Há 50 anos, os Beatles faziam seu último show num terraço em Londres

A separação era uma questão de tempo quando a banda fez a mítica apresentação-surpresa em 30 de janeiro de 1969
Silvio Essinger

Show surpresa sobre o telhado da Apple, no centro de Londres, realizado em 30 de janeiro de 1969 Divulgação /

Nem foi o primeiro show de uma grande banda de rock no topo de um prédio — pouco antes, em dezembro de 1968, os americanos do Jefferson Airplane conseguiram tocar uma música em cima do Schuyler Hotel, em Nova York, antes que a polícia acabasse com a festa. Mas como tudo que se refere à maior banda de rock de todos os tempos, a apresentação que os Beatles fizeram de surpresa há exatos 50 anos no alto do edifício do escritório de sua empresa, a Apple, em Londres, acabou sendo a mais conhecida, a mais icônica de todas.

E com muita razão: aquela seria a última vez que a banda tocaria em público (ou quase isso), depois de quase três anos fora dos palcos. Ao longo de seus meros 42 minutos de duração, o improvisado show explicitaria o que muitos hesitavam em admitir: que o fim dos Beatles era uma questão de (pouco) tempo.

Assolados por toda sorte de pressão comercial e de desgaste nas relações entre os integrantes, os Beatles estavam empenhados, naquele janeiro de 1969, em produzir um disco e filme que capturasse a verdade do seu processo criativo, sem artifícios de estúdio (que possibilitaram a sua obra-prima, “Sgt. Pepper’s”, de 1967), numa volta ao rock’n’roll puro do começo da carreira.

Daí veio a ideia de gravar algo ao vivo, num espaço amplo, que não lembrasse um estúdio. Pensou-se em antigos teatros, um navio de cruzeiro e mesmo o deserto do Saara. Ninguém concorda sobre de quem foi a ideia do terraço da Apple, no endereço 3 Savile Row — mas era de fato o que de mais em mão havia para se armar uma gravação em cima da hora (o equipamento já estava todo no porão do prédio, não haveria problemas quanto a isso).

“Fomos ao telhado para resolver a ideia do show ao vivo, porque era muito mais simples do que ir a qualquer outro lugar; também ninguém nunca fez isso”, justificou-se o beatle George Harrison mais tarde. “Então seria interessante ver o que acontecia quando começamos a tocar lá. Foi um bom estudo social.”

Fazia muito frio e o vento era cortante em Londres por volta do meio-dia naquela quinta-feira, dia 30 de janeiro de 1969, quando George, John Lennon, Paul McCartney, Ringo Starr e o tecladista convidado Billy Preston (americano que eles conheceram em 1962, quando excursionaram com Little Richard) soltaram os primeiros acordes. Encasacados e com as mãos geladas, os Beatles tiveram seus movimentos registrados por diferentes câmeras, sob a direção do americano Michael Lindsay-Hogg.

Enquanto isso, no porão, a música chegava a gravadores de oito canais controlados pelo produtor George Martin, o engenheiro de som Glyn Johns e o operador de fita Alan Parsons (que horas antes comprara meias-calças para envelopar os microfones e minimizar ruídos e que poucos anos depois estaria auxiliando o Pink Floyd a criar o seu disco-monumento “The dark side of the moon”).

Cartazes com as letras

Na hora do show, o movimento na rua era o de pessoas que saíam para o almoço, e que se perguntavam que som era aquele que ouviam. Público, mesmo, foi o de Maureen Starkey (mulher de Ringo), Yoko Ono (mulher de Lennon), a equipe técnica e secretárias de firmas de advocacia, que se aboletaram nos terraços próximos. Lennon, desacostumado com as apresentações ao vivo, tinha que ler cartazes com algumas das letras das músicas.

E assim, os Beatles, em seu último show, passaram por “Get back”, “Don’t let me down”, “I’ve got a feeling”, “One after 909” e “Dig a pony”. Uma câmera montada na recepção da Apple registrou o momento em que policiais entraram no prédio para ordenar ao grupo que parasse de fazer aquele barulho todo.

As gravações de “One after 909” e “Dig a pony” e o primeiro take de “I’ve got a feeling” entrariam em “Let it be”, o último álbum da banda (em 1969, eles ainda gravariam e lançariam o LP “Abbey Road”), que chegou às lojas em maio de 1970, pouco depois de Paul McCartney anunciar sua saída, o que significou, na prática, o fim dos Beatles. Ao fim da última faixa desse último álbum, “Get back”, o produtor Phil Spector enxertou uma (para variar, irônica) fala de John Lennon no show, que serve como despedida: “Eu gostaria de agradecer em nome do grupo e de nós mesmos, e espero que tenhamos passado na audição.”

Lennon foi assassinado em 1980, George Harrison sucumbiu ao câncer em 2001 e o prédio da Apple hoje abriga, no térreo, uma loja de roupas para crianças. O que ficou daquele show foi o exemplo, recriado em 1987 em videoclipes tanto pelo U2 (tocando “Where the streets have no name” na rua em Los Angeles até a chegada da polícia) quanto pelo Ultraje a Rigor (que parou a Avenida Paulista, com uma apresentação em cima do Top Center para lançar o LP “Sexo!!”).

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