Por que grifes como Versace e Ralph Lauren estão deixando o Brasil

Passada euforia de otimismo, país atravessa fim de superciclo do luxo nas araras de moda
Pedro Diniz

Fachada da loja Roberto Cavalli, na rua Bela Cintra, em São Paulo, único ponto da marca que sobrevive no país. Foto Eduardo Knapp/Folhapress Eduardo Knapp/Folhapress

Prestes a completar uma década desde que se vendeu como promessa do luxo, o Brasil dá sinais de cansaço nas araras. O superciclo de abertura de lojas iniciado em 2010 parece ter chegado ao limite para as grifes internacionais de moda que, hoje, passada a euforia de otimismo e a bancarrota do consumo, aparam os excessos para desenhar uma paisagem ajustada aos hábitos do brasileiro.

saída definitiva da Versace, em dezembro, foi acompanhada do adeus da Ralph Lauren, distribuída pelo grupo JHSF, que fechou a megaloja do shopping Cidade Jardim para focar esforços na etiqueta mais acessível da marca, a Polo Ralph Lauren.

Outra despedida aconteceu na semana passada, quando a Roberto Cavalli fechou o único ponto que mantinha em centros comerciais, no shopping Iguatemi, em São Paulo, para manter apenas a “flagship” na região dos Jardins, também na capital paulista.

Os vestidos de festa Lanvin, o casual da Kate Spade e os relógios Vacheron Constantin foram os primeiros a sucumbir às oscilações do câmbio e ao desajuste de preços com o hemisfério Norte, consequência do “custo Brasil”, apontado pelo mercado como determinante para vendas esquálidas.

Soma-se à equação o fato de os consumidores continuarem a comprar fora do país. Ainda que a crise tenha produzido um recuo de quase 4% em relação a 2017, os brasileiros gastaram R$ 66 bilhões em viagens internacionais no ano passado, segundo dados do Banco Central. Sabe-se que mais de 20% desse montante é usado em compras de vestuário.

Ficou claro para as marcas que, mesmo com o bolso disponível, a compra internacional carrega status para o consumidor daqui. Nesse contexto, lojas, para etiquetas de luxo, servem mais como vitrines do que veículos de vendas.

Isso fez com que marcas abrissem mão da operação própria para entregar os negócios nas mãos de parceiros locais, caso da Michael Kors e da Jimmy Choo, atualmente abrigadas no grupo de distribuição brasileiro Dorben.

Ao mesmo tempo, o movimento de sair da rua para o shopping dizimou o “quadrilátero do luxo” paulistano, na região da rua Oscar Freire, em São Paulo, e criou bolhas de consumo em shoppings de alto padrão. São eles que mantêm, por exemplo, nomes como Diane vonFurstenberg, Goyard e Vilebrequin, geridas pelo braço iRetail do grupo Iguatemi, e Emilio Pucci (JHSF).

É curioso perceber como a moda brasileira começa a ter importância para o país tanto quanto as etiquetas estrangeiras. Pequenas grifes, como as homônimas de Cris Barros, Paula Raia e Lily Sarti, conseguiram abocanhar espaços deixados pelas grifes que saíram e sua clientela cativa da classe A, promovendo uma espécie de tropicalização do estilo vendido pelas grifes internacionais e uma relação mais próxima dos consumidores.

Menos megalomania, mais cuidado com a curadoria de peças e contato personalizado com os clientes devem definir a sobrevivência das etiquetas que resistem por aqui.

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