação por as negociações terem ao menos começado. “As mulheres precisam erguer suas vozes para não serem esquecidas”, disse Habiba Sarabi, membro do Alto Conselho da Paz em Cabul – uma das 15 mulheres no organismo de 75 integrantes, apontado pelo governo. “Sem as mulheres, será uma paz inviável, Mas estamos otimistas quanto às negociações de paz”.

Saira Sharif, poeta e líder política na província afegã de Khost, disse que os esforços anteriores de negociação entre o governo e o Taleban excluíram as mulheres.

“O governo afegão garantiu às mulheres muitas vezes que os direitos da mulher não serão afetados negativamente depois de um acordo de paz com o Taleban”, ela disse. “Mas as mulheres não estiveram envolvidas em negociações anteriores com o Taleban e precisamos participar no futuro. 

Percorremos um longo caminho para conquistar os direitos que temos agora, e não queremos perdê-los depois de um acordo de paz”. Ryan Crocker, que foi embaixador dos Estados Unidos no Afeganistão, 
tinha um posto diplomático chave em Cabul em janeiro de 2002, e ajudou a estabelecer o primeiro governo pós-Taleban no país. “Conferimos muita importância às mulheres já desde o começo”, ele disse. “Uma das 
primeiras coisas que fizemos foi colocar escolas para meninas em operação”.

Crocker disse que estava preocupado com a possibilidade de que a retirada das tropas americanas tenha consequências negativas, não importa qual venha a ser o papel do Taleban.

“O que realmente me incomoda é – o que vai acontecer às mulheres e meninas afegãs?”, ele disse. “A misoginia aguda no Afeganistão vai bem além do Taleban. Sem uma mão forte dos Estados Unidos no país, as coisas não ficarão boas para mulheres do Afeganistão. Eles poderão fazer o que 
quiserem com elas quando partirmos”.
 THE NEW YORK TIMES

Tradução de Paulo Migliacci.

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